Sermão para o 2º Domingo depois de Pentecostes

Bethlehem a Brasilia, 23 junii A.D. 2019

Por Pe. Ivan Chudzik, IBP.

A primazia da Eucaristia e a santa indiferença e liberdade de espírito diante dos fins secundários

“Pois vos digo: nenhum daqueles homens, que foram convidados, provará a minha ceia.” (Lc. XIV, 24)

         Ave Maria.

         Divino Menino Jesus.

         Ó Maria, concebida sem pecado.

         Santo Antônio de Lisboa.

Caros fiéis, antes mesmo que a festa do Corpo de Deus fosse instituída, o Próprio do segundo domingo após Pentecostes já fazia parte do ano litúrgico. Mas tamanha é a relação que a epístola e o Evangelho de hoje têm com o mistério da Eucaristia que facilmente poderíamos julgar que o domingo depois da festa do Corpo de Deus não passa da sua continuação. É um presente da Providência que as leituras deste domingo pareçam continuar a meditação da Igreja sobre o Santíssimo Sacramento, principalmente porque começamos aquele tempo litúrgico chamado a partir da Reforma de “tempo comum”, mas que no Missal antigo recebia o título de “pós-Pentecostes”. Entramos no ciclo dos domingos após Pentecostes, durante o qual não haverá mais festas dedicadas aos mistérios da vida de Nosso Senhor. Todas as festas de Nosso Senhor já passaram: o Seu nascimento, a Sua Epifania, o Seu Batismo, a Sua Morte, Ressurreição e Ascensão gloriosa ao Céu. Mesmo a Sua Transfiguração, cuja festa ocorrerá propriamente em agosto, já foi comemorada pela Igreja durante a Quaresma. Portanto, neste ciclo dos domingos após Pentecostes, quando cessam os mistérios da vida de Nosso Senhor, o mistério que acompanhará a Igreja na sua peregrinação rumo ao Céu será o mistério a Eucaristia. Se a missão do Espírito Santo, a partir de Pentecostes, consiste em confirmar a doutrina e a vida de Nosso Senhor nas almas, isto significa que, a cada domingo, o Espírito Santo procurará firmar, sedimentar progressivamente nas almas Aquele mesmo Cristo que recebemos sob os véus do Sacramento. No segundo domingo após Pentecostes, caros fiéis, devemos contemplar a ação do Espírito Santo na Igreja para confirmar e consolidar em nós os frutos da Redenção, frutos que recebemos tanto pelo Sacrifício quanto pelo Sacramento do Corpo e Sangue de Nosso Senhor.

Afirmar a primazia da Eucaristia na vida da Igreja, portanto, é extremamente necessário. Enquanto os protestantes dizem que “basta crer” ou “basta aceitar Jesus como Salvador”, nós bem sabemos que nosso Redentor quer aplicar os frutos do Sacrifício do Calvário não diretamente, não imediatamente, mas através dos Sacramentos. A via ordinária para se receber as graças da Redenção são os Sacramentos. Portanto, quanto mais frequentarmos os Sacramentos, quanto mais fizermos os Sacramentos serem frequentados pelo nosso próximo e quanto mais os frequentarmos bem, mais os frutos da Redenção se dilatarão sobre a terra.

É preciso perceber que os Sacramentos, e especialmente a Eucaristia, têm a eficácia de reformar interiormente aqueles que os recebem. Sem a graça santificante, conferida no Batismo e recuperada na Confissão para aqueles que a perderam, não é possível realizar nenhum bem meritório, isto é, com valor sobrenatural; e caso um católico viva em estado de graça, se não houver novas infusões da mesma graça—e para isso servem a Confissão e a Eucaristia—, ele cairá mais facilmente na tibieza e na desordem das paixões. Portanto, que tipo de bem sobrenatural podemos produzir sem frequentar os Sacramentos? Ou nenhum bem, ou provavelmente um bem medíocre.

Tais princípios estão claramente afirmados no “hino à caridade” de São Paulo, quando ele diz: “[…] mesmo que [eu] tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tiver caridade, não sou nada.” (I Cor. XIII, 2) O Apóstolo dos gentios despreza obras como transportar montanhas, dar todos os bens aos pobres e lançar o próprio corpo às chamas caso não haja a virtude sobrenatural da caridade, que só opera quando uma alma está na graça. A necessidade da caridade para que as nossas obras tenham valor faz com que a primeira montanha que devemos transportar, pelo poder da Fé, não é uma montanha de pedras, mas o próprio demônio, que por causa do seu orgulho, do seu desejo de se erguer e se fazer como Deus, é comparado às montanhas. Sem a caridade, ainda que alguém transporte montanhas, caso não tenha extirpado o orgulho que o demônio lhe inspira, o milagre exterior de nada vale e para nada serve. Isso significa que um católico pode fazer obras grandes, estrondosas, retumbantes, que atraem inúmeras pessoas, que são aplaudidas por inúmeras pessoas; porém, se estas obras estão fundadas na precipitação e em todo tipo de imprudência, na vaidade ou na desobediência ao sacerdote, então, no lugar do mérito, o católico deverá prestar severas contas diante de Deus de todas as montanhas que pretendeu transportar sem o ímpeto da caridade.

Portanto, caros fiéis, antes de nos lançarmos às obras na vida particular e às iniciativas de apostolado na esfera pública, é preciso afirmar a primazia da Eucaristia na vida da Igreja, porque a primazia da Eucaristia é a primazia da vida interior, é a primazia da graça e da caridade. É pelos Sacramentos e pela Santa Missa que Nosso Senhor aplica a Redenção ao mundo. É da vida sacramental e da Santa Missa que nossas obras devem se nascer; é para a vida sacramental e para a Santa Missa que as nossas obras devem tender mais do que para a construção de uma mera “estrutura exterior”, como são as incontáveis instituições e os incontáveis eventos que se dizem “católicos” atualmente, onde a vida interior e a frequência aos Sacramentos não ocupam o primeiro lugar, sendo que em alguns casos não ocupam lugar nenhum.

De fato, lá onde a vida da graça—a vida interior—e a frequência aos Sacramentos e à Santa Missa não tiverem a primazia sobre os demais fins, de nada adianta a oração e os Sacramentos ocuparem qualquer lugar secundário. Um católico não deve dar um lugar secundário à vida de oração e à frequência aos Sacramentos, porque se alguém lhes dá um lugar secundário é uma questão de tempo que não lhes dê lugar nenhum, é uma questão de tempo para que qualquer outra prioridade elimine por completo a oração e os Sacramentos da vida cristã. Ainda que tantos bradem, nos ambientes virtuais, da necessidade de se reconstruir uma sociedade católica, já dizia o Cardeal francês Louis-Édouard Pie: “O futuro da França—e o mesmo podemos dizer sobre o Brasil—depende em muito de uma questão de liturgia.” E ele acrescentava: “A questão social será resolvida pela questão religiosa, e a questão religiosa diz respeito sobretudo à questão do culto… Que os dias passados do culto católico voltem à nossa pátria, e voltará seu espírito religioso e católico de outrora, e com a religião retornarão também para ela todas as antigas virtudes, a caridade dos ricos, a submissão dos pobres e a felicidade de todos.” (BESSE, Dom Martial. Le Cardinal Pie. Paris: Chiré, 2014, pp. 31, 32)

Caros fiéis, a prioridade e a primazia que devemos dar à Santa Missa, aos Sacramentos e à vida de oração decorrem do fim que almejamos. Deus nos criou para a glória eterna, para a bem-aventurança do Céu; e depois da queda de Adão, restaurou a amizade do homem com Ele pela Redenção operada por Nosso Senhor. Logo, nada é mais urgente, nada mais primordial, nada mais essencial do que viver em graça e fazer os outros viverem na graça, porque sem a graça ninguém entrará na glória. Os meios ordinários para se viver e se crescer na graça são, como bem sabemos, os Sacramentos, pois por meio dos Sacramentos Nosso Senhor aplica a Redenção nas almas. Quanto a oração, ela entretém a graça recebida e nos prepara para as novas infusões da graça a cada vez que nos aproximamos dos Sacramentos.

Dito isso, o que pensar de todos os demais fins de um católico? Diante do nosso fim último, que é o Céu, e diante dos meios necessários para se viver e crescer em graça, que são os Sacramentos e a vida interior, o que são os demais fins? Todo o restante, seja o estudo, seja o trabalho, seja o estado de vida, todo o restante não passa de meio com relação ao nosso fim sobrenatural. Se alguém estuda, que estude para, em última instância, alcançar o Céu. Se alguém trabalha, que trabalhe para, em última instância, alcançar o Céu. Se alguém abraçou determinado estado de vida, que o viva para, em última instância, alcançar o Céu. Infelizmente, por causa da secularização da sociedade, julgamos que só exercemos a caridade enquanto rezamos ou frequentamos os Sacramentos, quando, na verdade, todos os demais atos, todos os demais fins secundários devem ser cumpridos sob a moção, isto é, sob o impulso e o império da caridade, o que torna cada um de nossos atos meritórios diante de Deus.

E uma vez que os demais fins—estudo, trabalho, estado de vida—em relação ao fim último, que é o Céu, tornam-se meramente meios, devemos recordar aqui o “Princípio e Fundamento” enunciado por Santo Inácio de Loyola nos seus Exercícios espirituais, a saber: “O homem é criado para louvar, prestar reverência e servir a Deus nosso Senhor e, mediante isto, salvar a sua alma; e as outras coisas sobre a face da terra são criadas para o homem, para que o ajudem a conseguir o fim para que é criado. Donde se segue que o homem tanto há-de usar delas quanto o ajudam para o seu fim, e tanto deve deixar-se delas, quanto disso o impedem. Pelo que, é necessário fazer-nos indiferentes a todas as coisas criadas, em tudo o que é concedido à liberdade do nosso livre arbítrio, e não lhe está proibido; de tal maneira que, da nossa parte, não queiramos mais saúde que doença, riqueza que pobreza, honra que desonra, vida longa que vida curta, e consequentemente em tudo o mais; mas somente desejemos e escolhamos o que mais nos conduz para o fim para que somos criados.”

Observemos, nos Exercícios de Santo Inácio, que a santificação do homem está clara e firmemente enunciada como fim último, como o sentido da existência sobre a terra; e em relação a este fim, qualquer outra coisa, ainda que excelente em si mesma, como a saúde, a riqueza ou a vida longa só deve ser procurada e desejada à medida em que nos aproxima do fim último. Em outras palavras, o católico deve guardar uma santa indiferença, uma verdadeira liberdade de espírito pela qual ele aceitaria tanto a riqueza quanto a pobreza, à condição que assim amasse a Deus e O servisse. Os Santos de tal modo compreenderam a santa indiferença e a liberdade de espírito com relação aos meios que frequentemente disseram, nas suas meditações, que não se importariam com a condenação ao inferno desde que lá pudessem amar a Deus. Evidentemente não se pode amar a Deus no inferno; mas tamanha é a santa indiferença e a liberdade de espírito dos Santos que, se fosse possível—numa hipótese absurda—amar a Deus no inferno, eles aceitariam a condenação. O que não queriam era ser separados da caridade, ainda que o preço desta caridade fosse os sofrimentos do inferno.

Na verdade, a prioridade e a primazia dos meios que nos fazem viver e crescer em graça, além da santa indiferença e liberdade de espírito diante dos demais meios, podem ser resumidos no seguinte princípio enunciado pelo reverendo Padre Lorenzo Scupoli na sua obra O combate espiritual: “[…] a santidade não consiste em outra coisa além […] da renúncia total à nossa vontade, da total resignação à providência e do fazer tudo isso simplesmente pela glória de Deus e pelo puro desejo de agradá-lo […] ” (SCUPOLI, Padre Lorenzo. O combate espiritual. Lorena: Cléofas, 2013, p. 19). Nosso fim último é a união com Deus, caros fiéis, e em vista deste fim não somos nós que devemos ditar a Nosso Senhor como, quando e onde queremos servi-Lo, porque cabe à Providência nos enviar os meios que mais nos convém para nos desapegarmos do nosso amor-próprio desordenado, da complacência por nós mesmos e de toda vaidade.

A partir destes princípios, voltemos o olhar para o Evangelho do segundo domingo após Pentecostes. Um certo homem fez uma grande ceia e convidou muitas pessoas (cf. Lc. XIV, 16). Quando a ceia já estava pronta, enviou seus servos para confirmar o seu convite aos convidados (v. 17). No tempo de Nosso Senhor, era costume convidar duas vezes para aquelas grandes ceias que ocorriam na sociedade oriental, de modo que declinar do segundo convite era uma desfeita muito grave ao senhor da ceia. Na parábola de Nosso Senhor, três convidados declinam do segundo convite com pretextos vãos: um devia ir ver um terreno (v. 18), outro devia experimentar os seus bois (v. 19) e o terceiro simplesmente alegou que tinha se casado (v. 20). Ainda que tenham aceitado o primeiro convite, quando a ceia era eminente deram-se todos por escusados e cada um preferiu o seu bem particular em detrimento do trabalho que o senhor teve em preparar a ceia, em detrimento da sua generosidade e amizade para com os convidados.

Assim fazemos nós; assim somos nós. Nós aceitamos o primeiro convite de Nosso Senhor quando Ele nos chamou à vida da graça pelo Batismo; mas quando devemos escolher entre a vontade de Deus e a nossa, preferimos a nossa. Nenhum daqueles convidados alegou um bem ilícito: o terreno e os bois eram comprados, não roubados; e o casamento não era divórcio seguido de adultério. Os três convidados se escusaram da ceia alegando bens lícitos, como fazem os bons católicos, que vivem na graça mas não progridem na graça porque não sabem preferir a vontade de Deus à própria, porque querem se santificar escolhendo apenas o que querem, quando querem, como querem e porque querem. A atitude dos três convidados, portanto, opõe-se radicalmente à santa indiferença e liberdade de espírito ensinadas por Santo Inácio; a atitude dos três convidados não faz da vontade de Deus o cerne da santificação. A atitude dos três convidados é a prova de que podemos perfeitamente servir a nós mesmos dentro da Casa de Deus quando não há mortificação da vontade própria e do amor próprio.

O apego à vontade própria na vida espiritual é a origem de inúmeros e gravíssimos males para a vida particular e para o apostolado católico, como bem notou o reverendo Padre Scupoli a respeito das almas fracas: “[…] [elas] se apoiam totalmente em obras exteriores, e isso pode ser uma causa de grande ruína e desespero; não porque a prática de tais obras não seja boa em si (pois são coisas muito santas), mas sim por serem consideradas como fins e não meios, enquanto o coração é esquecido e abandonado às inclinações do demônio oculto. Este, vendo a ilusão dos que saem do verdadeiro caminho, não só os deixa continuar com seus exercícios e obras, mas até lhes proporciona praticá-los com gosto e deleite, para que creiam estar muito avançados na vida espiritual. […]” (pp. 17-18)

Quem quer se santificar preferindo a vontade própria à vontade de Deus se expõe a todo tipo de ilusões do demônio oculto; e como disse São Paulo (cf. Gl. I, 8), o demônio pode se apresentar como anjo de luz para nos enganar. Aos bons católicos o demônio não oferece primeiramente os bens ilícitos, mas se contenta simplesmente em desviá-los da vontade de Deus, tentando-os a preferirem qualquer outro bem lícito. Pouco importa o brilho, o fascínio, a grandeza ou o sucesso que têm certas obras: o demônio se serve de uma certa excelência exterior para nos desviar da vontade de Deus. Enquanto a vontade de Deus exige mortificação e sacrifício, as ilusões do demônio nos enchem de desejo de grandeza e de triunfo a qualquer custo.

À guisa de conclusão, caros fiéis, como, então, identificar, em nossa vida espiritual se fazemos a vontade de Deus ou se enveredamos pelas sugestões do demônio? Primeiramente, a integridade da Fé, sem a qual não se agrada a Deus. Qualquer bem que nos seja sugerido, em detrimento da integridade da Fé, será falso e repleto de perigos. Mas outro critério bastante oportuno é a abertura de coração e a obediência ao sacerdote. Como afirmou o reverendo Padre Scupoli, é o “demônio oculto” que dirige uma alma que não quis ser dirigida pela vontade de Deus através da legítima obediência ao sacerdote. Além do Padre Scupoli, outros autores espirituais mencionam o dito “demônio mudo”, isto é, aquele espírito que nos tenta a esconder do diretor ou do confessor seja um pecado do qual se tem vergonha de confessar, seja uma obstinação pessoal que seria reprovada pelo diretor. Neste último caso, a alma se persuade tanto de que tem razão, de que tem uma idéia brilhante e incontestável, que ao invés de confrontá-la com os argumentos do diretor ou do confessor, prefere tudo esconder dele. Tal atitude de silêncio se opõe radicalmente à escada da humildade descrita por São Bento, pois o terceiro degrau consiste em se submeter obedientemente aos superiores, assim como oitavo prescreve para não se fazer nada de extravagante para além do que é a regra comum ditada pelo Abade. Ainda que não sejamos obrigados à obediência monástica, a escada da humildade de São Bento ajuda a compreender o quanto certas “boas intenções” não passam de um orgulho sutil.

Infelizmente, caros fiéis, não são poucos os que se crêem mais entendidos do que os sacerdotes e mais iluminados do que eles. Apesar das misérias pessoais de cada sacerdote, que devem ser remediadas pela vida interior, os princípios de Teologia aprendidos no Seminário, além das graças de estado, são motivos suficientes para que um bom católico, movido pela humildade e pela caridade, não pretenda salvar o mundo ou reconstruir a Cristandade confiando apenas nos seus juízos e nos juízos daqueles que concordam consigo, ao mesmo tempo em que esconde ou despreza o que diz o diretor, o confessor ou qualquer sacerdote idôneo que seja o pastor de um rebanho.

Quanto a nós, peçamos aquelas graças que ouvimos na Coleta da Missa, peçamos o temor e o amor do Santíssimo Nome de Jesus, pois aqueles que amam sinceramente a Deus serão conduzidos seguramente por Ele, e não pelo demônio oculto ou pelo demônio mudo.