Sermão para a Festa dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo

Bethlehem a Brasilia, 30 junii A.D. 2019

Por Pe. Ivan Chudzik, IBP.

O católico entre a Catedral de Paris e a torre de Babel

“[…] tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” (Mt. XVI, 18)

Ave Maria.

Divino Menino Jesus.

Ó Maria, concebida sem pecado.

Santo Antônio de Lisboa.

Caros fiéis, Cristo Nosso Senhor edificou uma Igreja, como diz o Evangelho, a Sua Igreja. E apesar de Deus poder criar todas as coisas do nada; apesar de tudo retornar ao nada caso Deus retire por um só instante das coisas o Seu sopro e o Seu olhar (cf. Sl. CIII, 29; 32), a Igreja que Nosso Senhor edificou não se dilatou sobre o mundo com a eficácia e a rapidez que esperaríamos de uma obra divina. Durante a Criação do mundo, Deus disse: “Faça-se a luz!” (Gn. I, 3) e a luz instantaneamente foi feita. Quando Nosso Senhor esteve neste mundo para “recriar” o homem decaído, Ele disse a um paralítico: “Levanta-te” (Mt. IX, 6), e o paralítico imediatamente se levantou. Mas quando Nosso Senhor comunicou a autoridade suprema a São Pedro ao lhe dizer por três vezes: “Apascenta as minhas ovelhas” (Jo. XXI, 17), o que aconteceu de visível, de ostensivo, de manifesto? Segundo o Evangelho, nada, e podemos presumir que, de fato, não aconteceu absolutamente nada além da comunicação de uma graça invisível a São Pedro. A terra não tremeu, os céus não escureceram, o sol e a lua não se abalaram e os mortos não ressuscitaram quando Nosso Senhor comunicou a autoridade suprema ao Seu Vigário, o apóstolo Pedro.

Apesar da ausência de sinais exteriores, da manifestação de um poder magnífico e irresistível, não duvidamos que a fundação da Igreja seja uma obra divina e que a Igreja católica seja a verdadeira e única Igreja de Cristo, fora da qual não há salvação, e diante da qual nenhuma religião se compara. No entanto, se a Igreja é uma obra divina, de origem divina, de fundador divino, ela não deixa de ser humana em seus membros. E se os membros da Igreja são os homens, já não podemos esperar no ato da fundação da Igreja aquele mesmo poder e majestade que Deus manifestou ao criar as coisas, ao curar os doentes e ao expulsar os demônios, porque quando Deus cria, nada resiste à Sua palavra; quando Deus cura, nada resiste ao Seu milagre; quando Deus exorciza, nenhum demônio resiste ao Seu poder. Porém, ao nos fazer membros da Sua Igreja, a santificação que jorra dos Sacramentos, a ordem que provém da obediência à Hierarquia, a unidade que procede da submissão ao Magistério, enfim, toda a ação de Deus por meio da Sua Igreja depende da nossa colaboração, depende da adesão do nosso libre arbítrio.

Por conseguinte, se esperávamos que após a fundação da Igreja os apóstolos conquistariam eficaz e subitamente todos os povos, que a verdade triunfaria sem dificuldade de todos os erros, que os maus seriam subjugados e que a sociedade cristã se formaria imediatamente, a História da Igreja se mostra bastante decepcionante. Não encontramos na História da Igreja o mesmo brilho e fulgor que quando Deus cria, cura ou exorciza, mas encontramos o Magistério, a Hierarquia e os Sacramentos da Igreja que para uns, são a causa da sua salvação, e para outros, são a causa da sua perdição. Uns usarão do livre-arbítrio para corresponderem à graça, para se converterem e se santificarem; outros usarão do livre-arbítrio para rejeitarem os meios de salvação e perseverarem ou no erro ou no vício. Na verdade, Deus não age com menos poder na Igreja do que quando cria, cura ou exorciza. Deus é onipotente também na fundação da Igreja, à qual Ele prometeu a indefectibilidade. Contudo, devemos reconhecer o quanto o poder onipotente de Deus está condicionado, de uma certa maneira, em nossa santificação, ao nosso “sim” à graça, e o quanto a nossa santificação frequentemente se produz por outros meios que não o triunfo exterior da Igreja.

A primeira consequência, portanto, que devemos extrair da fundação divina da Igreja, é que a Igreja ensina, santifica e governa os seus filhos em meio às dificuldades, às contrariedades, à resistência dos homens e das sociedades, à infidelidade dos seus próprios membros, e nem por isso podemos perder aquela certeza inabalável de que, por pior que seja a crise: “[…] as portas do inferno não prevalecerão contra ela.” (Mt. XVI, 18)

Nesse sentido, podemos comparar a presença e a ação da Igreja na História com a construção de um edifício, como a Catedral de Paris. Pensemos na Catedral de Paris. Este monumento da arquitetura gótica começou a ser construído a partir do século XII. Isso significa que a sua construção está mais de 1100 anos de distância da fundação da Igreja. A origem divina da Igreja, a veracidade da sua doutrina, o poder santificante dos sacramentos, a autoridade do seu governo, em suma, nada do que ela tem de divino impediu a sociedade cristã de esperar pouco mais de 1100 anos para ver esta Catedral erigida. Afinal, a sua construção dependia da conversão dos francos, dependia do estabelecimento de uma sociedade católica na Gália, dependia da formação de uma Teologia tão elevada como a Escolástica, sem a qual a arquitetura gótica não teria nascido, dependia do progresso da engenharia e da arquitetura da época, dependia da superação dos limites e impasses da arquitetura precedente, a saber, o românico. Deste modo, não antes do século XII, num ambiente de circunstâncias favoráveis, que finalmente o Bispo Maurício de Sully pôde mandar erigir, em substituição do edifício anterior, a nova e definitiva Catedral de Nossa Senhora de Paris, de estilo gótico.

E quanto contemplamos a beleza, a proporção, a harmonia e a grandiosidade do monumento, os praticamente 1100 anos de espera parecem compensar e fazer sentido, porque se trata de uma obra excelente e perfeita, ainda que as agulhas das torres tenham ficado por fazer.

Ao longo de doze séculos, quantos católicos, quantas gerações de católicos precisaram guardar a Fé e crescer em santidade até que a sociedade estivesse suficientemente estruturada para empreender uma construção das proporções da Catedral de Paris. O “sim” à graça de incontáveis católicos durante doze séculos foi a condição principal para se reunir as principais circunstâncias que tornariam possível, em 1163, o lançamento da primeira pedra.

Mas se estivéssemos nós no tempo dos descendentes de Noé, quando os homens quiseram construir uma torre que atingisse os céus (cf. Gn. XI, 4), quantos de nós seriam tentados a desviar a construção da torre—a torre de Babel—a fim de que se erigisse em seu lugar uma Catedral? Se ao invés de uma torre os homens construíssem uma Catedral, certamente Deus não os castigaria com a confusão de línguas, certamente faríamos a maior obra de caridade de que a humanidade precisaria, porque enquanto a torre serviria para a vanglória dos construtores, a Catedral não teria outro fim senão a santificação dos homens e a glorificação de Deus.

Na verdade, caros fiéis, a hipótese—ainda que absurda—de um “desvio” na construção da torre de Babel, por mais longe que vá a nossa imaginação, não nos convence em nenhum aspecto. Uma estrutura como a Catedral de Paris não poderia ter sido construída como foram, por exemplo, muitas basílicas romanas, isto é, recuperando-se colunas de templos e construções do Império romano. Uma estrutura como a Catedral de Paris não surgiu de um improviso, de um desvio, de uma negociação, de acordos, de um golpe de Estado, ou de qualquer outra causa que não seja uma sociedade católica florescente como a que havia no século XII. É preciso primeiramente formar uma sociedade tão católica quanto a da Gália do século XII para que um Bispo possa lançar a pedra fundamental de uma Catedral como a de Paris.

E ainda que tentássemos reaproveitar a construção da torre de Babel para, no lugar dela, construir pelo menos algo como uma basílica romana—uma vez que as basílicas romanas recebiam colunas dos templos pagãos—, é preciso considerar que a Fé católica aceitou o mármore dos templos pagãos, mas não os falsos deuses deles. Logo, a doação do mármore não implicou absolutamente nenhum compromisso para a Fé dos primeiros cristãos.

A partir dessas duas hipóteses, que conclusões podemos tirar? Talvez alguns já tenham compreendido que a nossa reflexão sobre a Catedral de Paris não passa de uma comparação com a sociedade católica, ou melhor, a Cristandade. Na sociedade católica, tudo está ordenado a Nosso Senhor como na Catedral de Paris toda a arquitetura está ordenada ao espiritual. Mas a Catedral de Paris não pôde ser construída antes de doze séculos de preparação, ou melhor, doze séculos em que inúmeras gerações disseram “sim” à graça de Deus e cresceram em graça. Este monumento da arquitetura gótica é, portanto, o fruto amadurecido de uma árvore em que a seiva da vida interior era rica e pujante. Sem esta vida interior, nada de sociedade católica, nada de instituições católicas, nada de estruturas católicas, e consequentemente, nada de monumentos católicos, como a dita Catedral. Somente o ardor da caridade teria movido gerações e gerações de católicos a praticarem, progredirem e se aprimorarem em todas aquelas ciências e técnicas que, no século XII, culminariam na Catedral de Paris. A vida interior, por conseguinte, é o fundamento da Cristandade. Caros fiéis, quem quer edificar ou reconstruir a Cristandade deve, primeiramente deixar que Nosso Senhor venha perfazer o edifício da graça em sua alma, porque é muito fácil, aliás, muito tentador, querer empreender uma obra exterior grande e ambiciosa como uma Catedral, sem antes ter empreendido com seriedade, no seu interior, o combate espiritual. Afinal, pretender reconstruir a Cristandade a partir das obras exteriores, a partir da militância ou do ativismo católico, não deixa de trazer um ganho para o amor-próprio que se compraz com aquilo que realiza, enquanto o combate espiritual não nos traz senão contrariedades, tribulações e dificuldades de todo tipo. Mas sem este combate, o amor-próprio não é purificado; e se o amor-próprio não é purificado, as obras exteriores, ainda que boas em si mesmas, logo se desviam do seu fim bom. Quem pretende, portanto, trabalhar pela Cristandade, deve antes de tudo e acima de tudo cultivar uma verdadeira e profunda vida interior. E por “vida interior” se compreende muito, mas muito mais do que rezar um terço do Rosário todos os dias.

Não obstante, antes que as catedrais góticas fossem construídas na Europa, as basílicas romanas dos primeiros séculos, de arquitetura mais simples, costumavam receber colunas dos templos pagãos. Se no momento presente não podemos recuperar o esplendor da Cristandade tal qual encontramos nos séculos XII e XIII, a ação dos leigos na política, na cultura, na educação e nas mais diversas áreas não poderia, por acaso, produzir uma sociedade minimamente católica, o que aos poucos nos conduziria novamente à Cristandade? Caros fiéis, assim como o mármore vindo dos templos pagãos para as basílicas primitivas não implicou absolutamente nenhum compromisso para a Fé dos primeiros cristãos, mas significou o triunfo do Catolicismo sobre o paganismo, do mesmo modo, se a ação dos leigos na esfera pública se realiza à condição de acordos contra a Fé e a Moral, então não estamos desviando a construção da torre de Babel que é a sociedade atual, sociedade fundada no liberalismo maçônico, para erigir em lugar da torre uma catedral ou uma basílica; estamos simplesmente nos unindo ingenuamente à mesma confusão dos construtores, que também não se compreendem entre si, isto é, não têm unidade de princípios. Infelizmente nem todos os católicos pensam assim, porque julgam que, se não se juntarem a certas iniciativas duvidosas, perderão toda oportunidade de exercer o apostolado leigo. Desta forma, participam de alianças, instituições e eventos que se dizem católicos, mas que mal conseguem esconder ou disfarçar a sua ligação com outras doutrinas, como a tese da “unidade transcendental das religiões”, que também é difundida sob o título ambíguo de “Filosofia perene”. A ingenuidade dos fiéis que cooperam com alianças, instituições e eventos onde se faz o livre exame da Fé católica pode ser comparada a alguém que retira uma coluna de uma Catedral gótica para anexá-la à torre de Babel, julgando assim estar cristianizando a torre. Por mais que a coluna pertencesse a uma igreja, por mais que fosse de estilo gótico, a partir do momento em que integra um edifício pagão ela se desvincula da unidade à qual pertencia ao mesmo tempo em que não redime o edifício ao qual passa a pertencer. E mesmo se mil colunas góticas fossem anexadas à torre de Babel pouco importaria: uma ou mil não fariam da torre de Babel a Catedral de Paris, porque faltará sempre a integridade da forma. Consequentemente, quem quiser trabalhar pela Cristandade, ao lado da vida interior deve preservar a integridade e a unidade da Fé, precavendo-se principalmente contra os católicos liberais, cujo pretenso combate ao Comunismo esconde inúmeros compromissos com o espírito do mundo e as falsas doutrinas.

Caros fiéis, quando Nosso Senhor disse a São Pedro que ele seria a pedra fundamental da Sua Igreja, não nos esqueçamos daquilo que o próprio apóstolo nos diz em sua epístola: “[…] quais outras pedras vivas, vós também vos tornais os materiais deste edifício espiritual […]” (I Pd. II, 5) Nós também somos pedras do Corpo Místico de Cristo, e da nossa incorporação a Nosso Senhor depende a dilatação da graça na humanidade, depende a re-cristianização da sociedade, depende a conversão do próximo. Não podemos construir nada de exterior se não estamos primeiramente bem enraizados e alicerçados nEle (cf. Col. II, 7), o Cristo, pela vida interior. Do contrário, aquele cuja militância ou ativismo pretende produzir grandes obras como as catedrais, sem vida interior e sem a integridade da Fé, arrisca-se em colaborar ingenuamente na edificação de uma torre de Babel.