Sermão para a Festa de Corpus Christi

Bethlehem a Brasilia, 20 junii A.D. 2019

Por Pe. Ivan Chudzik, IBP.

A Eucaristia nos faz terríveis em face ao demônio

 

“Saiamos, portanto, desta mesa, meus irmãos, como leões repletos de ardor e de fogo, terríveis ao demônio, cheios de lembrança de nosso Chefe e deste amor ardente do qual Ele nos deu tão vivas marcas.”

(São João Crisóstomo, homilia 46, 3)

 

Ave Maria.
Divino Menino Jesus.
Ó Maria concebida sem pecado.
Santo Antônio de Lisboa.

         Notemos com consternação e tristeza, caros fiéis, o quanto a nossa Comunhão eucarística difere da descrição que São João Crisóstomo faz dela. Notemos que, em comparação a esta descrição, é mais fácil concluir que não sabemos comungar. Notemos que desde a nossa Primeira Comunhão parece que estivemos a receber qualquer outra graça, mas não o Autor da graça sob os véus do Sacramento, por serem tão poucos os efeitos, tão poucos os frutos, tão superficial a diferença que a presença física da Humanidade e da Divindade de Nosso Senhor causa em nós. Ou por acaso algum de nós ousará dizer que, quando comunga, sua alma brilha, cintila, reluz de ardor como uma brasa acesa, a ponto de cuspir fogo em face do demônio e enchê-lo de temor?

         E apesar desta contradição que nos entristece e enche de confusão, a Eucaristia é festejada sempre e invariavelmente com alegria pela Liturgia católica. É notório que Igreja comemora jubilosa a presença do seu divino Esposo sob os véus sacramentais. De fato, depois que o ano litúrgico completou a trajetória terrena de Nosso Senhor, desde o ciclo do Natal até a festa de Pentecostes, o que resta à Igreja, afinal, senão a Eucaristia? Depois que o divino Mestre subiu ao Céu e nos enviou o Espírito que procede do Pai e do Filho, o que resta à Igreja senão a Sua presença constante diante de nós—nos sacrários, nos ostensórios e a cada vez que a Hóstia se eleva no altar—, e a Sua presença em nós—a cada vez que comungamos e passamos a viver da graça sacramental?

         Mas talvez aqui se encontre o cerne do problema. Que conceito temos daquela presença diante de nós? E o que fazemos daquela presença em nós?

         Que conceito temos daquela presença diante de nós? É uma coisa? É algo? É uma graça? Não é uma coisa, mas uma Pessoa. Não é algo, mas Alguém. Não é tampouco uma graça, mas o Autor da graça. A Eucaristia é a presença real e sacramental de Nosso Senhor sob as aparências de pão e de vinho. A partir da Encarnação, o Verbo assumiu a natureza humana, de modo que a Sua Humanidade velava, escondia a Sua Divindade. Os apóstolos viam um homem perfeito, mas pela Fé sabiam que se tratava de Deus mesmo, da segunda Pessoa da Santíssima Trindade unida à nossa natureza. No Sacramento da Eucaristia, por sua vez, também a Humanidade de Nosso Senhor é velada, escondida pelas aparências de pão e de vinho. Isto significa que, se pudéssemos tolher, eliminar as aparências do Sacramento, teríamos diante de nós o mesmo Cristo Filho de Maria Santíssima. Eis uma verdade que facilmente esquecemos: Jesus eucarístico é o Verbo encarnado, e não uma imagem, uma projeção, um aspecto, um elemento da Sua Pessoa divina. Cremos na presença real; mas na prática nos esquecemos de que Aquele de Quem os Evangelhos falam durante a Santa Missa, é o mesmo que iremos receber em seguida na Eucaristia. E se se trata da mesma Pessoa, igual é o amor, a bondade, a misericórdia, a doçura, a paciência; assim como igual é o poder e a justiça. Muito oportuno, portanto, será se, daqui por diante, nós nos servirmos do Evangelho da Missa para aperfeiçoar o conceito que temos de Jesus eucarístico, pois tudo aquilo que ouvirmos no Evangelho a respeito das Suas perfeições também se aplica a Jesus eucarístico. Como disse São Paulo na epístola aos Hebreus (XIII, 8): “Jesus Cristo é sempre o mesmo: ontem, hoje e por toda a eternidade.”

         Se cremos na presença real, não podemos fazer dela uma “prisão” ou uma “masmorra” na qual Nosso Senhor está encerrado. Não é o Cristo do sepulcro que está presente, mas o Cristo ressuscitado, que subiu ao Céu e está sentado à destra de Deus Pai. Está presente o Cristo que outrora verteu todo o Seu Sangue e Se deixou pregar no madeiro da cruz para nos salvar. Está presente o divino Cordeiro, que na visão de São João, descrita no Apocalipse (V, 6), aparece “de pé como que imolado”: “de pé”, porque venceu o pecado e a morte pela Ressurreição; “como que imolado” porque apresenta as Suas chagas gloriosas ao Pai, conduzindo o culto dos eleitos no Céu e tornando eficaz o nosso culto sobre a terra. Está presente o Cristo que ainda há de vir julgar os vivos e os mortos. Está presente, em suma, mesmo e único Cristo. Se cremos na presença real, nossa atitude não deve ser a de quem irá velar um cadáver. Com efeito, quem vela um cadáver presta as honras ao corpo presente, mas nada pode dizer ou ouvir da pessoa ausente. Observemos, por exemplo, a atitude de Marta quando Nosso Senhor foi a Betânia após a morte de Lázaro. Ao ter encontrado Marta, o Salvador lhe disse: “Teu irmão ressurgirá.” (Jo. XI, 23), ao que ela respondeu: “Sei que há de ressurgir na ressurreição no último dia.” (v. 24) Em face à Pessoa divina do Cristo ali presente, Marta manifestou Fé no Seu poder futuro, como se Aquele que iria ressuscitar os mortos fosse outro, e não o mesmo que Se encontrava à sua frente. Por isso Nosso Senhor lhe respondeu: “Eu sou a ressurreição e a vida.” (v. 25) Este episódio do Evangelho ilustra muito bem a atitude de tantos católicos diante da presença real: crêem em Jesus eucarístico, mas não se atentam ao Seu poder, ignoram a Sua bondade e fazem pouco caso da Sua majestade. No entanto, Nosso Senhor na Eucaristia não está morto, não dorme, não está atado e nem indiferente à nossa presença diante dEle. Para aperfeiçoarmos o conceito que temos daquela presença diante de nós, nossa Fé deve romper os véus eucarísticos a ponto de vermos no Sacramento o próprio Cristo do Evangelho, e assim nos comportarmos como um daqueles pecadores sinceramente arrependidos que dEle receberam perdão e misericórdia.

         A partir destas reflexões, que conceito teremos da Sua presença em nós? Não mais como quem recebe uma graça qualquer, uma mera consolação, uma “energia espiritual” ou, o que é realmente grave, como quem se aproxima de uma espécie de “rito de iniciação”. Infelizmente não são poucos os católicos que lêem e se submetem a autores ditos de “Direita” que fazem dos Sacramentos um “rito de iniciação”. Enquanto estes autores forem a sua única ou principal fonte de formação católica, dificilmente poderão progredir na graça, e na medida em que aderirem conscientemente aos erros perenialistas dos seus mestres, cometerão pecado grave por se aproximarem da Eucaristia à espera de uma “divinização”. De fato, a Eucaristia, assim como a graça santificante, não nos diviniza, mas nos deifica, isto é, faz-nos participar da Vida de Deus. Assim como ferro incandescente se torna ígneo, ou seja, semelhante ao fogo, participante das propriedades do fogo, do mesmo modo, o comungante recebe Deus para se tornar semelhante a Deus, para participar da Sua Vida, da Sua bondade, da Sua sabedoria, do Seu poder, em suma, das Suas perfeições divinas tanto quanto das virtudes da natureza humana do Verbo, como a Sua adoração e a Sua humildade. A natureza do homem não é destruída nem substituída pela graça, porém elevada e aperfeiçoada. Neste sentido, o comungante só irá receber com fruto—e fruto abundante—a Pessoa de Nosso Senhor, quando ele deixar que a Eucaristia o consuma.

         Com efeito, quando nos alimentamos nós consumimos os alimentos e os assimilamos, de modo que todas as propriedades do alimento passam para o organismo e se tornam parte de nós. Do Sacramento da Eucaristia recebemos um alimento e uma nutrição de ordem espiritual, isto é, o aumento da graça pelo contato físico com a Humanidade e a Divindade de Nosso Senhor. Mas à diferença da alimentação do corpo, não somos nós que consumimos a Eucaristia, mas a Eucaristia que nos consome. Na verdade, nosso estômago consome as espécies eucarísticas, as aparências de pão. Em compensação, é a graça da Eucaristia que deveria nos consumir a cada Comunhão, como no caso da beata Imelda, do século XIV, que morreu de êxtase na Primeira Comunhão. Eis aqui outra verdade também muito esquecida: recebemos a presença real em nós para nos darmos inteiramente a ela, até formarmos um único “ser moral” com Nosso Senhor, ou seja, até que a graça nos faça querer somente o que Ele quer, e não querer nada daquilo que Ele não quer. Se o ferro não for lançado inteiramente ao fogo, como ficará completamente incandescente? De si próprio o ferro não pode extrair nem calor nem brilho. O ferro só arde e brilha à medida em que for lançado ao fogo.

         Para formarmos uma só alma, uma inteligência, uma só vontade, uma só sensibilidade com Jesus eucarístico, e assim participar da Sua Vida e das Suas perfeições, é preciso se dar a Nosso Senhor, que só nos consome à medida em que nos deixamos consumir; só nos devora à medida em que Lhe deixamos nos devorar; que nos santifica à medida em que Lhe deixamos nos santificar. A graça age, a graça é onipotente, mas a graça necessita da nossa cooperação, isto é, da nossa generosidade e do nosso sacrifício.

         Portanto, para se deixar consumir e devorar por Jesus eucarístico, é preciso recebê-Lo com uma Fé viva na Sua presença real, ciente, aliás, de que a graça da Eucaristia, de uma certa maneira, reproduz a graça da Encarnação. Se tivermos esta Fé viva na presença real, se observamos a semelhança entre a Eucaristia e a Encarnação, então procuraremos nos aproximar do Sacramento emprestando da Santíssima Virgem a sua humildade, a sua fé e a sua caridade. A Eucaristia não pode consumir e devorar uma alma tíbia, mal disposta, distraída, vaidosa e afeiçoada a inúmeros pecados, da mesma maneira que o fogo não pode consumir o ferro até que seja lançado nele. Enquanto não quisermos nos dar a Nosso Senhor, Nosso Senhor não pode Se dar a nós. Afinal, Sacramento não é “magia”, pois não age senão com nossa cooperação.

         Dito isso, observemos que da qualidade da nossa vida espiritual depende a qualidade das nossas Comunhões, e da qualidade das nossas Comunhões depende o progresso na vida espiritual. Apesar da Eucaristia ser a presença real de Nosso Senhor e por isso conter uma graça incriada, isto é, infinita, ela nos santifica respeitando nossas disposições, à medida das nossas disposições. Se queremos que Nosso Senhor Se dê a nós sem reservas, devemos nos dar a Nosso Senhor sem reservas.

         Eis a lei da nossa santificação: a graça da Eucaristia exige a nossa cooperação. Lembremo-nos que a Sagrada Escritura diz que Deus é ciumento (cf. Ex. XX, 5). Deus é ciumento porque a virtude da caridade nos faz amar todas as coisas e a nós mesmos unicamente por amor a Deus. Nosso Senhor não admite outros amores, não tolera a menor vaidade em nós. Se nos amamos a nós mesmos, é por amor a Deus; se amamos o próximo e inclusive os inimigos, é por amor a Deus. Este combate implacável contra o amor próprio e as paixões desordenadas, contra o orgulho e a vaidade são a condição para que a Eucaristia venha nos consumir de amor, pela infusão da caridade de Cristo.

         Somente assim sairemos da Comunhão “[…] como leões repletos de ardor e de fogo, terríveis ao demônio […]”, como disse São João Crisóstomo. E se saíssemos da mesa da Comunhão inflamados de caridade, cuspindo fogo em face ao demônio, certamente não estaríamos tão desesperados em reconstruir a Cristandade por fora, por não percebermos a necessidade de reconstruí-la primeira e principalmente por dentro. Nosso Senhor disse: “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo” (Mt. VI, 33). Bem sabemos que, no Antigo Testamento, a santidade era tratada por “justiça”. Portanto, o que Nosso Senhor nos ordenou foi buscar a santificação em primeiro lugar. Quando o fizermos, o resto será dado em acréscimo. A Cristandade será reconstruída segura e facilmente quando os católicos comungarem com tal ardor que sua Comunhão inspire temor e tremor ao demônio, porque será o sinal de uma íntima e profunda união com Deus. Procuremos comungar bem, dando-nos sem reservas a Nosso Senhor, que quer nos consumir de amor por Ele, pois como está escrito: “[…] nosso Deus é um fogo devorador.” (Heb. XII, 28)