Sermo in IV dominica in Quadragesima

Bethlehem, 22 martii A.D. 2020

Por Pe. Ivan Chudzik, IBP.

Entre os castigos do flagelo da peste, o dever da alegria cristã

“Concedei, nós Vos rogamos, ó Deus onipotente, a nós que somos justamente castigados por nossas más ações, que respiremos aliviados pela consolação de vossa graça.”

  • Ave Maria.
  • Divino Menino Jesus.
  • Nossa Senhora do Rosário. 
  • São José.
  • Santo Antônio de Lisboa.

Caros fiéis, chegamos à metade da Quaresma, e para recompensar nossas almas pelos esforços de penitência, este é considerado o domingo da alegria, o domingo da multiplicação dos pães, em que a Igreja quer saciar nossas almas com o alimento da consolação.

Rapidamente, porém, nasce em nosso íntimo o receio de que a alegria deste IV domingo da Quaresma está impedida pelos eventos atuais. À primeira vista, parece-nos impossível manter a alegria diante de uma hecatombe, uma mortandade que flagela o mundo todo, especialmente a Europa. Parece-nos impossível manter a alegria diante da iminente expansão deste flagelo a proporções que dificilmente conseguimos calcular. Parece-nos impossível manter a alegria, se o pão que a Igreja quer nos multiplicar neste domingo, o pão eucarístico, o Sacramento do Corpo e do Sangue de Jesus Cristo, cessou de ser distribuído às almas cristãs, porque o culto público cessou.

Caros fiéis, se pensamos isso, se dizemos isso, não compreendemos por quê o IV domingo da Quaresma é o domingo da alegria, a saber, porque a alegria que a Igreja quer nos comunicar hoje é a alegria que provém do triunfo da Cruz. Lembremo-nos que, no II domingo da Quaresma, a Igreja nos fez contemplar o mistério da Transfiguração, para que a consideração da glória de Nosso Senhor nos dê coragem para suportar as privações da penitência e da mortificação. Hoje, o IV domingo da Quaresma, a Igreja nos faz contemplar o triunfo da Cruz do Salvador, para que nenhum sofrimento ou perturbação deste mundo abale a nossa certeza de que já somos vencedores, porque o Cristo venceu o mundo pela Cruz. O IV domingo da Quaresma, portanto, é o domingo daqueles que aguardam participar do triunfo da Cruz, que estão certos do valor da penitência quaresmal e de todo sofrimento aceito por amor a Deus, o que é causa da alegria deste domingo.

Isso significa que a verdadeira alegria cristã é interior. A alegria cristã é um fruto do Espírito Santo: quanto maior a união com Deus, mais a alma se alegra em Deus que habita em seu interior, pela graça santificante. Quanto mais a alma frequenta a presença da Majestade divina em sua alma, menos ela se abala e comove com aquilo que é exterior e passageiro. Quanto mais a alma mede todas as coisas pelo peso e o valor que elas têm diante da eternidade, menos a cruz pesa e maior é o desejo do Céu, da visão da glória.

A alegria cristã é interior, caros fiéis. Portanto, para que o IV domingo da Quaresma não seja para nós, neste ano, o domingo da alegria, somente no caso de perdermos a Fé ou a Esperança sobrenatural. Mas se a nossa alegria é espiritual, se ela vem do triunfo da Cruz, então não será o flagelo da peste que irá nos comover.

A alegria espiritual é a alegria que provém não somente da presença de Deus em nossa alma, pela graça santificante, mas também da consideração da bondade de Deus em todas as coisas. Na simplicidade ou na complexidade das criaturas, em toda parte vemos que Deus é bom, porque fez bem todas as coisas. A bondade de Deus está presente na Criação, está presente no dom que Ele nos faz da Sua graça e inclusive, para a surpresa de alguns, nos males que Ele permite. Sim, caros fiéis, Deus é bom nos males que Ele permite, porque se permite um mal é para extrair dele um bem maior.

Se somos católicos, não podemos nos escandalizar com os castigos, porque quem ama, castiga; quem ama não pode tolerar que o amado se perca, e, portanto, castiga. O que seria um escândalo para o mundo, para nós, católicos, é objeto da nossa alegria: dos males que Deus permite, Ele extrairá um bem maior, e isso deve nos alegrar.

Devemos ter um olhar de Fé, um olhar sobrenatural sobre os eventos, a fim de procurar quais graças Nosso Senhor quer extrair dos males que permite.

Primeiramente, do flagelo da peste que nos assola atualmente, devemos admirar o quanto Deus humilhou a soberba da sociedade moderna, e isto é fácil de se perceber. Na verdade, um vírus mal pode ser contado entre os seres vivos: trata-se apenas de um parasita, de uma criatura ínfima, microscópica. Isto significa que um parasita que não tem vida e nem pode ser visto a olho nu—um vírus—conseguiu perturbar gravemente o bem comum da humanidade, justamente numa época em que certos cientistas especulam sobre a superação da morte física, a substituição completa do trabalho humano pela robótica, ou seja, justamente numa época em que o homem quis, de certa maneira, “concluir a torre de Babel” pela pretensão de se fazer deus. Enquanto o homem delirava com um Paraíso terrestre fabricado pelas suas mãos, ele não podia contar com um inimigo biologicamente tão simples e tão ínfimo. O flagelo da peste, caros fiéis, castiga a soberba da sociedade moderna, e isto é um bem.

Em segundo lugar, podemos presumir, sem certeza absoluta, mas podemos presumir que o flagelo da peste é um castigo contra o pecado do aborto. A sociedade moderna vê os filhos como um peso que impede a liberdade dos pais, ou melhor, a libertinagem dos pais, frequentemente despreocupados com a fidelidade matrimonial. A peste castiga os adultos, mas poupa a maioria absoluta dos bebês e das crianças. Em outras palavras, a sociedade que quis se livrar dos bebês e das crianças perece, enquanto os bebês e as crianças sobrevivem.

De certa maneira, podemos presumir também que o flagelo da peste é um castigo contra o pecado da eutanásia. A sociedade moderna promove a cultura da morte, fazendo do “suicídio assistido” uma escolha da liberdade individual. Por outro lado, a peste semeia velozmente o contágio e a morte, e a sociedade moderna está em pânico. Justamente a sociedade que procurou a morte, que decretou a morte de inocentes, que considerou os idosos um fardo para os jovens, que os confinou em asilos ou lhes deu a possibilidade de cometer “suicídio assistido” agora se desespera em não poder salvar todas as vidas. A peste paradoxalmente moveu o homem moderno a defender a todo custo a vida, quando até então morrer era um “direito” dos cidadãos desta sociedade atéia.

Em terceiro lugar, podemos presumir que o flagelo da peste é um castigo contra o pecado da impureza. A peste fez cessar a vida social, a peste recolheu os cidadãos em suas casas e eliminou o contato humano. É verdade que ainda há insanos insistindo em manter as relações sociais como se a peste fosse um mal distante, mas isto também é próprio do desespero do pecado: o pecador que recusou a graça durante a vida está mais inclinado à obstinação no mal, porque não julga que o seu pecado tenha perdão. De todo modo, o flagelo da peste fez fechar ambientes imorais, fez cessar festas imorais, fez cessar, inclusive, o simples contato humano. O flagelo da peste nos obriga a manter distância, a procurar o recolhimento, e assim somos confrontados com a terrível verdade de que estamos sós no mundo. O barulho e a agitação do mundo tendo cessado, redescobrimos a própria solidão, redescobrimos que todas as paixões desordenadas são apenas uma ilusão, uma fuga do vazio. O teatro do mundo cessou com a peste, e agora o homem moderno se vê privado de suas desordens, tendo que suportar uma vida muitas vezes sem sentido e quase sem fuga para o deleitável.

Em quarto lugar, podemos presumir que o flagelo da peste é um castigo ao pecado da avareza. Não sabemos quais serão as proporções da crise econômica deflagrada pela peste, mas podemos presumir que serão profundas. E Nosso Senhor mais uma vez humilha a sociedade moderna, castigando o seu capitalismo imoral.

Por fim, caros fiéis, podemos presumir que o flagelo da peste seja um castigo não apenas para o mundo, mas também para a Igreja. Em numerosas Dioceses, especialmente na Itália, o culto público cessou e mesmo as igrejas estão fechadas. Precisamos reconhecer, caros fiéis, que nas últimas décadas os católicos fizeram mal uso da Santa Missa e dos Sacramentos, seja pela indiferença, seja pelo abuso das coisas santas. Uns pecam porque não cumprem o preceito, não frequentam os Sacramentos. Outros pecam porque se confessam mal e comungam mal, pelo pecado do sacrilégio. Isto significa que tanto a indiferença quanto o abuso das coisas santas são justamente castigados pela suspensão do culto público.

Mas observemos bem, caros fiéis, o culto público está suspenso, mas o culto privado ainda permanece. E graças aos meios de comunicação modernos, os fiéis podem se unir com mais eficácia às Missas que continuam sendo celebradas em todo o mundo. O culto público cessou, mas a Comunhão dos Santos não. Sobrou-nos a Comunhão dos Santos, sobrou-nos a contrição perfeita e a Comunhão espiritual. Sobrou-nos a devoção à Santíssima Virgem e aos Santos, e este é um grande bem que a Providência extrai do flagelo da peste, porque obriga os católicos do mundo inteiro a terem verdadeira fome e sede das graças sacramentais como até então não foi o caso. A suspensão do culto público nos obriga a corrigir nosso interior, porque o que sobrou com a suspensão do culto público é a oração particular e a união às Missas que se celebram em todo o mundo, pela Comunhão dos Santos. A suspensão do culto público e a drástica redução da vida social obriga-nos a um retiro, a uma união mais intensa com Deus. Agora já não podemos dizer que o trabalho nos impede de rezar mais ou que o barulho nos impede de ler ou meditar. Deus fez bem todas as coisas, caros fiéis, Deus é bom, porque a sociedade desacelera a fim de que os católicos de todo o mundo entrem em retiro espiritual para alcançarem a graça do fim da peste.

Deus fez bem todas as coisas, caros fiéis, Deus é bom. Se Ele castiga é para o bem dos Seus eleitos, se Ele castiga é porque quer extirpar os pecados da sociedade e lançar fora o príncipe deste mundo, o demônio. Se Ele castiga, podemos esperar que a sociedade que sobrevirá a este castigo será mais temente a Deus, mais católica. Devemos sofrer com heroísmo, oferecendo nossas tristezas e angústias ao Coração de Jesus, a fim de que Ele cumule de alegria cristã o nosso coração. Devemos sofrer com heroísmo, sabendo que a figura deste mundo passa, e mais do que nunca percebemos que nenhum pecado mortal ou venial compensa. Devemos sofrer com heroísmo, porque todas as crises e castigos servem para produzir santos. Devemos sofrer com heroísmo, porque se o pecado é a causa dos castigos, devemos evitar o pecado a todo custo, seja mortal seja venial.

Peçamos a Nosso Senhor a graça da alegria cristã. Se tivermos o espírito sempre alegre, de uma alegria interior e sobrenatural, venceremos a tentação da ociosidade, venceremos os sentimentos de angústia e tristeza, venceremos a tentação de acompanhar sem cessar as notícias, venceremos, sobretudo, o medo da solidão. A alegria cristã é fruto da união com Deus. Onde Deus está, as paixões desordenadas são corrigidas, os pecados são evitados, e a solidão é vencida. Peçamos a alegria cristã, peçamos a alegria espiritual. Mais do que antes ela se faz necessária, mais do que antes precisamos nos recordar do triunfo da Cruz, causa da nossa alegria. Eis a graça que a Igreja pede no IV Domingo da Quaresma, que nós, que somos justamente castigados por nossas más ações, respiremos aliviados pela consolação da Sua graça.