Sermão para o 11º Domingo depois de Pentecostes

Bethlehem a Brasilia, 25 augusti A.D. 2019

Por Pe. Ivan Chudzik, IBP.

O mal da presunção e a cura do surdo-mudo

“Jesus tomou-o à parte dentre o povo, pôs-lhe os dedos nos ouvidos e tocou-lhe a língua com saliva.” (Mc. VII, 33)

Ave Maria.

Divino Menino Jesus.

Ó Maria, concebida sem pecado.

Santo Antônio de Lisboa.

Caros fiéis, bem sabemos que a Misericórdia de Deus é infinita, porque não há pecado que Nosso Senhor não possa perdoar. Mas se a consideração ou a lembrança desta Misericórdia, tantas vezes, serviu mais para aliviar a consciência de um pecador, a fim de que perseverasse no pecado com a presunção de que seria perdoado, ao invés de movê-lo a não mais pecar, então não conhecemos a Misericórdia divina, que não é uma licença para se ofender ao próprio Deus. De fato, Deus pode perdoar todos os pecados, inclusive o de presunção; mas a Sua infinita Misericórdia não contradiz a Sua Justiça infinita, de modo que um pecador pode ser castigado pela mesma Misericórdia divina da qual esperava apenas o perdão imediato. Devemos compreender bem, caros fiéis, o que é e como age a Misericórdia de Deus a fim de que dela recebamos apenas o perdão e a graça, e não o castigo e a condenação; e para tanto iremos percorrer atentamente a Epístola e o Evangelho deste XI domingo após Pentecostes, que contém uma lição de Misericórdia.

Ouvimos o evangelista dizer que um surdo-mudo foi apresentado a Nosso Senhor enquanto percorria terras pagãs. Não foi o enfermo que se dirigiu sozinho até o Messias, mas foram os outros que o conduziram. Segundo o texto grego de São Marcos, o enfermo não era de todo mudo, mas falava com dificuldade, razão pela qual, após o milagre, ele passou a falar perfeitamente (cf. Mc. VII, 35). Tratava-se, portando, de uma mudez e de uma surdez adquirida em alguma doença, pois só falaria com dificuldade quem antes tivesse ouvido e aprendido a falar.

E uma vez que audição foi perdida, o único sentido que lhe permitia perceber o entorno era a visão. Sem poder ouvir, o enfermo deveria olhar de um lado a outro repetidas vezes para constatar qualquer mudança de circunstância, o que significa que um surdo tende fortemente a ser um indivíduo distraído, porque a visão precisa compensar a falta de audição.

E o que fez Nosso Senhor? Como bom médico e bom pedagogo, Nosso Senhor o tomou à parte, para que nada o distraísse. Em seguida, o Salvador tocou os seus ouvidos, aplicou saliva à sua língua, e após ter elevado os olhos ao céu, suspirou e disse “éfeta”, que quer dizer “abre-te”. É preciso notar, caros fiéis, que tocando o enfermo desta maneira, aplicando saliva em sua língua e suspirando diante dele, Nosso Senhor não apenas manifesta que é o autor da cura, como também se serve dos elementos mais adaptados à condição deficiente do surdo-mudo.

Antes de prosseguir, podemos agora reler a Epístola. São Paulo menciona muitos daqueles que viram o Cristo ressuscitado, até que ele mesmo, o último dos apóstolos, também O visse. A incredulidade e o medo dos apóstolos, assim como a infidelidade de São Paulo foram curados com a visão do Cristo ressuscitado. A estes, Nosso Senhor apareceu para curar a sua cegueira espiritual; com o surdo-mudo, Nosso Senhor agiu tocando-lhe os sentidos, salivando e suspirando,  para curar a sua enfermidade física.

Eis como o nosso divino Médico curou as enfermidades físicas e espirituais, eis como Nosso Senhor aplicou de maneiras distintas para cada homem o mesmo remédio da graça. Podemos perceber, na Epístola e no Evangelho a condescendência do Salvador para com os enfermos que devia curar, seja os doentes de alma, seja os doentes de corpo. Mas se Ele nos dá a graça de uma aparição ou se Ele nos toca com Seus dedos, Nosso Senhor sempre vem ao nosso encontro, Ele tem pena de nosso estado, Ele sofre com nossa miséria. E nisto consiste a Misericórdia: ela é uma comiseração, um condoer-se com a miséria do próximo como se fosse sua, procurando todos os meios de afastá-la como a teria afastado de si. Ninguém tem mais meios de praticar a misericórdia do que o próprio Criador, porque somente Deus pode curar todos os males da criatura. Esta Misericórdia nada mais é do que a Sua bondade infinita cobrindo a nossa insondável miséria; mas ainda que Deus queira e possa nos curar, ainda que Deus seja, por este motivo, infinitamente misericordioso, somente pela Encarnação que a Sua Misericórdia também se tornou dolorosa e sofrida, porque somente após ter assumido a natureza humana que Deus, que é puro espírito, finalmente pôde sofrer, compadecer-se e se condoer com a criatura miserável. Pela Encarnação Deus nos ama também com um coração humano, Deus nos ama também através de uma natureza humana; mas pela Encarnação finalmente Deus sofre e Se compadece daquela a quem Se fez semelhante, isto é, a criatura humana.

E como a natureza humana do Verbo está unida à Sua natureza divina, isso significa a união da Sua capacidade de sofrer, que vinha da natureza humana, com a Sua ciência divina perfeitíssima. Deste modo, seria possível que o Cristo não sofresse constantemente em Sua vida terrena? No famoso opúsculo Imitação de Cristo, lemos que “Jesus Cristo, Senhor Nosso, [não] esteve uma hora [sequer], em toda a sua vida, sem dor e sofrimento.” (l. II, cap. XII,  6). A Misericórdia infinita de Nosso Senhor não poderia produzir senão um sofrimento constante e agudíssimo dAquele que vê com ciência divina os prejuízos e as consequências incomensuráveis que vêm de cada pecado e já do menor deles.

Portanto, caros fiéis, saibamos que a Encarnação de Nosso Senhor Lhe custou caro: custou-Lhe não menos do que uma vida de sofrimentos, pois Nosso Senhor não pode não sofrer diante do mal da Sua criatura. A Paixão apenas intensificou este sofrimento, apenas multiplicou as dores físicas; mas Nosso Senhor foi, a cada instante de Sua vida, aquilo que o profeta diz a respeito dEle, a saber: “[…] homem das dores, experimentado nos sofrimentos […].” (Is. LIII, 3)

Se para nos manifestar a Sua Misericórdia infinita Nosso Senhor viveu uma vida que foi sofrimento, a presunção da Misericórdia divina é, sem dúvidas, um pecado que ofende sobremaneira a Deus. Enquanto que pela Sua Justiça Deus nos dá a cada um aquilo que nos é devido, aquilo que é proporcional à nossa natureza, pela Sua Misericórdia, Deus nos dá os Seus bens em abundância, para além de toda a justiça. Ofender a Misericórdia, portanto, é mais grave do que ofender a Justiça. Ofender a Misericórdia é se esquecer da própria miséria, ou melhor, erigir a miséria do pecado ao insano estatuto de “felicidade”. Ofender a Misericórdia é escolher para si apenas os deleites e alegrias desordenadas do pecado enquanto Deus escolhia para si, na Encarnação, as dores e os sofrimentos. Ofender a Misericórdia é mais do que pecar com os bens que Deus nos deu, porque tudo o que temos recebemos do nosso Criador; ofender a Misericórdia é mais do que pecar com os bens que Deus nos deu, é pecar com a graça, é desprezar a graça, o que é muito mais grave do que pecar com as criaturas. Ofender a Misericórdia é cometer um pecado que sequer Lúcifer e seus anjos cometeram, pois os demônios pecaram apenas uma vez antes da condenação, enquanto que os pecadores presunçosos tornam a ofender a Deus apesar dos apelos da Sua graça.

Se o pecado é a nossa pior miséria, não existe miséria pior do que rejeitar a cura, do que rejeitar a graça, do que rejeitar a Misericórdia. Por esta razão, ouvimos no Evangelho que o surdo-mudo foi conduzido até Nosso Senhor. De uma certa maneira, o surdo-mudo também era paralítico, na medida em que precisava da ajuda dos outros para se aproximar de Nosso Senhor, porque sozinho não conseguiria. Portanto, caros fiéis, precisamos nos guardar da presunção, pois o seu efeito é a dureza de coração: quanto mais alguém resiste à graça e rejeita a Misericórdia, mais difícil e mais custoso será o arrependimento. O católico que atrasa a sua Confissão para poder aproveitar durante mais tempo o seu estado de pecado, para mendigar durante alguns dias, meses, ou quem sabe alguns anos, as falsas alegrias do seu pecado, este católico arrisca não conseguir se confessar quando a ocasião se apresentar, porque o mesmo demônio que nos tenta à presunção depois nos tentará ao desespero e à vergonha. Não há nada a ser aproveitado com o atraso da Confissão: o que o pecador diz aproveitar consiste, na verdade, na ofensa a Deus. O presunçoso se assemelha ao soldado que feriu o lado de Nosso Senhor: não satisfeito de vê-Lo morto, quis ainda assim continuar a ofendê-Lo. A presunção da Misericórdia, assim como o golpe da lança, fere o Coração de Deus.

Mas voltemos agora ao Evangelho. O surdo-mudo do Evangelho foi apresentado a Nosso Senhor, e a Misericórdia do Salvador não falhou em curá-lo do modo mais adaptado à sua enfermidade. A cura do surdo-mudo, caros fiéis, é também uma imagem da nossa própria conversão, do conversão dos presunçosos. Aquele que antes tinha fechado os ouvidos à palavra de Deus, depois da cura, voltou a ouvir a pregação da doutrina; aquele que antes havia emudecido para o bem, depois da cura se pôs novamente a falar com retidão, pois aquele que reza diz palavras puras e honestas e edifica o próximo. Mas o surdo-mudo não teria sido curado se rejeitasse ficar à sós com Nosso Senhor, se não quisesse olhá-Lo, se não deixasse que Ele o tocasse e sobretudo que lhe aplicasse saliva. Do mesmo modo, São Paulo não teria sido curado da incredulidade se fugisse da visão do Cristo ressuscitado, como os judeus haviam tampado os ouvidos enquanto Santo Estêvão narrava a sua visão do Céu (cf. At. VII, 57); e naquela ocasião, bem sabemos, o então Saulo estava presente (v. 58).

Caros fiéis, para sermos curados da presunção, para que Nosso Senhor nos faça o dom da Sua Misericórdia, precisamos aceitar que Ele nos tire da multidão, que Ele nos ponha à parte para olharmos apenas para Ele. Aquele enfermo do Evangelho vagava sempre os olhos em todas as direções a fim de compensar a falta de audição. Nós também devemos cessar de vagar os olhos nas criaturas, como quem espera um dia encontrar alguma criatura que lhe dê felicidade neste mundo. Devemos fixar nossos olhos em Nosso Senhor não rejeitando as graças que a Providência nos dá. Pouco adianta cumprir o preceito dominical se nossos olhos vagam, se nossos pensamentos voam durante a Santa Missa. Pouco lucramos se nossos lábios dizem uma oração enquanto a visão ou a imaginação não estão recolhidas e concentradas na oração. Deus vem ao nosso encontro; a Sua Misericórdia sempre virá do modo mais adequado à nossa miséria, e não há miséria que Ele não possa curar. Por outro lado, nós também devemos ir ao encontro de Nosso Senhor fixando os olhos nEle e deixando que Seus dedos divinos, que representam a ação do Espírito Santo, toquem em nossas enfermidades. E nenhum meio é mais eficaz para se olhar a Nosso Senhor do que a meditação, da qual provém uma verdadeira iluminação da inteligência, e a partir da qual aceitaremos os remédios da graça, pelas boas resoluções. Quem medita, vê a luz de Deus; quem não medita, não vê esta luz. Quem medita, quer ser curado; quem não medita, rejeita o meio mais eficaz para se extirpar as raízes do pecado na alma.

Caros fiéis, dentro de instantes, a Hóstia e o Cálice serão elevados pelo sacerdote para a adoração dos fiéis. Quantas vezes vimos esta cena divina, quantas vezes vimos Deus sob as espécies eucarísticas renovando o Sacrifício do Calvário. Mas se ainda somos surdo-mudos, se ainda tardamos para ouvir a voz da graça e nos calamos para as boas palavras, preferindo aquelas conversas que ferem a caridade e a pureza, é porque olhamos para Nosso Senhor apenas com os olhos da carne, enquanto nosso espírito permanece irrequieto, distraído, vagando em pensamentos exteriores ao Santo Sacrifício. Mas é próprio da Misericórdia de Deus nos dar a Sua graça para além dos nossos méritos e dos nossos pedidos, como diz a Coleta da Missa. Devemos olhar para Nosso Senhor, ou como dizia Santa Elisabete da Trindade, devemos ficar só com o Só, devemos procurar a solidão com o nosso Único necessário, pois a consideração do Seu amor infinito nos fará finalmente detestar aqueles pecados pelos quais ainda hoje nutrimos afeto.