Sermão para o 9º Domingo depois de Pentecostes

Bethlehem a Brasilia, 11 augusti A.D. 2019

Por Pe. Ivan Chudzik, IBP.

Aproveitar o dia é enxugar as lágrimas de Nosso Senhor

“Se também tu, ao menos neste dia que te é dado, conhecesses o que te pode trazer a paz!… Mas não, isso está oculto aos teus olhos.” (Lc. XIX, 42)

Ave Maria.

Divino Menino Jesus.

Ó Maria, concebida sem pecado

Santo Antônio de Lisboa.

Caros fiéis, Nosso Senhor não veio a este mundo apenas para nos ensinar a Sua doutrina e operar a nossa Redenção sobre a cruz. Além da doutrina que ensinou e da Redenção que operou, não podemos ignorar cada detalhe da vida do Salvador, que são outras tantas maneiras de Ele nos ensinar o quanto nos ama e de nos alcançar a graça de poder amá-Lo. E que detalhe tão eloquente e tão comovente como o de contemplar as lágrimas do nosso Salvador! Ainda ontem a Igreja festejava o diácono São Lourenço, mártir romano, que foi assado vivo guardando uma fortaleza de alma humanamente inexplicável, se não fosse a graça extraordinária que o sustentou durante o suplício, graça esta que mantinha o seu espírito alegre e repleto de consolações e o fazia desprezar como se fosse um nada o sofrimento do corpo. Eis um mártir de Nosso Senhor: forte, corajoso, constante, fiel e vitorioso. Se assim são os mártires do Senhor, o que devemos pensar do Senhor dos mártires? O que devemos afirmar do Senhor dos mártires? Pois o Senhor dos mártires, diz o Evangelho, chorou.

O Senhor dos mártires, caros fiéis, é Deus todo-poderoso, que desde o primeiro instante da Encarnação, deu inúmeros sinais de fraqueza e de fragilidade. O Senhor dos mártires foi gestado no ventre da Santíssima Virgem e conheceu uma infância como a de qualquer outro homem sobre a terra. O Senhor dos mártires conheceu o frio, o calor, a fome, a sede, o suor, o cansaço, a dor. O Senhor dos mártires chorou sobre o túmulo de Lázaro, Seu amigo (cf. Jo. XI, 35) e sobre a cidade santa de Jerusalém (cf. Lc. XIX, 41). Mas de onde viria a fortaleza, a coragem, a constância, a fidelidade e a vitória dos mártires senão das lágrimas, do suor, da sede, da fatiga, das dores, dos sofrimentos e do Sangue de Nosso Senhor? Não triunfariam os mártires se Nosso Senhor não tivesse padecido, e dos Seus padecimentos merecido os triunfos de todos os Santos.

O pranto de Nosso Senhor sobre Jerusalém é o pranto dAquele que quer produzir mártires, confessores, virgens e Santos de todas as ordens e grandezas pelos méritos de Sua Paixão, porém sempre em colaboração conosco e nunca violando o nosso livre-arbítrio. Santo Agostinho sintetizou esta verdade de Fé em uma sentença bastante conhecida, a saber: “Deus, que nos criou sem nós, não quis salvar-nos sem nós” (Sermo 169). Mesmo que Nosso Senhor queira e possa produzir as mais insondáveis maravilhas da graça em Sua criatura, Ele não viola o livre-arbítrio do homem, mas pede-lhe humildemente entrada, como diz o Apocalipse (III, 20): “Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir a minha voz e me abrir a porta, entrarei em sua casa e cearemos, eu com ele e ele comigo.”

Se Nosso Senhor nos pede humildemente entrada é porque precisa manter o mérito da Fé, sem o qual não poderá nos receber na luz da glória. Ainda que Deus seja sumamente bom e digno de ser amado sobre todas as coisas, nossa resposta ao Seu amor permanece sempre um ato livre e pessoal. Por esta razão, Deus nos dá a Revelação, os sinais de credibilidade da Revelação e as graças atuais, que nos convidam suavemente ao ato de Fé. Ele nos dá os meios de amá-Lo, de correspondermos ao Seu amor, mas não nos força àquilo que é o sentido, o nosso fim da nossa existência. O exercício do livre-arbítrio do homem pode lhe merecer a felicidade eterna, quando ele corresponde à graça, mas terrivelmente pode também lhe merecer a condenação eterna, se ele vier a recusar a graça na impenitência final.

Dito isso, podemos perceber melhor que a pregação de Nosso Senhor ensinou o caminho para a criatura retornar ao Seu Criador; a Paixão de Nosso Senhor, de modo particular, mereceu a reconciliação da criatura com o Criador; mas quando Nosso Senhor chorou sobre a cidade santa de Jerusalém, vemos a natureza humana do Salvador sofrendo a recusa da Sua verdade e da Sua graça, o que é um modo bastante eloquente de nos ensinar o quanto Ele nos ama e de suplicar ao Pai misericórdia para a criatura obstinada no pecado.

Dito isso, tendo considerado tudo o que Nosso Senhor fez pela Sua criatura para salvá-la, derramando por ela Sangue e lágrimas, ¿como podemos compreender que a criatura possa, de fato, recusar a verdade e a graça e se obstinar no pecado, quando Deus a cerca e a cumula de provas de amor? Não seria tão simples e tão fácil perceber e preferir o amor de Deus? Compreendemos que Deus tenha Se feito fraco, na Encarnação, para nos salvar por meio de Seu Sangue e de Suas lágrimas, mas nos escandalizamos, de um certo modo, não com a fraqueza de Deus, mas com a “derrota” de Deus, por assim dizer, diante do pecador obstinado.

Caros fiéis, Nosso Senhor não é vencido nem derrotado pelo pecador obstinado. Lembremo-nos dos mártires, lembremo-nos de São Lourenço. Se houve e sempre haverá Santos, que praticaram heroicamente a virtude, então, da parte de Deus, não faltou graça. Muito pelo contrário, como diz São Paulo: “Mas onde abundou o pecado, superabundou a graça.” (Rom. V, 20) A obstinação e o desespero não derrotam o amor de Nosso Senhor, porque, como dissemos, Deus não quer violar o livre-arbítrio da criatura. Na epístola da Missa, ouvimos de São Paulo o seguinte ensinamento: “Deus é fiel: não permitirá que sejais tentados além das vossas forças […]” (I Cor. X, 13). Pois assim como nenhuma tentação está acima das nossas forças, do mesmo modo, as graças que recebemos ordinariamente são graças suficientes para se sair do estado de ignorância e de pecado.

Eis aqui, uma verdade de Fé bastante oportuna: ainda que Nosso Senhor nos tenha merecido um tesouro infinito de méritos, não esperemos receber uma graça de conversão ou de santificação semelhante à da conversão de São Paulo. Não esperemos receber uma graça extraordinária e especialíssima, apenas porque Nosso Senhor tem poder de produzir esta graça. Deus nos dá a todos, ordinariamente, uma graça suficiente: esta é a Teologia católica. É certo que a Santíssima Virgem recebeu, desde o primeiro instante da sua concepção, uma graça abundante, ordenada à sua missão de Mãe do Verbo encarnado. É certo também que São Paulo recebeu uma graça extraordinária de conversão, ordenada à sua missão de apóstolo. Mas quanto a nós, a conversão e a santidade dependem da correspondência à graça suficiente. Se queremos alcançar uma grande santidade, não esperemos que Nosso Senhor nos cumule de graças sem antes termos correspondido à graça suficiente, à primeira graça que dá a todos os homens.

Esta é a lei do amor. O amor se dá a quem corresponde; o amor se retrai a quem não corresponde. O antigo Bispo de Córdova, Frei Albino Menéndez-Reigada, ensina que quando o homem busca, Deus Se aproxima; quando o homem pergunta, Deus responde; quando o homem se põe a escutar, Deus lhe fala; quando o homem obedece, Deus governa; e quando o homem se entrega, Deus obra. Como podemos esperar que Deus obre, que Ele conduza à perfeição mais consumada uma alma que não O procura nem se pergunta pela Sua existência ou pelo Seu amor? Como podemos esperar que Deus governe quem O escuta, pela oração, mas não Lhe obedece, pela ausência de prática das virtudes? Como podemos esperar que Deus fale com quem se pergunta por Ele, pela investigação e pelo estudo, mas não O escuta pela ausência de oração?

O amor se dá a quem corresponde; o amor se retrai a quem não corresponde. Ensina Santo Agostinho que “Deus não abandona a não ser quando abandonado” (De natura et gratia, 26). E aqui já podemos perceber mais claramente que a obstinação do pecador não é a “derrota de Deus”, porque Deus mesmo ocasiona a obstinação do pecador na medida em que lhe retira todos os demais auxílios além da graça suficiente, na medida em que o priva de iluminações, de inspirações, de consolos e de todas aquelas graças que daria a uma alma que procura, que interroga, que escuta, que obedece e que se entrega. Deus retrai as demais graças da criatura que não faz caso da graça suficiente; e isso não apenas para castigá-la, mas principalmente para fazê-la perceber o quanto depende do auxílio e da iluminação de Deus para encontrar a verdadeira felicidade. Deus também manifesta a Sua glória pela obstinação dos pecadores, porque nada prova melhor a nossa dependência radical da graça do que o estado de obstinação no pecado. Nada obrigaria mais o pecador a buscar a graça do que perceber os efeitos da sua vida miserável.

Por este motivo, Nosso Senhor chorou. Nosso Senhor, chorou, caros fiéis, diante da nossa miséria, que Ele sentiu com uma sensibilidade e compaixão divina. Nosso Senhor chorou porque quem ama não pode não sofrer pelo amado. Quanto maior for o amor, maior será também a dor. Não podemos imaginar as profundezas de dor que Nosso Senhor sentiu enquanto chorava por Jerusalém. No entanto, caros fiéis, recordemo-nos que o pranto do Salvador foi acompanhado destas palavras: “Se também tu, ao menos neste dia que te é dado, conhecesses o que te pode trazer a paz!… Mas não, isso está oculto aos teus olhos.” (Lc. XIX, 42)

A paz de Jerusalém esteve oculta aos seus olhos, disse o Salvador, aquela paz que Ele prometeu aos apóstolos e que o mundo não pode conhecer (cf. Jo. XIV, 27). E apesar disso, Nosso Senhor transitou diversas vezes por Jerusalém, sendo que a cena do pranto sobre a cidade, que hoje ouvimos, precede a Sua entrada triunfal, que a Igreja celebra no domingo de Ramos. Isto significa que o Salvador chorou sobre Jerusalém pouco antes de ingressar nela aclamado como Rei. Jerusalém teve graças mais que suficientes para conhecer aquela paz que Nosso Senhor gostaria de lhe dar, mas foi infiel, e por causa da sua infidelidade, por causa da sua traição, a paz permaneceu oculta aos seus olhos e ela foi castigada com a destruição. Jerusalém foi castigada, mas não antes de o Salvador ter passado por ela e ter sido aclamado transitoriamente como Rei.

Caros fiéis, nossa alma também é uma Jerusalém, uma cidade santa, um castelo interior, o Templo do Espírito Santo, sobre a qual o Salvador chora e à qual Ele quer conceder a Sua paz. Podemos nos interrogar muitas vezes por que certas pessoas voltaram à prática da Religião e por que outras permanecem nas ilusões e vaidades do pecado. Podemos nos interrogar por que certas pessoas nunca se afastaram da verdade e por que outras custaram a retornar ao caminho da salvação. Podemos nos interrogar por que alguns receberam tantas iluminações e graças, e por que outros parecem não receber nada além de uma graça suficiente. Podemos nos interrogar por que a nossa Santa Religião não se dilatou mais sobre o mundo ou por que veio a se retrair ultimamente. Não conhecemos os insondáveis juízos de Deus justíssimo, mas cada um de nós pode dizer para si mesmo quantas vezes Deus passou e não quisemos vê-Lo, quantas vezes Deus soprou e não quisemos ouvi-Lo. Se Ele tivesse nos dado mais, teríamos recusado mais, e o nosso castigo seria maior. Mas porque Ele nunca cessa de nos dar a graça suficiente e porque muitas almas piedosas rezam e se sacrificam pelos pecadores, Nosso Senhor nos deu tempo e uma graça extraordinária, e hoje estamos aqui em Sua casa, para procurá-Lo, interrogá-Lo, ouvi-Lo, obedecer-Lhe e deixá-Lo obrar. Assim avançaremos se fizermos o que Nosso Senhor esperava de Jerusalém quando chorou sobre ela: “Se também tu, ao menos neste dia que te é dado, conhecesses o que te pode trazer a paz!” Hoje, agora mesmo e a cada instante, Deus nos dá uma graça, e da fidelidade a esta graça quer nos confiar outras maiores.

Caros fiéis, se formos fiéis à graça de cada momento, à graça de cada dia, enxugaremos as lágrimas de Nosso Senhor e consolaremos o Seu Coração. Combatendo a ociosidade, o tempo perdido no celular, por exemplo, e aproveitando o tempo precioso que nos Ele dá enxugaremos as Suas lágrimas, até o dia em que estaremos com Ele, na luz da glória, quando Ele nos enxugará também as nossas lágrimas (cf. Apoc. XXI, 4).