Sermo in dominica in Septuagesima

Bethlehem a Brasilia, 9 februarii A.D. 2020

Por Pe. Ivan Chudzik, IBP.

A Septuagésima e alguns conselhos aos rapazes

Ave Maria.

Divino Menino Jesus.

Nossa Senhora do Rosário

Santo Antônio de Lisboa.

Caros fiéis, estamos a setenta dias para a Páscoa de Nosso Senhor; entramos, portanto, no tempo da septuagésima, que é a preparação longínqua para a Páscoa. Depois da Septuagésima, passaremos à preparação próxima, a Quaresma, e finalmente à preparação imediata para a Páscoa, o Tempo da Paixão. Durante a Septuagésima, a Igreja ainda não nos impõe a obrigação do jejum e da penitência; mas é notório que a Liturgia já se revestiu de uma certa austeridade: o hino do Glória é omitido, enquanto o verso do Aleluia é substituído por versículos de índole mais penitencial, cujo nome é Tracto. A cor dos paramentos é o roxo, cor da penitência, e o aparato do altar deve ser mais simples, ainda que as flores não estejam proibidas. A Igreja ainda não nos impõe a obrigação do jejum e da penitência, mas quer nos fazer entrar num espírito de penitência.

O espírito de penitência, caros fiéis, é muito necessário. Quando um atleta se põe a fazer exercícios físicos, ele deve primeiramente aquecer os seus membros, pois, do contrário, pode haver uma lesão. Do mesmo modo, a Igreja, nossa boa Mãe e Mestra, não pode nos fazer entrar num tempo de penitência sem antes preparar o nosso espírito à penitência. A Septuagésima é mais uma prova da pedagogia da Igreja, da riqueza da nossa tradição litúrgica e espiritual: antes de entrar no tempo de penitência, devemos adquirir um espírito de penitência.

O espírito de penitência se adquire pela recordação dos próprios pecados, da consideração detalhada e profunda dos próprios pecados. Por esta razão, as leituras do Ofício Divino apresentam aos clérigos e religiosos a queda de Adão, o dilúvio e a destruição de Sodoma e Gomorra, a fim de recordar-lhes o pecado original e a recorrente infidelidade da humanidade. As leituras e salmodias da Missa também nos preparam à penitência ao tratar das disposições de alma necessárias durante o combate espiritual. De fato, não fará uma boa quaresma quem não tiver adquirido uma consciência profunda dos próprios pecados, quem não confiar em Deus, que pode nos curar deste estado de miséria, quem não exercer a caridade, sem a qual as nossas obras de nada valem, quem não carregar generosamente a própria cruz, pois o combate espiritual é a nossa configuração ao Cristo crucificado, quem não perseverar até o fim, porque sem perseverança final não há coroa da glória. Todas estas disposições estão inclusas no Tempo da Septuagésima, nestas três semanas que nos separam do primeiro domingo da Quaresma.

Assim como um atleta deve, primeiramente, aquecer os seus membros antes de praticar os exercícios físicos, do mesmo modo, quem pretende empreender uma grande obra deve, antes de tudo, calcular tudo o que é necessário para que a obra não fique inconclusa por falta de recursos. O Tempo da Septuagésima, caros fiéis, foi instituído para evitar o nosso fracasso durante a Quaresma por falta de preparação, por falta de cálculo. Não é raro que um católico entre na Quaresma sem ter determinado ainda quais as penitências que pretende fazer, ou que mude de resolução após alguns dias de combate espiritual fracassado. Não é raro que um católico entre na Quaresma com a pretensão de compensar, durante os quarenta dias, toda uma vida de pecado, como se a Quaresma fosse uma espécie de imposto, de tributo a ser pago após o pecado, dando-nos liberdade para retornar aos nossos vícios uma vez que for cumprida. Não é raro que um católico entre na Quaresma com o espírito contrariado, fazendo apenas o estrito necessário e murmurando contra o jejum e a abstinência. De fato, caros fiéis, que entre nós não haja este espírito, pois nós não somos como os animais de carga, que são conduzidos à força, nós somos filhos de Deus. Devemos amar a penitência, porque tais privações são um mal necessário, um sofrimento necessário a fim de recuperarmos o bom uso da liberdade e a pureza de alma perdida. Devemos amar a penitência, porque nos configura ao nosso santíssimo Redentor, que viveu mortificado por amor, que Se submeteu ao sacrifício da Cruz por amor.

É preciso considerar que, no Calvário, Nosso Senhor perdeu tudo, foi privado de tudo, renunciou a tudo. No Calvário, Nosso Senhor Se privou mesmo de Sua santíssima Mãe, que Ele confiou ao discípulo amado, e esta entrega da Mãe não ocorreu sem dilacerar a Sua alma de dor. O Calvário, portanto, caros fiéis, é o monte dos amantes: ninguém pode ser cumulado, invadido, consumido por caridade se ainda conserva na própria alma o menor afeto desordenado. O amor de Deus não aceita dividir o nosso coração com nenhuma criatura, pois as criaturas são como o nada em comparação com o amor de Deus. A penitência, a mortificação e os sacrifícios quaresmais, caros fiéis, são nossa subida ao Calvário; e se o preço da nossa total configuração com o amor do Coração de Jesus for estas penitências, estas mortificações, estes sacrifícios, então que a Septuagésima nos ajude a considerar vivamente tudo aquilo que ainda obstrui a ação da graça, a fim de que durante a Quaresma possamos empreender um combate generoso, corajoso e perseverante.

Afinal, se não procurarmos adquirir o espírito de penitência nestas três semanas que antecedem a Quaresma, quando o jejum quadragesimal chegar diremos a nós mesmos que estas penitências “nos aborrecem” e que “não vemos necessidade para tudo isso”. O demônio procurará nos tentar a não ver sentido no sofrimento, como se a penitência não pudesse produzir nada além da fome do corpo e da tristeza da alma. Este é o tempo, caros fiéis, de exercitarmos a nossa alma na consideração dos nossos pecados antes de exercitarmos o nosso corpo com as práticas penitenciais; este é o tempo para fazermos o plano da nossa Quaresma, a fim de não capitularmos diante das tentações que virão. Devemos concluir o Tempo da Septuagésima profundamente convencidos da própria miséria, da própria malícia, do próprio pecado. Sem este estado de espírito, não faremos uma boa quaresma.

Para tanto, caros fiéis, convém que, durante a Septuagésima, tenhamos coragem em renunciar tantos entretenimentos supérfluos para dedicarmos mais tempo à leitura espiritual. Convém renunciar a tantas séries, filmes e outros entretenimentos que não apenas consomem o nosso tempo livre como também nos imergem na tibieza, na preguiça e nos expõem a ocasiões frequentes de impureza. Durante a Septuagésima, menos televisão, menos redes sociais, menos entretenimentos fúteis para pessoas fúteis, e mais tempo dedicado à leitura espiritual. Há católicos que não têm e nunca fizeram leitura espiritual. A partir desta Septuagésima, não será mais o caso. Há católicos que nunca leram os clássicos da espiritualidade, que nunca leram Santo Afonso ou São Francisco de Sales. A partir desta Septuagésima, não será mais o caso. Devemos ler, dar muito tempo à leitura espiritual durante a Septuagésima, para que o espírito esteja bem convencido da necessidade de fazer da própria vida uma resposta ao amor do Coração de Jesus, e o quanto a mortificação é uma via muito necessária para não nos separarmos deste amor.

Estamos a três semanas do primeiro domingo da Quaresma, e cada um de nós, durante a Septuagésima, deverá fazer a preparação e o plano para este tempo forte de graça. Cada um de nós, caros fiéis, deve se perguntar: o que a Igreja espera de mim durante a Quaresma?

Neste domingo, quem receberá resposta a tais questões são primeiramente os rapazes. Quanto às moças e aos casados, devem aguardar os dois domingos subsequentes. Hoje, os rapazes solteiros devem ouvir o que a Igreja, por meio do sacerdote, tem a dizer-lhes, o que a Igreja espera dos rapazes durante a Quaresma.

A Santa Madre Igreja espera dos rapazes que eles amadureçam. Que se tornem adultos em sua vida e costumes, o que significa adquirir senso de responsabilidade.

Os rapazes devem considerar que a sociedade na qual vivem os engana, e quer enganá-los, se assim puder, até a perdição das suas almas. Ninguém deveria viver tranquilamente, seguramente, se soubesse que vive num país em guerra. Pois se não vivemos numa guerra civil ou contra potências estrangeiras, no entanto, o demônio, príncipe deste mundo, coordena as estruturas do mundo para a perdição das almas. Os jovens devem se perceber numa sociedade fabricada para a perdição das suas almas. Ao acessar as redes sociais, ao sair nas ruas, ao andar num shopping, os jovens devem se perceber uma sociedade em que Nosso Senhor foi destronado pelo Liberalismo e que nos solicita incessantemente ao pecado.

O modo de operação do demônio, caros jovens, é solicitar a concupiscência, isto é, o desejo pelos bens deleitáveis. Os bens deleitáveis foram criados por Deus, mas, infelizmente, pode-se fazer mal uso deles quando se passa da justa medida ditada pela razão. O deleite causado pelos alimentos, por exemplo, é uma recompensa a um ato bom e necessário que é a nutrição do corpo; mas quem se excede na comida, não apenas se afeiçoa desordenadamente a uma criatura que lhe é inferior, perdendo a liberdade de espírito, como também prejudica a própria saúde. A consolação que Deus imprimiu na intimidade conjugal é uma recompensa a um ato bom e necessário para o gênero humano, que é a propagação da espécie; mas se isto excede a medida da razão, produz uma imensa cegueira de espírito.

Caros jovens, a sociedade moderna é moldada à imagem do demônio, porque a sociedade moderna se recusa a reconhecer o reinado de Nosso Senhor. Na sociedade moderna tudo brilha, tudo atrai a nossa curiosidade, tudo seduz a nossa concupiscência. A sociedade moderna, portanto, procura vencer os rapazes pelo deleitável, pelo concupiscível, seja por meio daquilo que é claramente imoral, claramente pecaminoso, seja por meio de circunstâncias perigosas, que cedo ou tarde conduzirão as almas ao pecado grave e ao estado habitual de pecado.

O que a Igreja espera dos rapazes católicos durante a Quaresma é que eles vençam o atrativo do concupiscível, que eles não reduzam a natureza humana a uma cloaca, a um esgoto, que está aberto a todas as imundícies. Sim, caros jovens, é assim que o demônio os trata, porque lança contra os jovens, nas mais diversas circunstâncias, todo o tipo de impurezas. Impurezas nos pensamentos, impurezas nas modas, impurezas nas redes sociais, impurezas nas conversas e costumes da sociedade, impurezas nos filmes e séries. O demônio trata os jovens como cloaca, como esgoto. Mas vocês, jovens católicos, são filhos de Deus, templo do Espírito Santo. Sob o olhar da Fé, vemos o quanto o demônios nos odeia, o quanto quer nos privar da vida da graça, o quanto ele despreza a Paixão de Nosso Senhor, tratando os jovens como esgoto.

E o que ocorre quando um rapaz cede às tentações e vive como se fosse esgoto? O que ocorre quando um rapaz se afunda na dependência do deleitável, porque se tornou escravo do bem estar, do conforto e todos os excessos da concupiscência? Ocorre que este rapaz adquire horror ao trabalho e ao sofrimento. Em outras palavras, ele se torna imaturo e irresponsável.

O que a Igreja espera dos rapazes durante a Quaresma é que eles não fujam mais do sofrimento, do combate que irá conduzi-los à maturidade, pelo qual se tornarão, finalmente, adultos. A seriedade com que os rapazes farão a própria quaresma pode evitar uma vida adulta trágica, como a daqueles velhos que tentaram Suzana, conforme narra o livro de Daniel (cf. Dn. XIII, 9), que envelheceram no pecado e foram perversos mesmo na velhice.

Os jovens não podem ser inconsequentes, não podem ser irresponsáveis, como se o pecado não produzisse consequências na alma. O pecado produz consequências, que iremos pagar ao longo da vida. Infelizmente os maus hábitos que temos hoje começaram a se sedimentar já na infância. O que somos hoje, caros jovens, foi construído desde a infância. A conclusão é que continuar a pecar é solidificar ainda mais o vício, é rejeitar para hoje a graça que não podemos garantir para amanhã, é preferir uma vida de irresponsabilidade diante da eternidade, para a qual fomos feitos. Se um jovem quer se tornar adulto, ele deve empreender um combate contra os vícios; do contrário, enquanto ele faz da vida um sonho delirante, o demônio faz da sua alma um esgoto.

Durante a Quaresma, o jejum, a mortificação e a abstinência irão ajudá-los, caros jovens, a perceber a efemeridade da vida. Enquanto nossos contemporâneos constroem verdadeiros castelos de vaidade—pela imagem narcisista que têm de si mesmos—, a sensação de fome, o estômago vazio, durante o jejum quadragesimal, irá libertá-los deste fardo pesado que é parecer importante e interessante aos olhos dos outros, quando não passamos de pó da terra. A sensação de fome, o estômago vazio, caros jovens, dará uma percepção mais verdadeira da nossa limitação, da nossa pequenez, da nossa miséria. O jejum inclina à humildade; e o humilde não se crê no direito de possuir todas as coisas para si. O jejum, portanto, dispõe a alma à parcimônia, à castidade, à mansidão. O jejum dos alimentos fará o jovem católico ter fome e sede da graça de Deus, da Eucaristia.

Nesta Quaresma, caros jovens, o jejum deve ser praticado com seriedade, com coragem, com perseverança. É o que a Igreja espera dos jovens católicos: que deixem de ser o esgoto do demônio.