Sermão para o 12º Domingo depois de Pentecostes

Bethlehem a Brasilia, 1 septembri A.D. 2019

Por Pe. Ivan Chudzik, IBP.

O bom samaritano e a misericórdia espiritual

“Mas um samaritano que viajava, chegando àquele lugar, viu-o e moveu-se de compaixão” (Lc. X, 33)

Ave Maria.

Divino Menino Jesus.

Ó Maria, concebida sem pecado

Santo Antônio de Lisboa.

Caros fiéis, ouvimos São Paulo dizer, na Epístola da Missa, o quanto “o ministério do Espírito”, ou seja, o quanto o Novo Testamento é glorioso, pois supera a glória do Antigo Testamento, que não era pequena. Se no Antigo Testamento os filhos de Israel não podiam encarar a face de Moisés quando de retorno da montanha, após ele ter falado com o próprio Deus, por causa do resplendor de sua face, no entanto, somos nós que vemos o que há de mais glorioso, conforme ouvimos Nosso Senhor declarar no Evangelho da Missa: “Ditosos os olhos que veem o que vós vedes, pois vos digo que muitos profetas e reis desejaram ver o que vós vedes, e não o viram […]” (Lc. X, 23-24).

A glória do Antigo Testamento era grande porque Deus era a origem da Lei e o fim almejado no seu cumprimento; Deus era o Autor de tudo o que havia de verdadeiro e permanente na Lei, e neste sentido Nosso Senhor não veio para abolir a Lei e os profetas (cf. Mt. V, 17), mas para levar a termo, para conduzir à perfeição a doutrina presente no Antigo Testamento.  Conduzir à perfeição tais preceitos, caros fiéis, consiste em não se ater, não se limitar ao seu sentido literal, pois conforme também ensina o apóstolo: “[…] a letra mata, mas o Espírito vivifica.” (II Cor. III, 6) Conduzir à perfeição os preceitos da Lei consiste em praticá-los não apenas exteriormente, mas movidos interiormente pela caridade, que torna boas tanto as nossas obras quanto as nossas intenções. Por esta razão, devemos ouvir a parábola do bom samaritano não apenas como uma lição de simples misericórdia corporal, mas antes de tudo como uma lição de caridade, pois a caridade é um amor espiritual. A caridade nos faz amar a Deus no próximo, e isso é superior a qualquer auxílio às suas necessidades corporais ou materiais.

Para se entender a parábola do bom samaritano, caros fiéis, é preciso compreender o peso da questão que o doutor da Lei dirige a Nosso Senhor. Se o doutor da Lei pergunta “quem é o meu próximo?” (Lc. X, 29) é porque a sociedade do seu tempo não saberia responder.

Primeiramente, devemos nos recordar que no tempo de Nosso Senhor os homens se distinguiam em castas ou em classes nos quais a mobilidade social era frequentemente impossível. Na sociedade romana, por exemplo, haviam patrícios, plebeus, clientes e escravos. Acrescente-se a esta rigidez social a repugnância que o estrangeiro causava em qualquer povo, como os povos bárbaros—com seus costumes tão grosseiros—causavam em um cidadão romano, este, por sua vez, de costumes urbanos. Dito isso, quem era o próximo de um romano? Se fosse um patrício, seria forçosamente outro patrício. No caso dos judeus, ainda que não estivessem socialmente divididos como os romanos, dificilmente um povo os superaria na repugnância e no desprezo ao estrangeiro. Afinal, quem eram os estrangeiros senão os gentios, os pagãos, os povos que não receberam uma eleição especial do próprio Deus? Bem sabemos que o povo de Deus deveria se separar dos demais povos a fim de não ser seduzido pela idolatria e mesmo pela política dos gentios, mas o Talmud, isto é, o comentário judaico à Lei, levou esta ordem divina a extremos inconcebíveis.

Em segundo lugar, quando o livro de Levíticos diz: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (XIX, 18), é preciso notar que “próximo” significava também “amigo”; e como o versículo anterior proíbe o ódio aos irmãos do povo, muitos opinavam que o amor ao próximo se referia unicamente ao amor que os judeus deveriam cultivar entre si, ainda que o Talmud, mais uma vez, tenha acrescentado indevidamente muitas distinções entre pessoas e amizades.

Dito isso, caros fiéis, vê-se o porquê da pergunta do doutor da Lei. Os judeus do tempo de Nosso Senhor não sabiam com certeza quem era o próximo que se deveria amar, e a opinião da maioria limitava este amor entre os irmãos do povo eleito.

Nosso Senhor responde à pergunta do doutor da Lei contando a parábola do bom samaritano. O povo samaritano era resultado da mestiçagem entre judeus e assírios. Não eram judeus de puro sangue e tampouco de religião judaica pura, pois aceitavam unicamente o Pentateuco, rejeitando os demais livros da Sagrada Escritura. Os doutores da Lei, portanto, mantinham um grande desprezo pelos samaritanos. Mas como é o samaritano que irá praticar a caridade e a misericórdia na parábola do Evangelho, Nosso Senhor demonstra para os judeus que o próximo que devemos amar não são apenas os nossos concidadãos, as pessoas a quem estamos ligados pelos laços de sangue ou de afeto.

Nosso próximo, caros fiéis, são todos os homens, toda a humanidade. Como disse Santo Agostinho, “[…] não há nada tão próximo de um homem do que outro homem.” (PL, 671) Se Deus é nosso Criador e se toda a humanidade descende de Adão, então, sob este aspecto, todos os homens são irmãos. E somos irmãos em um título superior a partir do Batismo, que nos faz filhos adotivos de Deus pela graça. O samaritano da parábola, que pratica a caridade e a misericórdia, ensina aos judeus que todos os homens foram criados à imagem de Deus, isto é, todos os homens são dotados de alma imortal, e por isso todos podem se salvar caso amem a Deus conforme ensina a nossa santa, verdadeira e única Religião católica.

Mas ainda que todos os homens sejam o nosso próximo, é humanamente impossível que cada um de nós possa fazer o bem a toda a humanidade. Se quisermos distribuir todos os nossos bens aos pobres praticando a esmola, a pobreza material do mundo estará muito longe de se extinguir quando todos os nossos bens se extinguirem. Se o samaritano da parábola ajudou o homem ferido e assaltado que encontrou no seu caminho, isto significa que o amor ao próximo não consiste numa militância humanitária, numa ajuda humanitária, como se cada indivíduo estivesse obrigado a realizar obras de misericórdia para com toda a humanidade ou se desfazer de todos os seus bens para dá-los aos pobres. O samaritano ajudou apenas aquele que encontrou no seu caminho. Na verdade, o amor ao próximo não deve excluir nenhuma pessoa, porque cada homem foi criado à imagem de Deus, e nisso consiste a novidade do Evangelho com relação à mentalidade dos judeus do tempo de Nosso Senhor. Todavia, o exercício do amor ao próximo através de obras exteriores tem por regra aquele mesmo versículo citado pelo doutor da Lei, a saber: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo.” (Lev. XIX, 18) O exercício da caridade por meio de obras exteriores se regula conforme a necessidade do próximo e as possibilidades daquele que doa. Em outras palavras, o católico é obrigado a praticar atos de misericórdia corporal para com o próximo, mas não todos os atos de misericórdia corporal possíveis, na medida em que não tem obrigação de doar aquilo que lhe fará falta, aqueles bens que lhe serão necessários para a subsistência ou para se manter em sua categoria social, e na medida em que a necessidade do próximo não é extrema ou grave, mas facilmente sanável por outros. Em síntese, o exercício da caridade por meio das obras exteriores tem por regra o amor a si mesmo: não é possível um católico amar o próximo se não provê sequer o necessário para si ou então se colabora com o pecado alheio, dando-lhe meios materiais ou financeiros para pecar.

Por outro lado, ainda que o exercício da caridade tenha limites—fora dos quais as obras exteriores podem causar um dano para si ou para o próximo—, o amor de caridade enquanto tal se estende a todos os homens, sem limites, como pensavam os judeus. Mas para isso é preciso amar a si mesmo com amor de caridade.

A caridade, caros fiéis, é uma virtude teologal infusa por Deus no Batismo, pela qual nós amamos a Deus por Ele mesmo, porque Ele é sumamente bom e digno de ser amado sobre todas as coisas. A caridade é a nossa participação ao amor pelo qual Deus Se ama a si mesmo, é um amor sobrenatural, portanto. Quem se ama com amor de caridade, deseja para si a posse do Sumo Bem, deseja a santidade, deseja o Céu. E porque reconhece no próximo uma criatura capaz de Deus, uma alma imortal capaz de se tornar Templo do Espírito Santo, ama o próximo com amor de caridade, isto é, por amor a Deus. E neste sentido o amor de caridade não tem limites. Ainda que nem sempre tenhamos meios para ajudar materialmente o próximo através de obras exteriores de caridade, o Evangelho nos obriga a amar indistintamente todos os homens com amor de caridade, bons e maus, para que em uns e outros Deus possa viver e reinar.

Por essa razão, a parábola do bom samaritano não possui apenas um sentido literal, que é a prática das obras de misericórdia corporal, mas também um sentido espiritual, que é o mais importante. Afinal, o samaritano representa o Cristo. O samaritano era um mestiço, era um homem de duas raças, assim como Nosso Senhor possui duas naturezas, a divina e a humana. O samaritano cura o homem ferido e assaltado—ferido pelo pecado e assaltado pelo demônio—com vinho e azeite. Com vinho porque contém álcool, que faz arder os ferimentos e os desinfeta. Com azeite porque isola as feridas, impedindo-as de arderem. O vinho representa a repreensão do erro, que faz arder, enquanto o azeite representa a consolação e a graça, sem as quais o pecador não conseguirá se corrigir e se emendar. De fato, não é possível amar o próximo sem se interessar pelo seu progresso espiritual e pelo seu adiantamento na virtude. Não é possível amar o próximo com amor de caridade sem querer que ele abandona seus vícios e adquira as virtudes, porque a caridade consiste em desejar Deus para o próximo.

Mas como só podemos amar o próximo na medida em que amamos a nós mesmos, isso significa que só poderemos ajudar o próximo, corrigindo-o, admoestando-o, emulando-o a praticar o bem, dando-lhe o bom exemplo e rezando por ele se nós mesmos procurarmos exercer a caridade para conosco. Um católico tíbio, envolvido nos vícios, na preguiça ou então cheio de si por causa da soberba não terá nada a oferecer ao próximo, na medida em que não tem sequer para si. Pior do que não ter meios para oferecer esmolas ao próximo é não ter orações para lhe dar, é não poder lhe dar bons exemplos, é ser pobre de uma lamentável pobreza espiritual que não pode ser superada por nenhuma riqueza deste mundo.

Se somos pobres espiritualmente, se não somos ricos de graças e de caridade, se não nos amamos por amor a Deus, mas estamos envolvidos pelos laços do amor-próprio desordenado, pela concupiscência da carne ou pela soberba, isso significa que nossas amizades não serão espirituais, não serão santas, não serão puras. Estaremos inclinados a cobrir os defeitos dos nossos amigos com lisonjas e respeito humano; procuraremos nossos amigos para pecar com eles, por exemplo, pelos excessos no falar e no beber; faremos pouco caso do seu estado de pecado habitual e da sua falta de prática da Religião. Não seremos capazes de mover nossos amigos à virtude por causa dos nossos maus exemplos, isto é, pelas modas, pelos palavrões, pela murmuração, pela falta de vida de oração. E quem não é capaz de amar com amor de caridade sequer a si mesmo, por causa da própria desordem espiritual, não conseguirá praticar a caridade para com os amigos e tampouco exercê-la para com os pobres, porque ainda que a esmola possa suprir uma necessidade material do próximo, sem caridade não há mérito para a vida eterna, sem caridade não se faz nenhum bem espiritual a si mesmo e ao próximo.

Caros fiéis, a vida em sociedade exige a vida interior. Precisamos pôr em ordem a nossa vida espiritual, precisamos nos amar com amor de caridade, a fim de que, à semelhança do bom samaritano, sejamos capazes de amar também o próximo com amor de caridade, praticando as obras de misericórdia espiritual e material para com os amigos, os inimigos, os ricos e os pobres, os familiares e os estranhos. Por esta razão o bom samaritano conduziu o homem ferido e assaltado até aquela hospedaria que se encontrava em meio ao caminho, que é uma imagem da Igreja, onde o hospedeiro, isto é, a autoridade da Igreja nos dá o alimento da doutrina e o repouso da vida de oração. Não sejamos como aquele sacerdote e aquele levita que passaram pelo homem ferido e assaltado e não o ajudaram. Se não vivemos na graça, se não temos vida de oração, de nada adianta estarmos a caminho da igreja, ocupados com as ocupações da igreja, porque nossa falta de caridade para conosco nos torna incapazes de exercê-la para com o próximo.