Purgatório

Há duas maneiras de se evitar o Purgatório: santificando-se ou condenando-se. A Igreja e o mundo moderno lutam incansavelmente para que evitemos o Purgatório. Como seria bom se a Igreja, para tornar o seu trabalho ainda mais eficaz, unisse-se ao mundo moderno! Não obstante, é de se presumir que o resultado não seria o mesmo—sem nenhuma surpresa nossa—e nesse sentido nada mais oportuno do que considerar que quanto mais o espírito do mundo seduz os católicos para o pecado, menos fiéis rezam pelo sufrágio das almas que ainda padecem no Purgatório; e uma das maneiras para se seduzir ao pecado é justamente menosprezando as suas penas, como se fosse um “estágio de purificação” sem padecimentos. Em outras palavras, desconsiderar a doutrina da Igreja sobre o Purgatório é se expor mais facilmente à presunção de pecar, porque uma vez recebida a absolvição sacramental, convencemo-nos de que não há mais nada a purgar ou sofrer. Na verdade, se quisermos chegar à santidade é preciso crescer em caridade pelas almas do Purgatório, rezando pelo seu sufrágio, e aprendendo com os seus sofrimentos a tomarmos resoluções mais firmes e mais fiéis contra o pecado.

Com efeito, o pecado não implica apenas o mal da culpa, ação deliberada contra Deus, contra si mesmo ou outrem, mas também o mal da pena, aquilo que o homem deve sofrer como consequência do pecado. No dizer de Santo Tomás: “Sendo o pecado um ato desordenado, é evidente que todo o que peca, age contra alguma ordem. E é portanto decorrência da própria ordem que seja humilhado. E essa humilhação é a pena.” (Suma de Teologia, Ia IIæ, q. 87, a. 1) Deus Nosso Senhor, Autor da ordem da nossa salvação, “humilha-nos” pela pena, isto é, pelo mal que nos impõe, em reparação ao “prejuízo” que o pecado inflige contra esta ordem. Enquanto uma pena eterna é devida ao pecado mortal—isto é, o inferno, onde a principal pena consiste na privação eterna de Deus—uma pena temporal é devida ao pecado venial.

Se o Sacramento do Batismo nos configura à Paixão de Nosso Senhor e nos dá uma vida nova, perdoando toda a pena, o Sacramento da Penitência, por sua vez, é apenas uma cura, de modo que uma parte da pena devida ao pecado permanece. Deus Nosso Senhor assim permite para nos convencer mais eficazmente a evitarmos o pecado, por causa das penas que nos afligem. Consequentemente, se alguém porventura morre em estado de graça mas sem ter completamente expiado as penas devidas aos seus pecados, não pode ainda entrar na visão da glória até que esteja plenamente justificado, porém como o tempo para merecer termina com a morte, esta alma já não pode fazer nada para si a não ser sofrer certas penas físicas num lugar de purificação, o Purgatório. O Catecismo do Padre Spirago define o Purgatório como “lugar onde sofrem temporariamente as almas dos homens que morrem sem pecado grave, mas cujos pecados não estão ainda inteiramente expiados.” Do Purgatório nos fala tanto a Sagrada Escritura (cf. II Mac. 12, 43, Mt. 12, 32, I Cor. 3, 15) quanto a Tradição, e o Magistério o definiu como dogma de Fé nos Concílios de Lião (1274), Florença (1439) e Trento (1545-63).

Contrariamente a uma concepção branda da Justiça divina, no Purgatório há fogo material, isto é, a pena dos sentidos. Como a origem da sensibilidade é a alma—diz Santo Tomás—, o agente lesivo da alma há de fazê-la sofrer soberanamente. E o fogo tendo a propriedade de purificar e consumir, a sua finalidade no Purgatório não é atormentar, mas purificar pelo sofrimento, ainda que seja essencialmente o mesmo fogo que há no inferno. Os pecados que facilmente teríamos expiados nesta vida pela oração, penitência e boas obras, no Purgatório são expiados com muito sofrimento, pelo simples fato de o agente purificador, o fogo, agir diretamente sobre a nossa alma. Donde a Liturgia tradicional pedir a libertação das “penas do inferno” na antífona do Ofertório. Esta opinião comum dos teólogos está presente tanto no Catecismo tridentino quanto na profissão de Fé escrita pelo Papa Paulo VI (1968).

Mas pior que a pena dos sentidos é a pena de dano, isto é, a privação temporária da visão da glória, pois as almas se vêem impedidas de possuir o Sumo Bem apesar de todo desejo que têm por ele.

O que elas podem fazer por si mesmas no Purgatório senão sofrer, já que o tempo de merecimento termina com a morte? Estas almas aguardam os nossos sufrágios, pela oração, penitência, boas obras e, principalmente, a Santa Missa. O IV Mandamento não se resume à honra devida aos pais e parentes nesta vida, o cuidado para com eles na doença, na morte e na sepultura, inclui as orações a que somos obrigados a lhes oferecer após a morte, a fim de que pela Comunhão dos Santos elas possamos ajudá-las a cumprir a Justiça divina.

Se tivermos em alta conta tais sofrimentos teremos um maior temor em recair no pecado, inclusive o pecado venial, como se fosse um mal insignificante ou facilmente reparável. Ao invés de nos escandalizar e nos suscitar dúvidas sobre a Misericórdia de Deus, a doutrina tradicional sobre o Purgatório apenas ilumina a nossa inteligência sobre o prejuízo incalculável de se preferir o vício à virtude, o pecado à graça, porque nisso nos desviamos ou do Sumo Bem—pelo pecado mortal—ou dos meios que nos conduzem à sua posse—pelo pecado venial—na luz da glória. Em outras palavras, como podemos desejar brandura e mediocridade na purificação daquilo que impediu de amar o Sumo Bem de todas as nossas forças? A Justiça pede a expiação; a Misericórdia nos dá a ocasião e nos oferece inúmeros consolos para que suportemos essas penas com paz profunda, esperança inabalável, paciência insuperável, caridade ardente e perfeita resignação à vontade de Deus, como diz São Francisco de Sales nos seus “Pensamentos consoladores sobre o Purgatório”.

Assim, a oração que dedicarmos às almas do Purgatório conterá também uma reflexão sobre os nossos hábitos e sobre a nossa vida espiritual. Quem se compadece das almas que padecem aprecia o que realmente vale o pecado, as suas penas e consequências, e por conseguinte luta mais eficazmente para evitar o Purgatório evitando o pecado.

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