Sermão para o 22º Domingo depois de Pentecostes

Bethlehem a Brasília, 10 novembris A.D. 2019

Por Pe. Ivan Chudzik, IBP.

O desejo da santidade, sem o qual não há reta intenção

“Mestre, sabemos que és verdadeiro e ensinas o caminho de Deus em toda a verdade, sem te preocupares com ninguém, porque não olhas para a aparência dos homens.” (Mt. XXII, 16)

Ave Maria.

Divino Menino Jesus.

Ó Maria, concebida sem pecado.

Santo Antônio de Lisboa.

Caros fiéis, o que ouvimos dos discípulos dos fariseus neste XXII domingo após Pentecostes? O que ouvimos senão um elogio, um louvor à pessoa de Nosso Senhor? Os discípulos dos fariseus louvam Nosso Senhor porque Ele é veraz, porque ensina o caminho de Deus em toda a verdade e porque não julga os homens pelas aparências. O louvor dos discípulos dos fariseus é verdadeiro, o seu louvor é justo. Mas de que modo Nosso Senhor reage a este louvor senão condenando e repreendendo? Nosso Senhor condena e repreende aqueles que O louvam, tratando o seu louvor de tentação e reconhecendo no seu íntimo uma intenção maliciosa. O louvor dos discípulos dos fariseus, portanto, aos olhos de Deus, não passava de uma tentação, por causa da malícia oculta em seu íntimo. Por esta razão, caros fiéis, a condenação de Nosso Senhor a este falso louvor deve nos interessar em muito, porque nós, católicos, conhecemos suficientemente as verdades de Fé para sempre dirigir palavras verdadeiras a Deus em nossa oração; mas como podemos notar, palavras verdadeiras não bastam, louvar com os lábios não basta se faltar a este louvor uma intenção reta, uma intenção pura.

Para compreender o porquê do louvor dos discípulos dos fariseus ter sido repelido por Nosso Senhor, devemos conhecer melhor as circunstâncias deste Evangelho. Quando o Salvador contou a parábola dos lavradores homicidas (cf. Mt. XXI, 33-43), em que os lavradores assassinam o filho do proprietário da vinha, os fariseus compreenderam que a parábola tratava deles, ou seja, que Nosso Senhor os tratava de homicidas. Como diz o Evangelho: “Ouvindo isso, os príncipes dos sacerdotes e os fariseus compreenderam que era deles que Jesus falava. E procuravam prendê-lo; mas temeram o povo, que o tinha por um profeta.” (Mt. XXI, 45-46)

Os fariseus pretendiam, portanto, interromper a pregação de Nosso Senhor; mas como seria impossível prender Aquele que o povo tratava como profeta, duas possibilidades restavam: ou afastar o povo da Pessoa do Salvador, ou colocá-Lo contra o poder romano, o que não agradava os fariseus, uma vez que a indiferença do Império em matéria religiosa permitia aos judeus de praticar a Lei de Moisés em plena tranquilidade. Após terem deliberado, os fariseus julgaram mais oportuno naquele momento desmoralizar o Salvador diante das multidões ao invés de denunciá-Lo junto às autoridades romanas.

Por esta razão, os fariseus não interrogam pessoalmente o Salvador, mas, como ouvimos no Evangelho, são os seus discípulos que O interrogam. Os fariseus enviam jovens para interrogar o Cristo, a fim de que Nosso Senhor não perceba que a questão provém deles, dos fariseus, a fim de que Nosso Senhor responda livremente à questão, como se não houvesse naqueles jovens senão um simples interesse de se instruir na Lei. Além do mais, ouvimos também no Evangelho que os fariseus enviam seus discípulos em companhia dos herodianos, isto é, os partidários de Herodes na disputa de poder pela Palestina, que eram inimigos de Pilatos; o significa que neste momento os fariseus procuram os inimigos de Pilatos para, mais tarde, recorrer ao próprio Pilatos a fim de obter a sentença de morte do Salvador. Por tais circunstâncias, vemos com clareza o quanto os fariseus agiram com malícia ao enviarem os seus jovens discípulos em companhia de herodianos a fim de interrogar Nosso Senhor.

Não apenas a articulação de pessoas e partidos é maliciosa, mas principalmente a questão com a qual interrogam o Salvador. O problema do pagamento de impostos a César era particularmente doloroso aos judeus, que estavam há séculos sob o domínio estrangeiro, sendo que na época de Nosso Senhor havia uma grande sentimento nacionalista unido à expectativa de um Messias libertador político. Ao interrogarem sobre a moralidade do pagamento de impostos a César, os fariseus pretendiam constranger o Salvador a manifestar Sua opinião sobre o domínio romano. Se Nosso Senhor Se manifestasse favorável ao pagamento de impostos, Ele reconheceria o domínio estrangeiro, e os fariseus teriam o argumento perfeito para lançar o povo contra a Sua Pessoa. Se Ele Se manifestasse contrário ao pagamento de impostos, os fariseus O acusariam de subversivo diante do governo romano. Aos olhos dos fariseus, não havia por onde o Cristo escapar deste dilema moral, que, na verdade, não passava de uma armadilha.

A cena que ouvimos no Evangelho, caros fiéis, revela a falsa sabedoria do mundo que pretende enganar a sabedoria de Deus. Os fariseus armaram um laço a Nosso Senhor e disfarçaram sua malícia e perversidade por meio de um louvor hipócrita quando os discípulos dos fariseus elogiaram a Pessoa e a doutrina do Salvador.

Por esta razão, caros fiéis, devemos temer se o nosso louvor não é semelhante ao dos discípulos dos fariseus, devemos temer se o nosso louvor não é verdadeiro nas palavras, mas corrompido nas intenções.

De fato, temos nós muitos motivos para temer se o nosso louvor não é corrompido nas intenções, porque assim como os fariseus eram cumpridores escrupulosos da Lei, nós também nos julgamos aquela porção da Igreja que melhor conhece a doutrina católica. Mas ainda que conhecer a Fé seja necessário e salutar, se porventura viermos a separar o conhecimento da Fé da prática das virtudes e da mortificação, então rapidamente nossa vida de oração se tornará corrompida nas intenções. Afinal, como lemos na epístola de São Tiago (II, 17): “[…] a fé: se não tiver obras, é morta em si mesma”. Podemos crer nos artigos de Fé, podemos conhecer razoavelmente a doutrina católica, mas se não empreendemos um combate espiritual contra o demônio, o mundo e a carne, nossa oração será vazia, ainda que diga palavras verdadeiras.

Não basta dizer palavras verdadeiras na oração, caros fiéis, se não praticamos a Fé católica com a intenção de sermos santos, porque Deus nos criou para a santidade. Deus não nos criou para sermos “bonzinhos”, para sermos meramente honestos aos olhos dos homens, para praticarmos um miserável “Catolicismo social”, que consiste unicamente em ir à Missa dominical com a família e não ter vida católica no quotidiano. Deus não nos criou para sermos medíocres e nos envaidecermos da nossa mediocridade por causa da sua aparência de virtude. Deus não criou para sermos tíbios, mornos, e nos satisfazermos da nossa tibieza unicamente porque já não estamos em estado de pecado. Enquanto nos tranquilizamos de um terço do Rosário rezado às pressas, de uma Santa Missa assistida com distrações, de uma leitura espiritual entrecortada pela consulta incessante ao celular, enquanto nos tranquilizamos porque praticamos algumas devoções recomendadas pela Igreja, enquanto dizemos orações verdadeiras e piedosas, é possível que estejamos armando laços a Nosso Senhor, como os fariseus, pela falta de combate espiritual, por um acordo sutil com o espírito do mundo, com as tentações do demônio e com o nosso amor-próprio desordenado.

Enquanto que os fariseus rejeitaram o Cristo para substituí-Lo por uma opinião própria sobre o Messias, nós também, na prática, rejeitamos a santidade como o verdadeiro e único sentido da vida para substituí-la por uma vida católica medíocre. Queremos amar a Deus, mas não nos esforçamos em amá-Lo de todo coração, de toda alma e de todo espírito (cf. Dt. VI, 5). Ainda que sejamos instruídos o suficiente para saber que a santidade é o verdadeiro e único sentido da vida, na prática, qualquer preocupação do mundo pode nos parecer mais importante ou urgente do que o combate espiritual. Na prática, nós também substituímos o Cristo por um Messias ao nosso gosto, um Messias que não nos exige o dom da nossa personalidade, um Messias que não se ofende com as nossas vaidades nas redes sociais, nossos excessos à mesa, nossa imoderação nas palavras e nos julgamentos, nossa curiosidade de olhar. Em resumo, na prática, nós também fabricamos um Messias ao nosso gosto, um Messias que não se incomoda, que não se importa em não ser amado de todo coração.

E o que fazer, caros fiéis, para que nossa oração seja verdadeira nas palavras e reta na intenção? O que fazer para que nossa intenção seja reta e pura e assim agrade a Deus? Devemos fazer aquilo que Nosso Senhor respondeu aos discípulos dos fariseus no Evangelho da Missa, a saber: dar a Deus o que é de Deus (cf. Mt. XXII, 21). Devemos dar a Deus o que é de Deus; e como todas as coisas pertencem a Deus, devemos, então, nos dar por inteiro a Deus, isto é, devemos desejar a santidade. Quantos de nós, caros fiéis, rezam pedindo a santidade? Quantos pedem a Deus que lhes aumente o dom da Fé, pois se tivermos uma grande Fé em Nosso Senhor, certamente não pouparemos esforços para cumprir os Seus mandamentos até a perfeição. Ainda não demos a Deus o que é de Deus, porque ainda não desejamos de todo o coração a santidade, ainda temos medo da santidade e das cruzes que ela traz consigo; ainda estamos apegados às criaturas a ponto de não desejarmos a santidade de todo coração. E se não demos a Deus o que é de Deus, se não nos demos por inteiro a Deus pelo desejo da santidade, então o que fazemos frequentemente é dar a Deus o que pertence a César, ou seja, nós praticamos a Fé católica como quem paga imposto, como quem cumpre deveres apenas para não ser condenado ou castigado.

Portanto, caros fiéis, não sejamos mais daqueles que dão a Deus o que pertence a César, não sejamos daqueles católicos que se preocupam unicamente em cumprir obrigações e preceitos, quando as obrigações e os preceitos não passam de meios para nos darmos a nós mesmos a Deus. A partir de hoje, devemos nos esforçar para dar a Deus o que é de Deus, isto é, todo o nosso ser, toda a nossa personalidade, todas as nossas capacidades. A partir de hoje a Fé católica não será um aspecto, um elemento da vida, mas a regra de toda a vida. A partir de hoje o amor a Deus será o fim de todas as nossas obras, porque haverá combate espiritual. A partir de hoje rezaremos sempre pedindo em primeiro lugar a santidade, mais do que qualquer outro bem, como a saúde ou a proteção, porque não existe maior desgraça nesta vida do que a de não ser santo.