Sermo in festo Purificationis B.V.M.

Bethlehem a Brasilia, 2 februarii A.D. 2020

Por Pe. Ivan Chudzik, IBP.

A festa da Candelária, festa da luz: os sacramentais e a vida interior

Ave Maria.

Divino Menino Jesus.

Nossa Senhora do Rosário

Santo Antônio de Lisboa.

Caros fiéis, hoje se completa quarenta dias da Natividade de Nosso Senhor e se encerra o ciclo litúrgico do Natal. Com a apresentação do Menino Jesus no Templo, podemos dizer que finalmente percorremos todos os mistérios da Infância de Nosso Senhor e estamos a um passo de entrar no ciclo da Páscoa, com a proximidade da Septuagésima.

A Candelária é uma das festas mais antigas da liturgia católica; os primeiros relatos de que temos conhecimento da sua celebração remontam ao século IV. A festa começou no Oriente, em Jerusalém, e posteriormente foi adotada em Roma. Os orientais a nomearam desde cedo de “Encontro”, por causa do encontro de Simeão com o Menino Jesus, enquanto em Roma a festa era reputada como sendo de Nossa Senhora, razão pela qual os livros litúrgicos a intitulam de festa da Purificação da Santíssima Virgem. Atualmente se prefere dizer festa da Apresentação de Nosso Senhor no Templo; mas, independente do nome que lhe damos, estamos diante de um mistério da vida do Salvador que toca diversas figuras, desde a Sua Mãe Santíssima até o velho Simeão e a profetisa Ana.

Caros fiéis, a apresentação do Menino Jesus no Templo não apenas encerra o ciclo do Natal, como também é uma transição muito clara para o ciclo da Páscoa. Os autores espirituais costumam dizer que hoje é o Ofertório da vida de Nosso Senhor. O Menino Jesus está nos braços da Sua puríssima Mãe, assim nós O adoramos ao longo das festas do tempo do Natal; mas hoje ela O oferece no Templo e recebe de Simeão a profecia da espada de dor. Hoje, portanto, a Igreja celebra as últimas alegrias do Natal, o último mistério da Infância do Salvador, que não deixa de ser o primeiro dos mistérios que nos conduzem à Paixão.

Hoje é o Ofertório da vida de Nosso Senhor. No Antigo Testamento, a lei mosaica—isto é, a lei de Moisés—exigia que todo primogênito, homem ou animal, fosse consagrado a Deus no templo, para recordar que os primogênitos dos hebreus foram salvos quando o Anjo do Senhor ceifou todos os primogênitos do Egito. Ou seja, os primogênitos dos israelitas, tendo escapado do castigo, eram propriedade de Deus e precisavam ser apresentados no Templo. Enquanto os animais eram sacrificados, os homens, porém, eram resgatados, isto é, oferecia-se uma espécie de espórtula ao Templo em substituição do primeiro filho. Este sacrifício não é aquele do qual narra o Evangelho, isto é, as duas rolinhas ou pombas, porque este sacrifício era o que a lei mosaica exigia para a purificação da mãe após o parto.

Caros fiéis, devemos compreender o motivo deste mistério. Nosso Senhor se submeteu tanto à Circuncisão quanto à Apresentação no Templo não apenas para credibilidade à Sua pregação—para que não O acusassem de infrator da Lei—, mas principalmente para afirmar que Ele é o sentido daquelas prescrições, porque elas preparavam a Sua vinda. A circuncisão da carne preparou a vinda do Salvador porque somente Ele poderia circuncidar a nossa alma do pecado, pelo Batismo; a apresentação no Templo, por sua vez, também preparou a Sua vinda porque Ele é o Unigênito de Deus, cujo sacrifício nos resgata da condenação eterna. Há quem diga que quando os católicos meditam o Rosário eles honram a lei judaica, porque a Apresentação do Templo e a Purificação de Nossa Senhora fazem parte dos mistérios gozosos. Este é mais um erro propagado pelos intelectuais da nova Direita. Não é o Rosário que honra a tradição judaica, da mesma maneira que não é Nosso Senhor que Se submete à Lei de Moisés por obrigação; pelo contrário, é a Lei que encontra o seu termo, a sua perfeição em Nosso Senhor. Com a vinda de Nosso Senhor, a Lei mosaica será substituída pelos Sacramentos da Nova e Eterna Aliança. É a Lei, portanto, que honra a Nosso Senhor, porque Ele cumpre as prescrições da Lei enquanto Senhor e Autor delas, para afirmar que a partir do Seu Sacrifício elas cessariam. É verdade que o Salvador dá exemplos de humildade e obediência ao cumprir a Lei mosaica, mas Ele cumpre livremente a Lei a fim de levá-la à perfeição, a fim de conduzi-la ao seu termo final, que é o Novo Testamento. A conclusão, caros fiéis, é que um católico não pode ser judaizante; não podemos nós honrar a lei judaica enquanto tal porque o que havia de transitório já foi ab-rogado, e o que havia de duradouro nos pertence, na Nova e Eterna Aliança.

Na festa da Purificação de Nossa Senhora, a Igreja também benze solenemente as velas e sai em procissão. Todo o ciclo do Natal é, na verdade, uma progressão da luz. A Luz é uma imagem da nossa participação à vida de Deus, pela graça. Assim como a luz ilumina e aquece, do mesmo modo, a graça sustenta a nossa inteligência para crermos nas verdades de Fé e confirma nossa vontade para amarmos a Deus. A luz, portanto, é uma imagem da graça; e como a Encarnação de Nosso Senhor é o meio pelo qual a luz da graça nos é comunicada, no ciclo litúrgico do Natal podemos observar a progressão desta luz, isto é, da manifestação da graça de Deus. No Natal, a luz brilha em meio às trevas; na Epifania, a luz brilha sobre Jerusalém, isto é, sobre a Igreja, atraindo para si os pagãos, cujas primícias são os magos; na Apresentação do Menino Jesus, a Luz de Deus está nos braços de Simeão, o justo. A bênção das velas, portanto, é um sinal da progressão da luz, é um sinal exterior da graça invisível que Nosso Senhor nos comunica pela Igreja: assim como é da Igreja que recebemos as velas, também é pela Igreja que nos vem a graça. Fizemos um esforço para manter as velas acesas durante a procissão; mantivemos as velas acesas durante o Evangelho e ainda as manteremos durante o Cânon da Missa. Do mesmo modo, não queremos perder a graça santificante por causa das ventanias movidas pelo demônio durante as tentações; do mesmo modo, queremos que a Liturgia da Igreja acenda em nossas almas a luz da Fé e a chama da Caridade.

Por outro lado, o costume antigo do Rito Romano prescrevia que a procissão da Candelária fosse em paramentos roxos, o que é um sinal de penitência. Esta penitência se deve, primeiramente, por causa das Lupercais romanas, festas imorais que consistiam em procissões noturnas à luz de tochas. O itinerário da Santíssima Virgem, de Belém a Jerusalém, para apresentar o Menino Jesus no Templo serviu para reparar as procissões pagãs através da procissão da Candelária. Em segundo lugar, ainda que tais procissões pagãs tenham cessado com a vitória do Cristianismo sobre o Império romano, ainda temos um motivo profundo para guardar o espírito de penitência durante a procissão da Candelária: afinal, a Luz que Simeão carregou nos braços ainda não brilhou para muitos. Ainda há uma multidão de almas que vivem na cegueira do pecado e na dureza de coração, recusando-se a crer ou, o que é pior, obstinando-se em confessar-se. Devemos, sim, fazer penitência por aqueles que até agora não viram a salvação como Simeão a viu, ou por aqueles que viram, mas se recusaram em carregá-la nos braços, como Simeão a carregou.

A bênção da Candelária é solene, é rica em graças, porque o sacerdote benze as velas com cinco longas e profundas orações, em que se percebe claramente o quanto o Antigo Testamento encontra o seu termo e a sua perfeição no Novo Testamento. As velas bentas são sacramentais, isto é, ritos instituídos pela Igreja, e não por Nosso Senhor, a fim de santificar as diversas realidades temporais. Os sacramentais agem ex opere operantis, ou seja, os sacramentais agem à medida em que aquele que se serve deles tem Fé. Os sacramentais, portanto, não são objetos mágicos, não agem por si mesmos. Sua santificação depende da Fé; quanto maior for a Fé a devoção, maior será o efeito, maiores serão as graças.

Dito isso, caros fiéis, devemos combater sem concessões todo espírito de superstição nos sacramentais. De nada adianta multiplicar a presença de objetos bentos em casa, se não temos vida católica. Quem não procura viver na graça santificante não pode esperar uma graça súbita e extraordinária na hora da morte simplesmente porque usou o escapulário durante a vida. É uma presunção, portanto, esperar uma graça extraordinária, apenas porque leu em algum autor espiritual, que Nossa Senhora salvou uma alma do inferno no último momento. Nenhum de nós pode garantir que terá a mesma graça. Nós devemos viver, caros fiéis, para agradar a Deus, e não para ofendê-Lo com a presunção de que seremos salvos ao fim da vida, pouco importa a vida que tivemos. Há quem peça a benção de objetos, da casa ou do veículo ao sacerdote e esquece de pedir o principal: o Sacramento da Confissão. Caros fiéis, que entre nós não haja a menor marca de superstição no uso dos sacramentais: devemos usá-los com Fé, como sinais da graça e não como objetos mágicos ou amuletos.

Ainda com relação aos sacramentais, devemos combater também todo exagero no combate ao demônio por meio dos sacramentais. Infelizmente, muitos católicos fazem da vida espiritual um mero combate ao demônio. Infelizmente, muitos católicos multiplicam em suas casas sacramentais de toda espécie como se o demônio tivesse um poder muito maior do que ele tem, como se o demônio pudesse violar a nossa alma e nos possuir a qualquer instante. Não devemos fazer da nossa vida espiritual um filme fantasioso de exorcismo; não devemos atribuir ao demônio uma importância e um poder que ele não tem. Enquanto nos preocupamos demasiadamente em repelir o demônio, com inúmeras e incontáveis orações de exorcismo, cura, libertação, contra maldições etc., deixamos de pedir o principal, que é o amor do Coração de Jesus. A vida interior, caros fiéis, consiste na união com o Coração de Jesus, em ser, de certa maneira, transformado por Ele pela Caridade. Quanto mais estamos próximos de Nosso Senhor, menos devemos temer o demônio e o pecado com temor servil, porque mais estaremos revestidos da piedade filial, a qual nos faz temer a Deus porque Ele é bom e não merece ser ofendido. Aqueles que se preocupam demasiadamente com o demônio caem nas suas armadilhas sem perceber, porque é impossível crescer em graça fazendo da vida espiritual uma verdadeira “guerra de trincheira” com o demônio, porque este é um sinal claro de uma vida espiritual ainda muito voltada para si mesmo, que teme o sofrimento e que procura nos sacramentais um alívio moral ou psicológico. Pelo contrário, caros fiéis, aceitemos o sofrimento e inclusive a presença das tentações como parte da nossa vida espiritual e da nossa santificação, mas usemos dos sacramentais que a Igreja nos dá como armas a fim de vencer este combate, cujo maior inimigo não é o demônio, mas o amor-próprio.