Sermão para Festa de Cristo Rei

Bethlehem a Brasilia, 27 octobris A.D. 2019

Por Pe. Ivan Chudzik, IBP.

A vitória de Cristo é a Sua cruz: da paixão da Igreja também esperemos a vitória

“Respondeu Jesus: ‘O meu Reino não é deste mundo. Se o meu Reino fosse deste mundo, os meus súditos certamente teriam pelejado […]. Mas o meu Reino não é deste mundo’” (Jo. XVIII, 36)

Ave Maria.

Divino Menino Jesus.

Nossa Senhora do Rosário.

Santo Antônio de Lisboa.

Caros fiéis, a festa de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei foi instituída pelo Papa Pio XI, em 1925, há quase cem anos. Um olhar atento para os ritos litúrgicos notará que a realeza de Nosso Senhor já está presente em não poucas orações; mas para que o católico não tenha dúvidas sobre a extensão do Reinado de Nosso Senhor, Pio XI decidiu instituir uma festa particular, a fim de que toda a Cristandade proclame os direitos do nosso Salvador sobre a vida privada e a civil, sobre o indivíduo e a sociedade, sobre a Igreja e também sobre os pagãos, que devem se converter à verdadeira e única religião, a nossa santa romana Igreja.

O Reinado de Nosso Senhor, caros fiéis, não é meramente escatológico, ou seja, não é um reinado que se dará no fim dos tempos, um reinado reservado à eternidade, ao Céu. O Reinado de Nosso Senhor também não está restrito à vida particular de cada fiel, como se um católico não estivesse obrigado a pelejar pelos direitos de Deus na sociedade, como se um católico pudesse se adequar às modas, aos ventos de cada época, a fim de não ferir sentimentos, pessoas e costumes contrários à Fé e à Moral. A nossa vergonha de sermos católicos, ou melhor, a nossa vergonha de simplesmente parecermos católicos, por causa do medo do que pensarão os nossos familiares, amigos, colegas, enfim, a vergonha de alguém ser julgado por causa de um escapulário, por causa de um vestido modesto, por causa de um sinal-da-cruz quando se passa diante da igreja, esta vergonha nos custará caro na eternidade, porque está escrito: “Se alguém se envergonhar de mim e das minhas palavras, também o Filho do Homem se envergonhará dele, quando vier na sua glória, na glória de seu Pai e dos santos anjos.” (Lc. IX, 26)

Seria muito fácil, caros fiéis, não ter vergonha de Deus e de Sua santa Igreja, se Nosso Senhor tivesse triunfado e reinado como esperavam os judeus. Bem sabemos que os judeus aguardavam um Messias político, um Messias que viesse restaurar a soberania de Israel sobre os seus inimigos políticos. Nosso Senhor, porém, não aceitou uma coroa perecível, um reinado deste mundo, como lemos no Evangelho: “Jesus, percebendo que queriam arrebatá-lo e fazê-lo rei, tornou a retirar-se sozinho para o monte.” (Jo. VI, 15)

Nosso Senhor é Rei, mas não um rei deste mundo. Ele exerce a Sua soberania sobre nós ao nos retirar do poder do demônio—o poder que este exerce sobre nós por causa do pecado—e ao nos incorporar no Seu Reino (cf. Col. I, 13), “Reino de santidade e de graça”, como diz o Prefácio da Missa de hoje. Para nos retirar do poder do demônio e nos incorporar no Seu Reino, que é a Igreja, Nosso Senhor não deve triunfar como os reis da terra triunfam, armados de espadas, em campos de guerra, incertos da vitória ou da derrota final. Em outras palavras, Nosso Senhor não triunfa como os reis da terra triunfariam, exercendo o poder físico.

É preciso compreender, caros fiéis, que Nosso Senhor já é vitorioso, que Ele já triunfou contra o demônio, o pecado, o mundo e a morte pela Sua Paixão, como ouvimos na epístola da Missa: “Porque aprouve a Deus […] reconciliar consigo todas as criaturas, por intermédio daquele que, ao preço do próprio sangue na cruz, restabeleceu a paz a tudo quanto existe na terra e nos céus.” (Col. I, 19-20) Não devemos temer a derrota da Igreja de Deus, não devemos temer a derrota contra qualquer inimigo, presente ou futuro, não devemos temer a derrota em qualquer circunstância, mesmo as mais dolorosas e sofridas, porque um tal temor é sinal da nossa falta de Fé na vitória de Nosso Senhor sobre a cruz.

Devemos compreender de uma vez por todas, caros fiéis, que a cruz é a nossa vitória, que a cruz é o trono de Cristo, e que a presunção dos inimigos de Deus em atacarem a santa Igreja consiste, na verdade, no desejo de serem derrotados. Quando os inimigos de Deus atacam a santa Igreja, ainda que pretendam a vitória, eles armam e produzem a própria derrota, porque ninguém, nenhum deles, absolutamente nada pode superar a cruz de Nosso Senhor, que nos alcança toda graça e toda bênção. Nenhuma inventiva do demônio e dos seus asseclas pode contrariar o Salvador, e quando Nosso Senhor permite que a santa Igreja seja atacada, é em previsão da sua vitória, é para manifestar mais claramente a Sua vitória sobre os seus inimigos, é para aumentar a nossa convicção de que Deus sempre vence, mesmo naquelas circunstâncias em que a nossa pequenez de espírito não julga haver salvação. A Providência se serve do demônio e de todos aqueles que compõem e trabalham para a anti-Igreja, o partido do demônio, enfim, a Providência se serve dos maus a fim de manifestar no mundo a onipotência divina, a fim de exigir a heroicidade da Fé, da Esperança e da Caridade das almas cristãs.

Caros fiéis, para os apóstolos, a sexta-feira santa, que nós comemoramos a cada ano litúrgico, a sexta-feira santa foi o dia no qual os apóstolos pensaram que tudo havia acabado. A aparente fraqueza de Nosso Senhor diante dos algozes, a Sua completa resignação desde a arrestação, no horto das oliveiras, até as blasfêmias dos fariseus, que zombavam da Sua crucifixão, a resignação de Nosso Senhor escandalizou os apóstolos, porque pôs à prova a sua tão pequena Fé, mesmo o Salvador tendo profetizado a Paixão diversas vezes ao longo do Seu ministério. Nosso Senhor preparou o espírito dos apóstolos manifestando, em outras ocasiões, o Seu poder divino, quando da Transfiguração no Tabor e através dos mais admiráveis milagres, como a ressurreição de Lázaro. Por outro lado, Nosso Senhor também anunciou, por três vezes, que seria morto, dando, aliás, as circunstâncias da Sua morte, mas que ressuscitaria ao terceiro dia. E apesar de ter preparado o espírito dos apóstolos, eles se perturbaram com a Paixão, e, não suportando a provação, fugiram amedrontados. A pouca Fé dos apóstolos, caros fiéis, não foi capaz de suportar o triunfo pela cruz, como se Nosso Senhor só pudesse triunfar como os reis da terra, através da força física.

Não é pela força física que Nosso Senhor triunfa, o triunfo de Nosso Senhor consiste no sacrifício perfeitíssimo que Ele ofereceu sobre a cruz, como disse São Paulo: “Mas onde abundou o pecado, superabun­dou a graça.” (Rom. V, 20) A vitória de Deus sobre os Seus inimigos não consiste em impedi-los de agir, em impedi-los de conspirar, mas sim, em permitir que ajam, que conspirem, que tramem contra o Cristo e a Sua Igreja, para que, dentro do plano da Providência, suas ações e conspirações sirvam para render mais glória ao poder, à bondade e à misericórdia de Deus. O triunfo de Deus, portanto, não se dá pela força física, mas pela manifestação da Sua glória; a manifestação da glória de Deus, caros fiéis, é um bem infinitamente maior que desarmar os inimigos da Igreja para que nunca ajam ou conspirem contra ela.

Por esta razão, Nosso Senhor já é vencedor. Basta que Ele permita a ação dos inimigos da Igreja para que esperemos, com firme e inabalável Esperança, a vitória que sobrevirá de cada ação malévola, de cada conspiração diabólica. Contrariamente aos reis da terra, Nosso Senhor não vence por ter impedido a ação dos Seus inimigos; Nosso Senhor vence por ter Se servido dela para manifestar mais claramente a Sua sabedoria, o Seu amor, a Sua bondade, a Sua misericórdia, para obrigar os Seus filhos a terem uma Fé viva, uma Esperança inabalável e uma Caridade ardente.

Donde a necessidade de que a Igreja também passe pela sua sexta-feira santa, ou melhor, pela sua Paixão. Não convém que o Salvador tenha Se submetido aos mais atrozes sofrimentos e à mais tenebrosa escuridão da desolação e do abandono, para que a Sua Esposa, a Igreja, não conheça de que modo ela foi resgatada do jugo do demônio e da servidão do pecado. A santidade é um caminho rumo ao Calvário, e a esta montanha sobem as almas, mas também sobe a sociedade enquanto tal, isto é, a Igreja. Não são apenas as almas que devem sofrer para se santificarem, a Igreja também deve sofrer na sua hierarquia, no exercício do seu culto, nos seus direitos, em suma, a glória da Igreja também deve ser eclipsada como a glória do seu divino Esposo durante a Paixão. Todas as reformas e revoluções que a Igreja sofreu desde os últimos cinco séculos não passam de um lento itinerário rumo ao Calvário da apostasia que conhecemos hoje, em que as nações não reconhecem mais o Reinado social de Nosso Senhor, em que os próprios católicos, a começar pelos pastores, não têm mais zelo pela glória de Deus e pela dilatação do Seu Reino entre os pagãos.

Caros fiéis, tenhamos Fé que a Igreja irá triunfar desta crise, do mesmo modo que a vida do Salvador não Se encerrou na sexta-feira santa. Tenhamos Esperança de poder dizer em breve com o salmista: “Eu vos exaltarei, Senhor, porque me livrastes, não permitistes que exultassem sobre mim meus inimigos.” (Sl. XXIX, 2) Tenhamos Caridade, porque a ira, a indignação, o desânimo e a tristeza não rendem culto a Deus; nossa falta de caridade e de zelo, aliás, é a nossa forma de contribuirmos com a paixão da Igreja, é a nossa força de prestarmos auxílio aos inimigos da Igreja, pois se quiséssemos distinguir-nos destes inimigos, estaríamos ardendo de zelo pela Casa de Deus, reparando tantas ofensas contra a Santíssima Eucaristia e o Santo Sacrifício, contra a Santíssima Virgem, contra o Sacerdócio e a disciplina da Igreja.

Durante este tempo de paixão para a Igreja, recordemo-nos porquê, um dia, voltamos a praticar a Fé católica, lembremo-nos quantos sinais nos trouxeram de volta para o redil de Cristo: a elevação da sua doutrina, a doçura da sua moral, a santidade de tantos dos seus filhos, os milagres, as profecias, uma graça particular. Não sejamos ingratos esquecendo-nos de tantas provas de amor que Nosso Senhor nos dedicou ao longo da história da Sua Igreja e ao longo da nossa própria história. Não fujamos do Calvário, não fujamos amedrontados, mas façamos companhia à Igreja enquanto ela atravessa a sua própria paixão. Sejamos católicos até o fim, fiéis como Nossa Senhora ao pé da cruz, aguardando, com paz inabalável de alma, o dia do triunfo e da ressurreição.