Sermão para o 7º Domingo depois de Pentecostes

Bethlehem a Brasilia, 28 julii A.D. 2019

Por Pe. Ivan Chudzik, IBP.

A árvore má pode dar bons frutos?

“Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos Céus, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus.” (Mt. VII, 21)

Ave Maria.

Divino Menino Jesus.

Ó Maria, concebida sem pecado

Santo Antônio de Lisboa.

Caros fiéis, a conformidade da nossa vontade à vontade do Pai é a nossa santificação. Deus é Santo, santíssimo, fonte de todo bem e de toda verdade; Sua vida divina é a própria felicidade, é a própria beatitude. Nós, Suas criaturas, fomos elevados à vida sobrenatural pela graça, porque Deus quer mais do que nos dar uma felicidade natural, um Paraíso terrestre; Ele quer nos fazer participar da Sua própria vida beatíssima no Céu. Para isso Ele nos dá a graça; pela graça, nós participamos da Vida do próprio Deus. Deus vive e mora em nossa alma pela graça. Sem a graça ninguém poderá entrar no Céu, ainda que, aos olhos dos homens, alguém tenha sido um bom pai, um bom cidadão, um bom profissional. Não são as virtudes ou qualidades humanas que fazem alguém “bom” diante de Deus. Deus vê a nossa alma; Ele vê se nela se encontra a graça; e nenhuma virtude ou qualidade humana fará o homem entrar na bem-aventurança se a alma se encontra privada da graça. A graça, portanto, é o começo da glória, é a condição da nossa entrada na glória. Quanto maior for a graça, maior será a glória. Disso se segue que o único interesse de um bom católico consiste em viver em graça, crescer em graça, perseverar na graça e trabalhar a fim de que o maior número de pessoas viva na graça. Um bom católico não descansa enquanto não ver seus parentes, amigos, vizinhos, funcionários, colegas, patrões, enfim, um bom católico não descansa enquanto não ver o seu próximo praticando a Fé católica e vivendo em graça. Este é o nosso fim, este é o verdadeiro e único sentido da nossa breve existência sobre a terra.

E uma vez que a vida da graça é o nosso fim—porque sem a graça ninguém entrará na glória—, tudo o mais não passa de meios. Se nascemos ricos ou pobres, se nascemos em boa família ou sem família, se nascemos com as qualidades que desejávamos ou com defeitos que não desejávamos, se alcançamos o que aspiramos ou se nossa vida é permeada de fracassos, tudo o mais não passa de meios para se viver, crescer e perseverar na graça. Como diz São Paulo na epístola da Missa: “Mas agora, libertados do pecado e feitos servos de Deus, tendes por fruto a santidade; e o termo é a vida eterna.” (Rom. VI, 22) Em tudo, caros fiéis, devemos procurar a nossa santificação, com os meios que Deus nos dá e apesar dos meios que não nos dá ou que nos retira. Em tudo devemos procurar a mão amorosa de Nosso Senhor que nos dá ou que nos retira criaturas a fim de que cada criatura não passe de um degrau da escada cujo termo é o Céu. Como ensina São Paulo (I Cor. VII, 31): “[…] a figura deste mundo passa”, de modo que devemos nos servir das criaturas sem nos apegarmos a nenhuma. As criaturas são meios, não passam de meios. O fim de todo católico é viver, crescer e perseverar na graça.

Dito isso, caros fiéis, não nos resta dúvidas da veracidade daquilo que ouvimos no Evangelho: “Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos Céus, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai […].” (Mt. VII, 21) De nada adianta invocarmos o Santíssimo Nome de Jesus e não nos conformarmos à vontade do Pai. Sem a conformidade à vontade do Pai, não viveremos e nem cresceremos em graça, ainda que o Santíssimo Nome de Jesus esteja sempre em nossos lábios. Se invocamos o Santíssimo Nome de Jesus é justamente para obtermos a graça de nos conformarmos à vontade do Pai, pois do contrário agimos como hipócritas e seremos julgados como tais no tribunal de Deus.

Agora, avancemos em nosso raciocínio. “Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos Céus, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai”, disse o Salvador. Porém, é possível, por acaso, que alguém pratique a Religião católica, viva na graça e busque crescer em graça por causa de um autor ou de um formador, seja ele leigo ou sacerdote, que apenas invoca o Santíssimo Nome de Jesus, e não vive ele mesmo na graça? O fato de um autor de Filosofia ou Teologia, um pregador ou um formador ter colaborado na conversão de alguém não seria a prova cabal de que ele possui doutrina católica íntegra e vive na graça santificante? Como pode alguém que só invoque o Santíssimo Nome de Jesus ter sido capaz de mover os seus ouvintes ou leitores à adesão de uma doutrina que ele mesmo não crê ou à prática de algo que ele mesmo não pratica? A solução desta questão é de suma importância para nós católicos, uma vez que não raras vezes aqueles que colaboraram com nossa conversão ou que nos ajudaram a praticar melhor a Fé, não raras vezes são estes que mais tarde são causa de escândalo e de confusão para os católicos. Se “uma árvore boa não pode dar maus frutos […]” (Mt. VII, 18), como explicar os frutos bons da nossa conversão e da nossa vida católica se não raras vezes constatamos que a árvore era má ou se tornou má?

Para entender este ponto, caros fiéis, precisamos distinguir, primeiramente, a graça externa da graça interna. A graça externa consiste em tudo aquilo que age sobre os nossos sentidos externos e, através deles, sobre a nossa inteligência e a nossa vontade. A graça externa são todos os meios sensíveis de propagação da Fé, como a pregação da doutrina, os ritos litúrgicos, a arquitetura e a arte sacra, as boas companhias, os bons exemplos, etc. Tudo o que nos fala de Nosso Senhor pelos sentidos é uma graça externa. A graça externa não atinge a inteligência imediatamente, mas é um convite ao uso da inteligência. Por exemplo, este mesmo sermão pode atingir a inteligência de quem o ouve com a atenção e não surtir efeito naquele que faz questão de pensar em seus negócios. Estes mesmos ritos da Missa podem mover um católico à adoração e não produzir quase nenhum efeito em quem os assiste sem devoção. A graça externa é necessária mas não suficiente, porque agindo sobre os sentidos, nem sempre atinge a inteligência e a vontade.

Por outro lado, aquela graça que atinge diretamente a inteligência e a vontade não é a graça externa, mas a graça interna. Assim ensina Nosso Senhor quando diz: “Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o atrair […]” (Jo. VI, 44). A mais brilhante das pregações, a mais perfeita das liturgias, a mais bela das igrejas, o mais heróico dos bons exemplos, nada pode converter se não for acompanhado de uma moção, de um movimento interior, isto é, de uma ação do Espírito Santo diretamente sobre a alma daquele que ouve a pregação, assiste à liturgia, contempla a arte sacra ou recebe um bom exemplo. Isso significa que nunca é o homem que converte, mas Deus quem converte. É o Espírito Santo, movendo a alma diretamente, que a atrai ao Pai. Tal doutrina é confirmada por Santo Tomás nos seguintes termos: “Se o Espírito Santo não assiste ao coração de quem escuta, todo o ensino humano se torna vão, e a palavra de quem fala será infrutuosa.”

Se a graça interna é necessária para que a graça externa produza o seu fruto, então aquele que ensina a doutrina deve ser mais do que um propagador da doutrina, um instrumento da doutrina; aquele que ensina deve ser mais do que uma causa instrumental, ele deve ser também uma causa segunda, isto é, ele deve colaborar com o Espírito Santo para que as almas recebam a graça interna. E isso se dá pela vida interior. Quando um pregador, um formador, um catequista ou um autor católico reza e tem sólida e profunda vida interior, ele colabora com o Espírito Santo a fim de que as almas recebam abundantes graças internas. A sua pregação será tanto mais eficaz quanto maior for a sua vida interior, porque além da graça externa da pregação, o pregador também é canal de graças internas. O Padre Lacordaire, famoso orador, costumava dizer que se a sua pregação atraía tantas almas, a ponto de os homens terem que subir nos confessionários para se achar um lugar na igreja, no entanto, era São João Maria Vianney que fazia os mesmos homens entrarem nos confessionários.

Portanto, caros fiéis, a primeira conclusão que devemos tirar até aqui é que Nosso Senhor pode, sim, dar a graça da conversão a uma alma apesar de um autor ou pregador não viver na graça. Essa graça seria mais abundante caso o autor ou o pregador vivesse ele mesmo na graça e fosse uma alma de oração; mas Nosso Senhor pode se servir do seu discurso para mover uma alma para a vida espiritual. Se porventura o autor ou o pregador for descoberto em estado de pecado ou for ocasião de um escândalo, em nada deve se abalar a nossa Fé, cujo fundamento não pode ser outro senão a Pessoa de Nosso Senhor, o único que pode nos dar a graça da conversão. Se um dia nós nos convertemos é por Nosso Senhor e para Nosso Senhor, e diante desta verdade pouco importam as misérias daqueles que foram instrumentos de graças externas. Nós procuraremos fazer a vontade do Pai, ainda que o instrumento de nossa conversão não fizesse mais do que invocar, em vão, o Santíssimo Nome de Jesus.

Depois de ter considerado se alguém que não vive na graça pode nos conduzir à vida da graça, devemos agora nos interrogar se alguém que não crê pode nos conduzir à Fé. Para tanto, caros fiéis, importa lembrar que Deus só permite um mal para dele extrair um bem maior, como nos ensina Santo Agostinho. Mesmo o pior dos hereges terá algo de bom a ensinar, porque ninguém pode estar errado em todos os aspectos. Não existe erro absoluto. O erro só existe porque de algo verdadeiro se concluiu algo de falso. Portanto, os hereges também ensinam verdades, mas verdades misturadas ao erro. E se ensinam verdades, então há graças externas. Os protestantes, por exemplo, crêem na maior parte dos livros da Sagrada Escritura, aceitam o dogma da Santíssima Trindade e a divindade de Nosso Senhor. Não nos enganamos se dizemos que existem verdades no Protestantismo; mas nos enganamos se dissermos que graças à heresia protestante alguém abandonou, por exemplo, uma vida de impurezas para se tornar um homem honesto e de bons costumes. Na verdade, Nosso Senhor Se serviu da heresia protestante, da falsa pregação de um falso pastor para conduzir uma alma da sua vida de pecado a uma vida menos grosseira e mais honesta; mas não podemos concluir que do Protestantismo veio a graça da conversão, e tampouco que Nosso Senhor queira que este homem permaneça protestante. Portanto, caros fiéis, o Protestantismo não é a causa da mudança de ninguém, mas a ocasião: enquanto um pecador ouvia uma pregação onde a verdade estava misturada ao erro, o Espírito Santo moveu este pecador para reter o que havia de bom naquela pregação e abandonar os seus vícios mais grosseiros.

Por esta razão, ensina a Teologia moral que nós podemos nos alegrar com os efeitos bons de um ato mal. Ainda que uma pregação contenha heresias e seja pronunciada por um falso pastor, se Deus a permite é em razão dos seus efeitos bons, é em previsão dos seus efeitos bons. Nós podemos nos alegrar com estes efeitos bons, mas devemos, em todo caso, condenar a pregação, porque a verdade não pode se misturar com o erro, por causa do risco de alguém ser enganado. Nisso tudo também devemos admirar a Providência divina, que se serve mesmo dos inimigos da Fé para conduzir as almas à Fé. E se alguém abandonou uma vida de pecado por ocasião de um instrumento falho, por ter ouvido um “lobo em pele de cordeiro”, devemos ter a humildade de reconhecer que Nosso Senhor nos resgata pouco a pouco da nossa miséria, servindo-Se dos instrumentos que estão à nossa volta. Se ao longo do itinerário da nossa conversão tivermos docilidade para com o Cristo, ainda que Ele nos faça passar pelo vale escuro de falsas doutrinas (cf. Sl. XXII, 4), nada temeremos, porque aquele que faz do Cristo o seu único Mestre e o seu único fim não pode se perder no caminho. Perde-se no caminho quem se apega a alguém por quem só deveria passar para encontrar o Cristo.

A partir destas duas conclusões, retornemos agora ao Evangelho. Nosso Senhor declara: “Uma árvore boa não pode dar maus frutos; nem uma árvore má, bons frutos.” A árvore boa é aquela que possui a integridade da Fé, cujo fruto só pode ser bom. Quem age conforme a reta doutrina produz frutos bons. Por outro lado, a árvore má é aquela em que a sã doutrina está misturada com o veneno da heresia; e quanto mais este veneno é sutil, mais os frutos desta árvore parecerão integralmente bons. Alguém que tenha experimentado a parte saudável do fruto pode, aliás, negar que ele esteja corrompido se considerar unicamente a parte que experimentou. Mas se considerar todas as partes do fruto, verá que ele já apodreceu em vários pontos; e se o fruto não for cortado, em breve ele estará inteiramente podre. Portanto, uma árvore má dá maus frutos porque lhe falta a integridade do bem, ainda que seus frutos maus frequentemente pareçam bons.

Dito isso, caros fiéis, não nos deixemos enganar pela aparência de bem de uma árvore má. O então Bispo de Málaga, Dom Angel Oria, aponta como sinais bem comuns dos falsos profetas a intransigência para com o vício e o ascetismo. Não raras vezes os inimigos da Igreja aparentam ser santos ou devotos, como Pelágio e os jansenistas eram tidos por santos. Mas o que os distinguem dos verdadeiros santos é que os falsos profetas não são enviados de Deus, contrariamente aos apóstolos. E hoje não são poucos que pretendem nos ensinar a doutrina, a vida de oração e as práticas de devoção sem jamais terem se submetido à autoridade da Igreja, mas procurando se esquivar da Teologia católica, da Hierarquia e da própria Tradição. Como diz Dom Angel: “Para o católico, todo doutor que não seja enviado ou aprovado por Cristo [isto é, pela Igreja], […] é um falso profeta.”

Caros fiéis, se recebemos nossa formação católica de um doutor que não submeteu o seu pensamento ou a sua atividade à legítima autoridade da Igreja, como podemos ter a garantia de que não estamos experimentando um fruto mau com aparência de fruto bom? A salvação é o negócio mais importante de nossa vida; nada mais seguro, portanto, do que formar a própria Fé pelos santos doutores da Igreja, que podem nos ensinar tanto a doutrina autêntica quanto a santidade verdadeira.