Sermão para o 4º Domingo do Advento

Bethlehem a Brasilia, 22 decembris A.D. 2019

Por Pe. Ivan Chudzik, IBP.

Ainda há tempo para a luz fulgurante da graça brilhar em nossas almas

“Suscitai, pedimos-Vos, Senhor, o Vosso poder e vinde: e socorrei-nos com grande força; para que, com o auxílio da Vossa graça, o que os nossos pecados afastam, Vossa benigna misericórdia acelere.”

Ave Maria.

Divino Menino Jesus.

Nossa Senhora do Rosário

Santo Antônio de Lisboa.

Caros fiéis, Nosso Senhor vem a este mundo para iluminá-lo das trevas do pecado. Na epístola da Missa, São Paulo diz: “Ele porá às claras o que se acha escondido nas trevas. Ele manifestará as intenções dos corações.” (I Cor. IV, 5) Pois, se o Salvador disse aos seus discípulos: “Vós sois a luz do mundo” (Mt. V, 14), ou então: “[…] brilhe vossa luz dian­te dos homens […]” (v. 16), e, de fato, a vida dos Santos é uma farol luminoso de vida de oração e de prática das virtudes, o que dizer, então, da luz do próprio Salvador, Ele que é Luz da luz? Pois se os Santos já nos iluminam, a vinda de Nosso Senhor a este mundo é mais do que a luz de um farol, é o sol das virtudes, o sol da graça, o sol da santidade.

Assim devemos esperar a graça do Natal, assim devíamos ter nos preparado à graça do Natal: o Natal não é uma mera festa da sociedade civil, uma festa familiar; o Natal não é a mera recordação do nascimento do Salvador; o Natal não é uma simples memória que será cantada pela Liturgia e nada mais. Nós, católicos, devemos crer firmemente que a cada Natal Nosso Senhor nasce de novo na medida em que a Igreja aplica de novo as graças da Natividade, na medida em que a Igreja comunica de novo, aos seus filhos, as graças deste mistério. A diferença, portanto, é que, para nós, Ele não irá nascer segundo a carne, isto é, fisicamente, da Santíssima Virgem; a diferença é que, para nós, Ele irá nascer espiritualmente em nossas almas, por uma infusão da graça deste mistério.

Quando vier o Salvador, diz o profeta Isaías: “[…] a luz da lua será viva como a do sol, e a do sol brilhará sete vezes mais como a luz de sete dias […]” (Is. XXX, 26). Caros fiéis, iremos receber de novo, muito em breve, em nossas almas, a graça da Natividade. Nossas almas serão inundadas pela luz de Deus, nossas almas deverão se assemelhar a uma lua viva, que brilha como o sol, ou a um sol que brilha sete vezes mais. Não são todas as festas da Liturgia católica que são antecedidas por uma vigília, isto é, por um dia de preparação, e somente o Natal e a Páscoa são antecedidos não por uma vigília, mas por um tempo próprio de preparação. A graça da Natividade não pode passar por nossas almas sem torná-las brilhantes, fulgurantes da Luz de Deus, e por esta razão a Igreja nos preparou ao longo das últimas três semanas e ainda nos dá um pouco de tempo nos poucos dias que perfazem a quarta semana do Advento. A Igreja nos deu este tempo de preparação, de penitência, de purificação, porque quer encontrar-nos todos brilhantes, fulgurantes da Luz de Deus. Assim um católico deve se preparar e esperar o Natal, como um tempo extraordinário de graça e de luz, um tempo, como diz o profeta, em que o sol brilha sete vezes mais.

Mas ai de nós! Se o tempo do Natal é um tempo extraordinário de graça, um tempo em que o sol brilha sete vezes mais, não corremos o risco de sermos como os fariseus, cegos diante do Messias, cegos na presença de Deus, cegos na casa de Deus, cegos de orgulho, cegos de vaidade, cegos de impureza? A Igreja nos deu o tempo do Advento para nos prepararmos para a graça extraordinária da Natividade, e o que fizemos das últimas três semanas? Por acaso este tempo litúrgico passou despercebido porque preparamos nossa festa de Natal, mas não a nossa alma para a graça do Natal? Por acaso este tempo litúrgico passou despercebido porque preparamos as nossas férias, mas não a nossa alma para ser a nova hospedaria do Menino Jesus? O Advento, caros fiéis, é um tempo litúrgico infelizmente roubado pelos festejos de fim de ano. Raros são os católicos que procuram se santificar com afinco no tempo do Advento, raros, portanto, serão os católicos cuja alma será como um sol que brilha sete vezes mais.

Devemos ser sinceros e concluir que se não houve preparação no tempo do Advento, ainda restam em nossa alma muitos e numerosos obstáculos para que a luz da graça brilhe fulgurante no tempo do Natal. E de que valem as festas, de que valem os banquetes, de que valem os presentes, de que valem as viagens, se o motivo da festa, se o Menino Jesus não nascer em nossa alma ou se encontrarmo-nos tão afastados dEle? Nenhuma festa que prepararmos para o Natal agradará ao Menino Jesus se o próprio Menino Jesus for o primeiro ausente ou o grande desconhecido desta festa. Caros fiéis, sejamos sinceros: se não houve preparação no tempo do Advento, chegaremos à noite de Natal indispostos à luz fulgurante da graça.

Por outro lado, se a lembrança dos nossos pecados nos constrange e nos entristece, se concluímos, com sinceridade, que preparamos o nosso Natal ainda como mundanos, não nos esqueçamos do que diz hoje a oração da Coleta, aquela primeira oração que o sacerdote recita diante do Missal: “Suscitai, pedimos-Vos, Senhor, o Vosso poder e vinde: e socorrei-nos com grande força; para que, com o auxílio da Vossa graça, o que os nossos pecados afastam, Vossa benigna misericórdia acelere.” Devemos ter firme e inabalável esperança, caros fiéis, de que Deus é infinitamente misericordioso e poderoso para devolver-nos o que os nossos pecados nos roubaram, para apressar o que os nossos pecados atrasaram, para aproximar o que os nossos pecados afastaram, porque iremos receber de Deus à medida da nossa esperança. Neste quarto domingo do Advento devemos ter firme e inabalável esperança de que ainda há tempo para recebermos a luz fulgurante da graça na noite de Natal, ainda há tempo para que o sol da graça brilhe sete vezes mais em nossas almas.

Para tanto, devemos combater toda cegueira voluntária, toda malícia, toda obstinação no pecado. Caros fiéis, não podemos aproximar-nos da graça extraordinária do Natal sem termos feito uma boa Confissão. Seria uma ofensa ao Menino Jesus que nos aproximemos da Sua manjedoura como feras, como bestas selvagens para devorá-Lo ao invés de sermos como cordeiros do Seu rebanho, que pastam na Sua manjedoura e se alimentam da Sua vida divina. Não podemos aproximar-nos da graça extraordinária do Natal, portanto, sem termos feito uma boa Confissão.

E fazer uma boa Confissão consiste não apenas em dizer, ou melhor, em listar pecados. É preciso fazer um diligente exame de consciência na presença de Deus e procurar detestar tais pecados não apenas porque nos merecem o inferno, mas principalmente porque ofendem a Deus, que é só Amor, infinito Amor. É preciso detestar tais pecados pelos quais cada um de nós apunhalou o Menino Jesus e continua a apunhalar pela recusa de confessá-los, pelo apego a um bezerro de ouro, a um pecado de estimação, a uma consolação desordenada, a um relacionamento pecaminoso. Neste quarto domingo do Advento, caros fiéis, tomemos a firme resolução de não mais fugir da Confissão e de não mais “listar pecados”, mas de confessá-los como quem quer se livrar deles para amar a Deus, que é Amor infinito, e não apenas fugir da condenação eterna.

Fazer uma boa Confissão também consiste em dizer a quantidade pelo menos aproximada dos pecados graves, porque assim pede a Igreja e assim dita a caridade: se ofendemos a Deus inúmeras vezes, não devemos fazer pouco caso de cada uma destas ofensas, confessando-as tão abstratamente, tão friamente. Fazer uma boa Confissão consiste, por fim, em dizer as circunstâncias agravantes. Não toda e qualquer circunstância, porque isto não interessa ao tribunal do Sacramento da Confissão, mas sim, as circunstâncias agravantes, aquelas que acrescentam uma malícia suplementar ao pecado. Por exemplo, cometer pecados graves no domingo é também um sacrilégio contra o dia santo.

Façamos uma boa Confissão antes do Natal, caros fiéis, e não sejamos indiferentes à fulgurante Luz de Deus que brilhará naquela noite e que quer nascer em nossas almas. Combatamos, com o auxílio da graça, toda cegueira voluntária, todo apego ao pecado grave e mesmo ao pecado leve. Deus não merece ser ofendido, merece ser amado. Se “o Amor não é amado”, como disse São Francisco, então que pelo menos da nossa parte haja amor, que pelo menos nós ofereçamos este presente ao Menino Jesus na manjedoura: um coração puro e limpo de pecados graves. Para que o Menino Jesus possa nascer em nossa alma, expulsemos, extirpemos do nosso coração o bezerro de ouro. E quando isto ocorrer, já será Natal em nossa alma.