Sermo in festo inventione Sanctæ Crucis

Bethlehem, 3 maji A.D. 2020

Por Pe. Ivan Chudzik, IBP.

A Cruz, entre a blasfêmia e a glória

“Quanto a mim, não pretendo, jamais, gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo.” (Gal. VI, 14)

Ave Maria.

Divino Menino Jesus.

Nossa Senhora do Rosário.

São José.

Santo Antônio de Lisboa.

Caros fiéis, hoje é a festa da Invenção da Santa Cruz no próprio do calendário brasileiro. “Invenção”, do latim, inventio, quer dizer “encontro”,  “descoberta”, porque a Cruz de Nosso Senhor precisou ser encontrada por meio de uma escavação no monte Calvário.

Hoje, o ofício de Matinas—hora canônica que os religiosos recitam antes do amanhecer—contém a piedosa narrativa da invenção, isto é, do encontro da Cruz. Após a vitória de Constantino sobre Maxêncio, em 312, garantida graças ao sinal da cruz que o Imperador mandou gravar sobre os escudos dos soldados—o que lhe foi dito por meio de uma visão e de um sonho, isto é, para que adotasse o sinal de Cristo—, a mãe de Constantino, Santa Helena, também advertida em sonho, peregrinou a Jerusalém à procura da Santa Cruz. Seu primeiro trabalho quando chegou no Gólgota foi remover a estátua de Vênus, que ali foi erigida para eliminar a memória da Paixão de Nosso Senhor. Em seguida, após se ter cavado profundamente, encontrou-se três cruzes, além do título, isto é, da placa na qual se gravou a sentença de Pilatos. Não era possível, porém, distinguir qual das três era a Cruz do Salvador, quando Macário, Bispo de Jerusalém, após ter entrado em oração, fez uma mulher gravemente enferma tocar cada cruz. Depois de ter tocado sem nenhum efeito as duas primeiras cruzes, ao tocar a terceira, a enferma ficou milagrosamente curada, comprovando qual era a vera Cruz. Santa Helena edificou sobre o Calvário uma magnífica igreja, e levou parte do Santo Lenho até Roma, para ser venerada em uma igreja própria, a Basílica de “Santa Cruz em Jerusalém”, como até hoje é chamada. O Imperador Constantino, por sua vez, sancionou uma lei interditando o suplício da cruz. A cruz, que outrora era objeto de vergonha e desprezo, tornou-se objeto de glória e de veneração.

Caros fiéis, a Cruz de Nosso Senhor é para nós um instrumento glorioso, digno de veneração, e por esta razão a festa da Invenção da Santa Cruz ocorre no tempo pascal. No tempo pascal a Igreja não quer esquecer-se da Cruz, como se a Cruz fosse um sinal de vergonha e de derrota. Pelo contrário, a própria alegria pascal é fruto do suplício da Cruz. No tempo pascal a Igreja glorifica a Cruz, assim como o corpo ressuscitado de Nosso Senhor conserva as santas Chagas, para glorificar os sinais da Sua Paixão.

Mas é preciso dizer mais. Assim como as santas Chagas foram glorificadas na Ressurreição, assim como a Igreja glorifica a Cruz no tempo pascal, assim como a Cruz será vista no Céu no dia do Juízo final, para a consolação dos bons e a confusão dos maus, do mesmo modo, nós também devemos nos gloriar em Deus de nossas próprias cruzes.

Gloriar-se em Deus das próprias cruzes, caros fiéis, exige uma mudança de mentalidade, exige uma verdadeira conversão nossa diante do sofrimento e do mal, porque o católico não é aquele que não sofre, mas sim, aquele que sabe sofrer e que aceita sofrer.

Para realizar em nós esta mudança de mentalidade a respeito de nossas cruzes, precisamos compreender bem o quanto o Evangelho rompe com a mentalidade dos pagãos e dos próprios judeus do tempo de Nosso Senhor.

No tempo de Nosso Senhor, não havia tradição religiosa que não esperasse dos seus falsos deuses toda espécie de vantagem, prosperidade e vitória. Na mentalidade dos pagãos, não havia sentido cultuar aqueles falsos deuses senão para obter proteção e prosperidade sobre si. A religião pagã era apenas a garantia da ordem social, porque enquanto houvesse o culto cerimonial, os deuses não castigariam a sociedade, mas a cumulariam de prosperidade e a protegeriam contra seus inimigos militares. Deste modo, o culto dos deuses era um culto meramente cerimonial, isto é, formal, exterior, era uma troca de favores: os deuses eram honrados e os homens recebiam de retorno algum benefício material.

Os judeus do tempo de Nosso Senhor não pensavam diferente. O Deus de Israel havia necessariamente de obter vitórias políticas contra os gentios e elevar Israel sobre todos os povos. Os judeus daquele tempo não esperavam de Deus uma derrota, uma humilhação, porque, em sua mentalidade, a bênção divina consistia justamente em toda espécie de prosperidade, além do triunfo do povo eleito.

Caros fiéis, o que esta visão estreita da Providência não conseguia admitir é que Deus havia permitido o mal desde o pecado de Adão. O mal tem um lugar no plano da Providência, o mal está misteriosamente a serviço da glorificação de Deus e da nossa santificação. E se o mal tem um lugar no plano da Providência, Deus, que não pode querer propriamente o mal, pode, no entanto, permitir males de todo tipo para deles extrair sempre um bem maior, para deles obter uma maior dilatação da Sua glória, uma maior manifestação da Sua bondade e misericórdia.

Por outro lado, o pecado de blasfêmia consiste justamente na negação desta verdade de Fé. Afinal, a blasfêmia é o grito de ódio de uma alma que nega a bondade dos desígnios de Deus, que se recusa a aceitar que o mal que lhe ocorre e que culpa a Deus pelos seus sofrimentos. O blasfemador não admite que Deus possa extrair do mal um bem maior, o blasfemador não vê sentido no sofrimento.

No Calvário, enquanto os príncipes dos fariseus escarneciam de Nosso Senhor crucificado, enquanto os soldados zombavam de Sua condição humilhante, enquanto o mau ladrão blasfemava e O desafiava a descer da Cruz, a resposta de Deus aos escárnios, às zombarias e às blasfêmias é o próprio Deus sofrendo todo o mal em silêncio, em perfeita conformidade com a vontade de Deus, sem duvidar da bondade de Deus a respeito daquilo que Lhe ocorria. E tamanha era a paz da alma de Nosso Senhor em meio a este dilúvio de blasfêmias que Ele não deixou de suplicar a Seu Pai o perdão dos blasfemadores, porque não sabiam o que faziam (cf. Lc. XXIII, 34).

Caros fiéis, é preciso, portanto, que nós tenhamos sempre diante dos olhos que a crucifixão de Nosso Senhor é a resposta de Deus ao problema do sofrimento e do mal. Deus Se encarna para vir a este mundo sofrer, e sofrer o mais vergonhoso e atroz dos sofrimentos, a morte de Cruz. Deus mesmo sofre o mal porque esta é a maior manifestação da bondade de Deus no mundo. Nosso Senhor crucificado transforma o sofrimento em amor; Ele transforma o sofrimento em ocasiões privilegiadas de exercer heroicamente a caridade, a confiança, o abandono, o dom de Si, sem duvidar da bondade do Pai, sem duvidar dos desígnios do Pai.

Contrariamente à mentalidade dos pagãos e dos judeus, Deus é bom não porque nos priva dos sofrimentos e dos males, mas porque Se serve dos sofrimentos e dos males para nos dar ocasião de uma maior participação à Sua glória. Afinal, é preciso não pouca caridade e confiança para sofrer grandes sofrimentos. A vitória de Deus sobre o mal, portanto, é o próprio Deus sofrendo o mal; não para ser vencido pelo mal, mas para vencê-lo na Ressurreição.

Deste modo, caros fiéis, devemos também nós nos gloriarmos em Deus de nossas cruzes. Elas são ocasiões privilegiadas de mérito e de progresso na vida interior. Deus não pode elevar a uma grande santidade uma alma que não esteja disposta a sofrer, porque a alma que teme o sofrimento está apegada excessivamente aos seus bens e às suas opiniões. Por outro lado, a alma que está disposta a sofrer perde para si uma criatura, perde o controle de uma situação, mas cresce na união com o Criador e na adesão à Sua Providência; e à medida em que está estreitamente unida ao Criador, é então que esta alma vê que, sem Deus, não poderia fazer bom uso das criaturas e tampouco poderia fazer bem ao próximo.

Devemos nos gloriar de nossas cruzes, caros fiéis, porque as cruzes nós não as escolhemos, nós não as planejamos, nós não determinamos nenhum detalhe do seu tamanho, do seu peso, das suas penas, da duração de seu carregamento e se alguma consolação nos será dada no caminho, e por isso temos a convicção de que nos foram preparadas pela Providência. As cruzes obrigam o católico a entregar-se inteiramente nas mãos amorosas da Providência, com a confiança inabalável que Deus é bom mesmo quando nos envia sofrimentos e males, porque destes males extrairá um bem maior que não podemos prever. Durante as cruzes, precisamos continuamente desistir de ajuntar tesouros sobre a terra, desistir de procurar a glória e o reconhecimento dos homens, desistir de fazer da vida um mar de rosas, ou melhor, um mar de consolações e deleites. Durante as cruzes, ou olhamos para o Coração amoroso de Jesus, ou sucumbimos pelo seu peso, seja porque o amor-próprio não aceita ceder, seja porque não conseguimos carregá-las por nossas próprias forças.

Se queremos atingir uma grande união com Deus, lembremo-nos que Nosso Senhor manifestou o Seu abandono nas mãos do Pai enquanto estava pregado na Cruz, pouco antes de exalar o último suspiro. Não atingiremos esta grande união com Deus de longe, ao pé da montanha, mas no alto do Calvário; se o sofrimento é o instrumento pelo qual Deus nos conduz à perfeita renúncia de si, ao perfeito abandono nas mãos da Providência, então devemos aceitar que Nosso Senhor nos convide a carregar a Cruz com Ele, como Ele fez com o Cirineu e como Ele fez com a Santíssima Virgem, que em seu coração se compadeceu sumamente com as dores do seu divino Filho.

Caros fiéis, devemos nos gloriar em Deus de nossas cruzes especialmente na circunstância atual, em que a falta de Fé, a falta de olhar sobrenatural e de confiança em Deus faz tantos católicos caírem nas ilusões do conspiracionismo, como se o mundo estivesse nas mãos dos globalistas, e não nas mãos da Providência. Quanto mais um católico perde seu tempo estudando todos os meandros da política global, procurando identificar todos os atores e todos os atos que conduzirão o mundo a um estado de escravidão ou de controle totalitário, menos Deus parece estar presente, menos a Providência parece importar, menos a oração parece ser eficaz. O mundo não está nas mãos dos homens, caros fiéis, porque os homens estão nas mãos de Deus. Para que um regime totalitário possa escravizar uma sociedade, é preciso que isto seja antes de tudo permitido pela Providência, a título de castigo aos pecados daquela sociedade. Enquanto o católico obcecado pelo conspiracionismo se ufana de ter identificado toda a trama mundial de dominação não percebe o quanto o demônio se satisfaz em tê-lo afastado da vida interior e da confiança em Deus sob a desculpa de salvar-se da mesma trama. Pois quanto mais o católico estuda a trama de dominação, mais ele é dominado por ela, dominado não politicamente, mas psicologicamente. Precisamos reconhecer que é uma das formas mais sutis de conduzir uma alma ao esquecimento de Deus.

Caros fiéis, devemos nos gloriar em Deus de nossas cruzes, sejam elas quais forem. Confiança em Deus em meio aos sofrimentos, paz em meio aos sofrimentos, ação de graças em meio aos sofrimentos. Nosso Senhor não nos dá a cruz se não quisesse também nos oferecer a ressurreição e a glorificação dos Seus filhos.