Predicatio I in Hebdomada majori

Bethlehem a Brasilia, 9 aprilis A.D. 2020

Por Pe. Ivan Chudzik, IBP.

O Tríduo pascal em espírito de retiro

Ave Maria.

Caros fiéis, as circunstâncias nos obrigam a passar a Semana Santa em casa. A Semana em que a Igreja dispensa as graças mais abundantes, a Semana em que a Igreja renova o mistério da Redenção; as circunstâncias nos obrigam a passá-la em casa, sem acesso à Liturgia.

Após ter instituído o Sacramento da Eucaristia, narra o Evangelho que Nosso Senhor Se dirigiu ao jardim das oliveiras, onde Ele disse aos apóstolos: “Esta noite serei para todos vós uma ocasião de queda; porque está escrito: Ferirei o pastor, e as ovelhas do rebanho serão dispersadas.” (Mt. XVI, 31) Sabemos que o Pastor foi ferido quando da Paixão e Morte de Nosso Senhor; não obstante, a cada vez que a Hierarquia da Igreja atravessa uma crise no exercício da autoridade, e sobretudo em nossa época, em que a Hierarquia sofre com escândalos em tantas matérias e a autoridade dos pastores padece de descrédito, as ovelhas se dispersam.

Para isso, basta observar o estado de alma dos católicos na circunstância atual de pandemia. Um sobrevôo, uma visão geral nas redes sociais é suficiente para constatar que os católicos estão dispersos, confusos, perplexos, mas sobretudo, iludidos. A missão do pastor, em tal cenário, não consiste em adular as ovelhas, dizendo o que elas querem ouvir, fazendo o que elas querem que se faça, cedendo àquilo que há de errôneo em sua conduta. A missão do pastor não é fazer os gostos das ovelhas, evitando de corrigir seus erros e seus vícios, mas conduzi-las à unidade do único rebanho de Nosso Senhor, a Igreja, unidade de Fé, de Caridade e de obediência às ordens legítimas dos legítimos pastores.

Caros fiéis, não podemos viver este Tríduo em espírito de retiro enquanto habitar em nós tantas paixões desordenadas por causa da circunstância atual. Algumas ovelhas estão dispersas por causa do espírito de desobediência e de precipitação diante da suspensão do culto público; outras ovelhas estão dispersas por causa do espírito de preguiça e de intemperança durante a reclusão da quarentena; outras ovelhas estão dispersas por causa do espírito de contenda em debates sobre política ou saúde durante a pandemia; outras ovelhas, por fim, estão dispersas por causa da curiosidade imprudente sobre aparições e profecias que não têm a aprovação da Igreja e cujo conteúdo simplesmente não é razoável. E apesar da dispersão de tantas ovelhas, as ovelhas dispersas estão curiosamente unidas entre si porque em todos os casos faltou o olhar sobrenatural, o olhar de Fé que ilumina a circunstância atual de pandemia e de reclusão. As ovelhas dispersas do rebanho de Nosso Senhor são vítimas de tantos erros e vícios porque não interpretaram os acontecimentos recentes com olhar sobrenatural, de quem procura ver todas as coisas como Deus as vê, uma vez que o olhar de Fé é uma participação à Ciência do próprio Deus.

Queremos viver este Tríduo em espírito de retiro, caros fiéis, porque é o único modo de vivê-lo bem, de santificar-se quando não é possível participar das cerimônias da Igreja. Os católicos podem divergir sobre muitas questões no momento atual, podem divergir em matéria política ou sanitária, mas não podem divergir que o Tríduo deste ano deve ser vivido em espírito de retiro. Por outro lado, não é possível viver o Tríduo em espírito de retiro e receber grandes graças enquanto houver tantas inquietações perturbando nosso silêncio exterior e interior.

Não há retiro sem silêncio; e mais excelente que o mero silêncio exterior é o silêncio interior, silêncio interior que consiste no repouso das nossas potências interiores—imaginação, memória, inteligência e vontade—em Deus. Graças à reclusão da quarentena, o silêncio exterior será mais facilmente praticado; mas é preciso incluir também o silêncio das redes sociais, da visualização de vídeos ou da consulta de notícias durante o Tríduo. Precisamos ser sérios no silêncio exterior, precisamos formar uma resolução séria para que haja silêncio exterior de hoje até Sábado Santo.

À medida em que fizermos silêncio exterior dentro das nossas possibilidades, perceberemos, caros fiéis, que nosso interior continua inquieto, que a imaginação, a memória e a inteligência ainda se mantém apegadas a inúmeras preocupações deste mundo. E esta inquietação precisa ser vencida pela mortificação da fantasia, das lembranças, das introspecções, em suma, da nossa incessante e frequentemente desordenada atividade interior. Se não houver silêncio interior, o Espírito Santo não poderá nos soprar o sopro suave da Sua graça. Se quisermos que Deus fale conosco e nos faça ver o que deve ser corrigido ou aquilo que deve ser feito, nossa natureza deve se fazer toda ouvidos à suave voz da graça.

Peçamos, portanto, esta primeira graça na conclusão do primeiro ponto da nossa pregação, a graça do silêncio interior, a graça de mortificar nossa irriquieta atividade interior, a fim de sermos todos ouvidos ao Espírito Santo.

*  *  *

A graça da mortificação do nosso interior não dispensa a graça de ver a circunstância atual com olhar sobrenatural, com olhar de Fé—e este é o segundo ponto da nossa pregação. O olhar de Fé, como já dissemos, consiste em ver as coisas como Deus as vê. Precisamos não apenas silenciar o vendaval de pensamentos, memórias e imagens que nos perturbam continuamente, precisamos sobretudo pedir a Nosso Senhor a graça de ver as coisas como Ele as vê, isto é, com olhar de Fé.

 Caros fiéis, consideremos o caso daqueles católicos que não aceitam de bom grado a suspensão do culto público. É verdade que houve excessos, é verdade também que o poder civil em diversos casos interferiu na liberdade da Igreja. Mas a simples ordem de suspender o culto público da parte da autoridade legítima de uma igreja local, isto é, o Bispo diocesano, na medida em que o Bispo se vê impossibilitado de garantir o culto público apenas para pequenos grupos ou para evitar graves conflitos com autoridades temporais, esta ordem é uma ordem legítima, porque não atenta contra a Fé e se fundamenta na prudência. A solução de multiplicar as Missas é viável em um país como a Polônia, onde o Clero é jovem e muito numeroso, o que não é o caso do Brasil. Por exemplo, um pároco sem vigário que receba hipoteticamente quinhentos paroquianos aos domingos precisaria celebrar dez Missas para em que cada uma haja apenas cinquenta pessoas. O que talvez os fiéis não saibam, mas já é hora de saber, é que o sacerdote não pode celebrar dez Missas em um dia sem que isso constitua um risco para a dignidade do Sacrifício e o bem espiritual do próprio celebrante. O sacerdote não é uma “máquina de Sacramentos” e a Missa não é um ato mágico. Se há uma solução tanto para garantir o culto público quanto evitar a aglomeração de pessoas, mantendo a distância recomendada entre as pessoas, esta solução não é pura e simplesmente a multiplicação das Missas. É preciso, antes, avaliar cada caso, sendo que, em muitos casos, párocos e vigários já celebram o número limite de Missas aos domingos.

Por outro lado, não podemos contra-argumentar alegando que os mercados continuam abertos, porque as igrejas também estão abertas em muitas Dioceses, felizmente, para a oração privada dos fiéis. Em compensação, é o culto público que está suspenso, como restaurantes e bares estão fechados. Se estivéssemos, de fato, num cenário de perseguição religiosa, por quê não denunciar, então—perdoem-me o argumento—uma perseguição religiosa e gastronômica? É evidente que não se trata de uma perseguição formalmente religiosa—ainda que haja excessos aqui ou acolá da parte da autoridade civil—, tanto quanto restaurantes e bares fechados não são a prova de uma inusitada “perseguição gastronômica”. Não nos esqueçamos que perseguição contra a Igreja sempre houve e o laicismo não perde oportunidades para diminuir os direitos da Igreja. Mas usar da suspensão do culto público como argumento de que tudo não passa de uma conspiração contra a Igreja e que a própria pandemia não existe é uma leitura muito tendenciosa dos fatos, diferente do olhar sobrenatural dos fatos. Sejamos honestos, caros fiéis, se a circunstância atual fosse orquestrada formalmente contra a Igreja, mesmo a celebração privada da Missa teria sido proibida, mesmo as transmissões de Missa teriam sido boicotadas. Mas o que se vê é o contrário: assim que as igrejas fecharam, a visibilidade dos apostolados católicos tradicionais cresceu exponencialmente graças às transmissões virtuais, e esse bem só teria ocorrido durante uma crise.

Se porventura há outras soluções, como, por exemplo, as Missas campais, os bons católicos devem dirigir respeitosamente a sua súplica à autoridade competente, como pede a ordem das coisas, ao invés de cair, na vida particular, em murmurações, indignação, tristeza desordenada, além do espírito de desobediência ou de contenda. Da nossa parte, da parte dos sacerdotes, preferimos obedecer uma medida estrita, mas legítima, que nos priva temporariamente do culto público, do que perder todo o apostolado, do que sacrificar o bem comum em nome do falso heroísmo da desobediência. Esta crise irá passar, este flagelo irá cessar, e o que sobrará será um apostolado certamente com ainda mais fiéis, que descobriram o Rito Romano tradicional graças à circunstância atual, apostolado que o falso heroísmo da desobediência, por vários motivos, teria levado à ruína. O falso heroísmo, na verdade, está próximo da impaciência e da precipitação e longe de um verdadeiro cuidado com o bem comum.

Devemos nos recordar, caros fiéis, que a suspensão do culto público não impede o acesso aos Sacramentos; o que se proíbe é a aglomeração dos fiéis, e não a possibilidade de se receber a Confissão e a Extrema Unção, além do Batismo das crianças em situação de risco. Nós não cessamos de atender as almas, porque, neste caso, seríamos de fato mercenários em fuga.

Na verdade, a suspensão da Missa e consequentemente da distribuição da Comunhão dentro da Missa põe os católicos na mesma situação daqueles rincões do Brasil onde a presença do sacerdote é esporádica, como por exemplo, no interior da Amazônia. Se dissermos que não podemos nos santificar sem a Missa e sem a Comunhão, então concluímos que não é possível ser santo e sequer ser católico no interior da Amazônia, por exemplo—o que é inadmissível. Não é o que diz a Teologia católica. Os Sacramentos são os meios ordinários da graça, mas como ensina a Escolástica, “Deus non alligatur sacramentis”, Deus não está preso aos Sacramentos, Ele pode dispensar a Sua graça para além dos meios que Ele mesmo instituiu. Os Sacramentos, portanto, são os meios ordinários, mas não os únicos.

Caros fiéis, quando São Zózimo encontrou sem querer a penitente Santa Maria egipcíaca no deserto, ela pediu-lhe para retornar no ano seguinte com a Sagrada Eucaristia. Um ano depois deste encontro, a penitente recebeu a Comunhão das mãos de São Zózimo, e ele prometeu retornar no outro ano. Mas quando São Zózimo retornou, no ano seguinte, para dar pela segunda vez a Eucaristia a Santa Maria egipcíaca, ela já estava morta, tendo-lhe deixado uma mensagem gravada sobre a pedra. Sua morte ocorreu pouco depois daquela Comunhão. Não é difícil concluir, caros fiéis, que Santa Maria egipcíaca comungou muito pouco em sua vida, quando, na verdade, são os que comungam frequentemente que deveriam superá-la em santidade, sejam eles sacerdotes ou leigos. Mas o que mais impressiona nesta história é o espaço de tempo entre o primeiro encontro entre Santa Maria egipcíaca e São Zózimo e o segundo, pois o santo retornou ao deserto para dar a Comunhão à santa penitente apenas no ano seguinte. Isto porque São Zózimo só saía do seu mosteiro para meditar no deserto somente na Sexta-feira Santa, e da parte da santa penitente, ela não pediu para receber a Comunhão o quanto antes ou muitas vezes, ela simplesmente se conformou à regra de vida de São Zózimo e esperou para receber a Eucaristia no ano seguinte.

Deste episódio aprendemos, caros fiéis, o quanto os Santos são diferentes de nós, porque os Santos percebem a diferença entre o fim e os meios. Nosso fim é a união com Deus, a santidade, cujo estágio final é a luz da glória, no Céu, mas que já nos é antecipada neste mundo pela graça santificante. Quem vive na graça santificante, possui em sua alma a presença da Santíssima Trindade, a sua alma é o Céu de Deus. Os Sacramentos, a oração particular, a mortificação e todas as boas obras são meios de manter-se em graça e crescer em graça. Certamente que os Sacramentos são meios muito eficazes de santificação, mas ainda assim eles são meios. Isto explica porque muitos penitentes do deserto foram santos, prova de que não é um deserto de areia e tampouco um deserto de Sacramentos que servirá de pretexto para não ser santo.

A santidade, caros fiéis, é a união com Deus, e para se unir a Deus, basta conformar sempre a própria vontade à vontade de Deus. De nada adianta assistir muitas Missas, comungar e confessar-se muitas vezes se não nos aproximamos dos Sacramentos com boas disposições e não procuramos frutificar a graça sacramental pela vida interior. A indignação excessiva de muitos católicos contra a suspensão do culto público pode se originar, em partes, de uma noção quase “mágica” do Sacramento e, em partes, de um apego à consolação sensível do Sacramento, isto é, uma certa gula espiritual.

Se a Providência permite que o culto público seja suspenso, devemos considerar o bem espiritual que é a suspensão de tantas celebrações eivadas de sacrilégios e heresias, como infelizmente ocorre em nosso país, assim como o bem espiritual da nossa própria correção, porque nós também fizemos mau uso dos Sacramentos, nós também abusamos deles. Agora convém reformular as boas intenções, crescer em contrição e afervorar o espírito, na esperança de comungar novamente do Sacramento o quanto antes a Providência permitir. Ao invés de murmurar contra a circunstância atual, devemos considerar, com olhar sobrenatural, se cada um de nós fazia tesouro das suas Comunhões dominicais ou frequentes, se os familiares—o marido ou a esposa, os filhos—também faziam tesouro das suas Comunhões, porque enquanto culpamos de maneira generalizada o Clero de omissão, esquecemo-nos que Nosso Senhor dá a cada época o Clero que o Seu povo merece.

Caros fiéis, agora é o momento de aquietar os ânimos para reconhecer cada um os próprios pecados e aceitar humildemente o castigo que a Providência nos impõe, porque isto é mais salutar e é o que Nosso Senhor espera de nós.

Peçamos, portanto, esta segunda graça na conclusão do segundo ponto da nossa pregação, a graça de reconhecer a nossa profunda indignidade em receber ainda que uma única vez a Santíssima Eucaristia, e o quanto a murmuração é um obstáculo à contrição e humildade que Nosso Senhor espera de nós em tempos de castigo.

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Caros fiéis, talvez o escândalo de muitos diante da suspensão do culto público se deva ao fato de isto ser inédito para a nossa geração. Nossa geração também não conheceu o que é uma verdadeira perseguição religiosa para distinguir a circunstância atual de uma ofensiva violenta contra a Igreja. É preciso recordar que durante a Revolução Francesa, Revolução anti-clerical e anti-católica, ainda que houvesse Missas clandestinas, elas não eram de fácil acesso. A maioria dos católicos precisou praticar a Fé em casa, sem Sacramentos e sem Missa, exatamente como estamos vivendo, isto é, numa pura conformidade à vontade de Deus, sem os meios ordinários da graça.

O “Catecismo dogmático e prático sobre a obediência à Igreja – Para o uso dos que querem conservar a Fé nas circunstâncias presentes”, datado de 1792, isto é, em plena Revolução Francesa, diz o seguinte: “Longe de nós que a impossibilidade em que podemos estar de ouvir a Missa nas festas e nos domingos possa nos dispensar de santificá-los o quanto nos for possível; pelo contrário, é um novo motivo que deve nos conduzir com um novo fervor e um zelo mais ardente. […] Se não nos é mais possível ir sacrificar em Jerusalém, precisamos nos fechar no Cenáculo, com os apóstolos; precisamos fazer-nos templos em nossas casas para nelas adorar o Senhor, de dia e de noite; precisamos, a exemplo dos antigos patriarcas, que os próprios pais de família presidam a estas igrejas domésticas, não se esquecendo nunca que Jesus Cristo está sempre no meio dos que se reúnem em seu nome.”

Em outro trecho, o Catecismo francês diz: “Não temamos de modo algum perder a Fé enquanto fizermos de tudo para conservá-la; Deus não nos abandonará se nós permanecermos firmemente unidos a Ele; Ele saberá compensar interiormente, pela graça, os auxílios exteriores dos quais estaremos privados.”

Em resumo, a doutrina contida no Catecismo francês ensina que a ausência dos Sacramentos não é um impedimento para se guardar a Fé e crescer em graça da mesma maneira, porque o auxílio de Deus nunca falta.

A suspensão do culto público nos faz bem, de certa maneira, porque torna flagrante o quanto a vida espiritual dos católicos pode ser superficial, na medida em que muitos vêem o estado de graça praticamente como um “certificado de boa conduta”, quando o estado de graça é a presença de Deus na alma. Se os católicos conhecem o que é a inhabitação divina, se sabem e costumam fazer o exercício da presença de Deus, então que fujam de toda murmuração e tristeza. A suspensão do culto não nos privou de Deus, privou-nos de um meio sensível de receber as graças, privação esta que é ocasião de progresso na vida espiritual para quem souber aproveitar tal ocasião a seu favor, por uma perfeita conformidade à vontade de Deus.

A suspensão do culto público também é ocasião para aumentar a delicadeza de consciência, como ensina o Catecismo francês: “Como não será mais possível confessar-se tão frequentemente como se podia fazer outrora, será preciso vigiar mais sobre si mesmo, cuidar-se mais do que nunca para conservar a graça em sua alma, animar-se com todo o fervor possível à contrição […].”

Por fim, a suspensão do culto público aumenta a nossa Fé na Comunhão dos Santos, porque sem o acesso à Missa, obrigamo-nos à união espiritual com as Missas que os sacerdotes celebram privadamente. Numa carta de 1795, um católico francês recebia de um amigo o seguinte conselho: “Vós me perguntais, meu caro amigo, o que vós deveis fazer, vós e vossa família, para manter-vos sempre fiéis aos deveres de vosso culto, na ausência de todo pastor legítimo… Nos domingos e nas festas de obrigação não deixai jamais, à hora da Santíssima Missa, de vos unirdes em espírito e em coração a este sacrifício adorável à mesma hora nas diversas igrejas do mundo.”

Sim, caros fiéis, os católicos franceses durante o tempo da Revolução também participavam da Missa espiritualmente, com a diferença que nós temos os meios virtuais para sincronizar a nossa oração à Liturgia, enquanto eles, não. A propósito, os revolucionários ficaram intrigados com esta prática. Um documento relata que, em 1793, na região de Allier, os agentes do ministério do Interior viram os católicos de uma certa aldeia prostrados, às dez da manhã, na direção de Roma, para unirem-se espiritualmente à Missa que o Papa celebrava na intenção deles. Na comuna de Souillac, sudoeste do país, um agente viu católicos ajoelhados diante da própria porta, e quando os interrogou, eles responderam que se uniam às Vésperas que naquele momento eram cantadas em alguma igreja daquela direção. Longe de nós a zombaria, caros fiéis, longe de nós o desprezo da participação espiritual da Missa pelos meios virtuais, porque em tais atitudes agimos à semelhança dos revolucionários, que também não compreendiam o sentido daquilo.

Peçamos, portanto, esta terceira graça na conclusão do terceiro ponto da nossa pregação, a graça de uma verdadeira, de uma humilde conformidade à vontade de Deus durante a suspensão do culto público, porque nisto consiste o essencial da vida espiritual.

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Além da murmuração, da tristeza e da indignação que podem corroer nosso íntimo durante a circunstância atual, e assim impedir o silêncio interior, outro obstáculo consiste no espírito de preguiça e de intemperança durante o período de reclusão. Não podemos admitir este espírito durante o Tríduo, caros fiéis, se porventura caímos nele durante as últimas semanas de Quaresma. A suspensão do culto público unida à ociosidade do isolamento social não são nossas “férias de Deus”, porque as “férias de Deus” é o inferno. A vida sem Deus, caros fiéis, é o próprio inferno sobre a terra, ainda que o demônio use de tantos artifícios para tornar este inferno tão atraente e deleitável.

Os sacerdotes se enchem de legítima tristeza ao perceber o quanto muitas ovelhas se deixam arrastar pela ociosidade em tempos em que o culto público está suspenso. Se esta suspensão é justa ou injusta, se pode ser atenuada ou não, o que importa é que um bom católico não perde de vista o amor do Coração de Jesus em nenhum instante, em nenhuma circunstância. É principalmente quando tantos castigos recaem sobre a sociedade que os católicos devem multiplicar os atos de reparação a fim de suplicar o fim da peste e o retorno do culto público e da paz social. Mas se os próprios católicos são os primeiros a abandonar a vida espiritual e se precipitar na ociosidade e no deleitável, especialmente pelo uso excessivo dos meios eletrônicos, então o que esperar da mão de Deus?

Peçamos, portanto, esta quarta graça na conclusão do quarto ponto da nossa pregação, a graça de um zelo ardente, que não admite indiferença ao amor do Coração de Jesus.

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Caros fiéis, no começo da pregação, pedimos a graça do silêncio interior; mas faremos nós silêncio interior durante o Tríduo quando em nosso íntimo estamos vivamente preocupados em acompanhar o noticiário, em desmontar falsas narrativas da pandemia, em descobrir os verdadeiros culpados, em esclarecer consciências sobre as pretensões comunistas de dominação mundial, em suma, em desvendar por nós mesmos as causas humanas da circunstância atual, quando é tão mais simples, para um católico com olhar sobrenatural, quando é tão mais simples reconhecer que todo e qualquer flagelo social é sempre permitido por Deus para a nossa correção, isto é, para castigar-nos? Se todo o empenho dos católicos fosse dirigido a um verdadeiro apostolado de reparação, como pediu Nossa Senhora em Fátima, talvez o flagelo já tivesse cessado ou diminuído consideravelmente.

Peçamos, portanto, esta quinta graça na conclusão do quinto ponto da nossa pregação, a graça de reparar o tanto quanto pudermos o Coração de Jesus como até agora não temos feito por preocupar-nos demasiadamente com as causas humanas da circunstância atual.

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Por fim, caros fiéis, tenhamos olhar sobrenatural, mas fujamos do aparicionismo e do falso misticismo. Não faltam aparições, profecias e mensagens que descrevem castigos tétricos, medonhos, terrificantes, como se Nosso Senhor quisesse a punição por ela mesma, e não o castigo ordenado à correção, para o bem da sociedade. Não, caros fiéis, o flagelo de Deus é sempre medicinal, é sempre ordenado à nossa correção e emenda. E no flagelo atual, tempo não nos faltou para a correção da própria vida: na verdade, os católicos nunca tiveram tanto tempo para recuperar o atraso na oração do que as últimas semanas.

Peçamos, portanto, esta última graça na conclusão do último ponto da nossa pregação, a graça da emenda da própria vida, da qual muitas vezes a curiosidade de profecias nos afasta.

Façamos silêncio exterior, peçamos a graça do silêncio interior, e sejamos todos ouvidos ao sopro do Espírito Santo durante este Tríduo, que queremos viver como um retiro.