Sermo in octava Paschæ

Bethlehem, 19 aprilis A.D. 2020

Por Pe. Ivan Chudzik, IBP.

“Uma coisa viu, outra coisa creu”: o ato de Fé e a aparição de Nosso Senhor aos apóstolos

Ave Maria.

Divino Menino Jesus.

Nossa Senhora do Rosário.

São José.

Santo Antônio de Lisboa.

Caros fiéis, no Evangelho que a Igreja nos lê neste domingo da oitava de Páscoa, ouvimos São João dizer que os milagres por ele narrados têm por finalidade conduzir-nos à vida de Fé, ou, em suas próprias palavras: “[…] para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais a vida em seu nome.” (Jo. XX, 31)

A Fé, conforme ensina São Paulo na epístola aos Hebreus: “[…] é uma certeza a respeito do que não se vê. “ (Hb. XI, 1) A Fé é a adesão da nossa inteligência às verdades que Deus mesmo nos revela, às verdades acerca da Sua natureza, das Suas Pessoas divinas, do Seu plano de salvação. Nós não vemos tais verdades, elas não nos são evidentes. Se tais verdades fossem evidentes, não seria necessário crer nelas, pois onde existe evidência, onde podemos exercer a nossa ciência, a fé dá lugar à certeza racional. Portanto, se cremos é porque não vemos.

Por outro lado, isso não quer dizer que o ato de Fé não tenha nenhum fundamento racional. O ato de Fé não é absurdo, não é irracional, não é mero sentimentalismo. O ato de Fé se fundamenta na autoridade daquele que revela, isto é, na autoridade de Deus, que não pode Se enganar e nem nos enganar. Deus é sabedoria infinita: não pode Se enganar; Deus é bondade infinita: não pode nos enganar. E se Deus quer nos revelar a Sua natureza íntima e os Seus desígnios de salvação, nós não podemos Lhe recusar a Fé simplesmente porque não vemos as realidades que Ele nos revela. A autoridade de Deus basta para que o ato de Fé seja infalível.

Todavia, caros fiéis, Deus é um só, mas as religiões são muitas, os homens que dizem falar de Deus e em nome de Deus são muitos. É preciso distinguir a verdade revelada da falsidade dos homens e das ilusões do demônio. Para tanto, se não podemos ver as verdades reveladas, porque elas são por natureza invisíveis aos nossos olhos, podemos, por outro lado, ver os motivos de credibilidade. Deus reveste as verdades reveladas de motivos de credibilidade, que são, por assim dizer, a “assinatura de Deus”, o “dedo de Deus”. Nos Evangelhos, vemos a obstinação dos fariseus em negar os milagres de Nosso Senhor, acusando-O de curar em nome do demônio, e agiam com tal malícia porque, se reconhecessem a origem divina dos milagres, seriam obrigados a confessar que Nosso Senhor era o verdadeiro Messias. Portanto, os milagres, assim como as profecias, a duração da Igreja até os nossos dias—apesar de tantas perseguições e crises—, a excelência da doutrina e a beleza da moral, a santidade heróica de muitos membros da Igreja, são todos estes motivos de credibilidade; são sinais que tocam a nossa inteligência, que falam à nossa inteligência e que removem todos os obstáculos para o ato de Fé.

Aqui, porém, caros fiéis, devemos compreender bem a ordem e a natureza das coisas. A inteligência pode tocar os motivos de credibilidade; por exemplo, as ciências podem concluir que uma cura não tem explicação médica, que certos sinais não têm origem natural ou causa humana, como por exemplo, os milagres eucarísticos. Isto não significa que a inteligência pode provar a Fé, isso não torna as verdades de Fé evidentes para a nossa inteligência. A inteligência toca os motivos de credibilidade, os quais removem os obstáculos ao ato de Fé, porque nenhuma causa natural ou humana poderia produzir o milagre, as profecias, a virtude heróica dos Santos, etc. Os motivos de credibilidade removem os obstáculos e argumentam a favor do ato de Fé, mas se alguém irá crer ou não, se alguém irá aderir às verdades de Fé ou não, isto não depende propriamente dos motivos de credibilidade.

Neste ponto, percebemos, caros fiéis, que o ato de Fé não depende somente da inteligência, depende também da vontade. Os milagres, as profecias e todos os motivos de credibilidade removem os obstáculos e dão motivos para o ato de Fé, porém não causam o ato de Fé. Ninguém se tornará crente e devoto apenas porque conhece milagres e profecias autênticas. Os fariseus são o exemplo mais evidente disso, porque eles viram os sinais de Nosso Senhor e não creram. O ato de Fé não depende apenas da razão, porque a razão continua não vendo as verdades de Fé, mesmo que os motivos de credibilidade demonstrem que é razoável crer. É preciso, portanto, que a vontade intervenha, que a pessoa dê a sua adesão—por um ato de vontade—àquilo que não é absurdo, mas que, ao mesmo tempo, a razão não vê. E este é o ato de Fé, um ato ao qual concorrem tanto a inteligência quanto a vontade.

Falta-nos ainda um elemento, caros fiéis, o mais importante, a graça. Não basta querer crer, não basta aderir de bom grado às verdades que Deus revela, porque como se trata de verdades sobrenaturais, a inteligência não pode aderir, não pode crer em verdades divinas sem o auxílio da graça. Por esta razão, o Sacramento do Batismo imprime em nossa alma a virtude da Fé, isto é, uma capacidade de crer. No Batismo, Deus capacitou, Deus aperfeiçoou a nossa alma tornando-a apta para exercer a Fé, tornando-a apta a aderir às verdades sobrenaturais. Mesmo que uma pessoa julgue razoáveis as verdades de Fé e que tenha a intenção de professá-las, se não houver o auxílio da graça, não existe Fé sobrenatural e meritória. Ou seja, este ato puramente humano é ineficaz, não é uma adesão àquelas realidades, àquelas coisas por meio do ato de Fé.

De fato, caros fiéis, a Fé nos faz aderir à realidade das coisas que não vemos. Quando um católico exerce a virtude da Fé, a sua inteligência toca aquelas realidades invisíveis, porque ele se une a Deus pela Fé. O que distingue o estado presente desta vida do estado dos eleitos no Céu, é que nós cremos no que eles já vêem; eles vêem o que nós ainda cremos. De todo modo, a Fé já é uma união, uma adesão às realidades divinas, mas uma união menos perfeita, a partir da qual é possível entrar numa união mais perfeita, pelo exercício da Caridade e por fim, pela visão da glória no Céu. Como ensina o Concílio de Trento, “[…] ‘a fé é o princípio da salvação humana’, o fundamento e a raiz de toda justificação […].” (ses. VI, cap. 8) A Fé já nos faz tocar nas realidades sobrenaturais pela adesão da inteligência, então ela é o começo e o fundamento da salvação.

A partir destes princípios da doutrina católica, podemos extrair muitas conclusões do Evangelho da oitava de Páscoa, especialmente para dissolver  confusões que aparecem em ambientes ditos católicos, mas de mentalidade liberal.

Primeiramente, caros fiéis, São Tomé viu o Cristo ressuscitado, viu o milagre da Ressurreição, mas o ato de Fé não consiste em constatar, com os sentidos e com a inteligência, que se trata do mesmo Cristo que morreu na Cruz. Se a evidência do corpo ressuscitado bastasse para o ato de Fé, então não haveria ato de Fé, porque onde há evidência, não há necessidade de crença. Como ensina São Gregório Magno: “aliud vidit, aliud credit”, isto é, uma coisa ele viu e outra coisa ele creu. São Tomé viu o corpo ressuscitado, mas pelo ato de Fé creu na verdade da Ressurreição, verdade esta que não se vê nem se prova. A evidência do corpo ressuscitado não tem causa natural ou humana, não se explica pela ciência dos homens; mas a ciência dos homens tampouco pode exigir o ato de Fé. A ação divina durante a Ressurreição permanecendo oculta e a Divindade de Nosso Senhor permanecendo invisível, São Tomé exerceu a Fé, São Tomé creu.

Em segundo lugar, Nosso Senhor diz: “Felizes aqueles que crêem sem ter visto!” (Jo. XX, 29) Quanto menor a necessidade de motivos de credibilidade, maior é a nossa Fé, mais ela é meritória. Portanto, o progresso na vida espiritual consiste justamente na diminuição dos suportes humanos, na diminuição das consolações e dos sinais para que a alma se lance em adesão a Deus, pela Fé e pela confiança—que são virtudes distintas—unicamente porque Ele é bom, sem duvidar ou hesitar que Ele é bom, aconteça o que acontecer. A alma que se diz muito abençoada por sinais e por consolações deve, certamente, agradecer a Deus pelos Seus dons; todavia, deve reconhecer também que isso pertence especialmente às almas fracas, aos principiantes, porque a união com Deus é semelhante à subida no Calvário: devemos perder tudo para ganhar o Tudo, que é Deus. O exercício da Fé, quanto mais puro, quanto menos apoiado em sinais e consolações, mais é meritório, mais é perfeito.

Em terceiro lugar, como declara São João no Evangelho, se ele narrou certos milagres é: “[…] para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus […].” (Jo. XX, 31) Os milagres, portanto, estão a serviço da Fé na Revelação divina. O católico não deve pedir a multiplicação de milagres e sinais, como fazem os protestantes pentecostais, porque a união com Deus não se dá pelos milagres, que são realidades exteriores; a união com Deus se dá primeiramente pela Fé e especialmente pela Caridade. O católico tampouco deve julgar que o Evangelho consiste na narrativa dos milagres, porque Nosso Senhor não veio a este mundo unicamente para fazer milagres, e sim, para ensinar a Sua doutrina e operar a nossa salvação. Os milagres estão a serviço da Sua doutrina, eles dão credibilidade à sua doutrina, e por isso os milagres não são o centro do Evangelho. O centro do Evangelho é aquilo que Nosso Senhor nos diz: “Tomai meu jugo sobre vós e recebei minha doutrina, porque eu sou manso e humilde de coração e achareis o repouso para as vossas almas.” (Mt. XI, 29) O ato de Fé na doutrina, isto é, nas verdades reveladas, é o fundamento da união com Deus, que será aperfeiçoado pelo exercício da Caridade, que é jugo de Nosso Senhor sobre nós: a união com Deus no sofrimento sofrido por amor. Para que não restem dúvidas, caros fiéis, basta acrescentar que os Padres da Igreja sempre interpretaram os milagres como motivos de credibilidade para a doutrina de Nosso Senhor, isto é, para manifestar a sua origem divina e assim mover as multidões ao exercício da Fé.

Em quarto lugar, ainda que a presença de Deus no mundo pela Encarnação seja um fato extraordinário e divino, não podemos perder de vista que a união da segunda Pessoa da Santíssima Trindade a uma natureza humana esteve oculta aos olhos dos homens. Aos olhos dos homens e mesmo do demônio, tratava-se de um homem comum. E mesmo que tenha realizado diversos milagres, se o milagre conduzisse necessariamente ao ato de Fé, não conseguiríamos explicar a incredulidade dos fariseus. A Fé é a adesão da inteligência às verdades sobrenaturais, não a constatação racional dos motivos de credibilidade. A Fé tem por objeto a verdade sobrenatural, a doutrina, não o fato histórico pura e simplesmente, mas a verdade conexa àquele evento divino ou miraculoso. Não podemos confundir os motivos de credibilidade com as verdades sobrenaturais, como fazem tantos.

Aliás, não podemos confundir tampouco a virtude teologal da Fé com a confiança. A confiança, segundo Santo Tomás (S. Th. IIa-IIæ, Q. 129, art. 6), consiste na esperança que possui alguém em receber auxílios de outro, seja porque ele o prometeu, seja por causa da sua conduta, que nos move a ter confiança. Ou seja, a Fé é uma das causas da confiança, como lemos no Evangelho, na cura da hemorroísa: “Tem confiança, minha filha, tua fé te salvou.” (Mt. IX, 22) A confiança também pode ser causada por um fato, por exemplo, a confiança de ser curado da parte daquele que viu os milagres; mas ainda assim, o ato de confiança que se ordena à Pessoa de Nosso Senhor não exclui a Fé em Sua doutrina. Pelo contrário, quem confia na bondade de Nosso Senhor também irá crer em Suas palavras. São os protestantes que reduzem a Fé a um mero ato de confiança, a uma espécie de sentimento de entrega a Nosso Senhor, porque o Protestantismo é uma heresia anti-intelectual.

Por fim, caros fiéis, desse Evangelho devemos extrair uma última conclusão: se o ato de Fé depende do auxílio da graça, do auxílio de Deus sustentando o intelecto a consentir nas verdades reveladas, então a conversão dos incrédulos não é um trabalho somente de apologética, isto é, de defesa da doutrina católica; a conversão dos incrédulos é principalmente um trabalho de vida interior. Como naquele episódio dos Atos dos apóstolos, em que o discurso de São Paulo dispersou os gregos e não converteu mais que alguns poucos ouvintes (cf. At. XVII, 32-34), nossas palavras não convertem por si mesmas se os ouvintes padecem de grande dureza de coração. Quem quer trabalhar pela conversão dos incrédulos, deve, antes, trabalhar em si mesmo a vida interior, pois as palavras que não forem acompanhadas da ação da graça, de uma certa unção, de uma certa presença do Espírito Santo, são palavras frequentemente vãs.

Caros fiéis, tenhamos Fé na doutrina de Nosso Senhor e vivamos ardentemente a Caridade, rezando pelos incrédulos e falando-lhes da nossa santa Religião, com firme esperança de que Nosso Senhor ressuscitado também lhes manifestará a Sua graça e misericórdia, como na aparição a São Tomé.