Sermão para o Domingo de Pentecostes

Bethlehem a Brasilia, 9 junii A.D. 2019

Por Pe. Ivan Chudzik, IBP.

Pentecostes e o discernimento dos espíritos

“Ficaram todos cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem.” (At. II, 4)

         Ave Maria.

         Ó Maria, concebida sem pecado.

         Divino Menino Jesus. Abençoai-nos.

         Santo Antônio de Lisboa.

         Aos judeus piedosos que se encontravam em Jerusalém quando o Espírito Santo desceu em Pentecostes coube uma importante missão: a de discernir por quê os apóstolos falavam em outras línguas, e cada um entendia aquelas línguas como se fosse a sua própria. Os Atos dos Apóstolos dizem que toda aquela gente reunida, vinda de todas as partes, ficou maravilhada (cf. At. II, 6), profundamente impressionada (v. 7) e atônita, sem saber o que pensar daquela manifestação (v. 12). Uns se perguntavam aos outros: “Quê significam estas coisas?” (v. 12), e a solução que alguns encontraram, sem ponderar, sem refletir, sem analisar, foi simplesmente a de escarnecer, dizendo: “Estão todos embriagados de vinho doce.” (v. 13)

         São Pedro, príncipe dos apóstolos, exercendo a sua autoridade de Cabeça visível da Igreja, pôs-se de pé com os onze apóstolos—é preciso recordar que São Matias já havia substituído Judas—, e com voz forte pronunciou um juízo categórico que poria fim às discussões dos judeus. Ordenou São Pedro que todos prestassem atenção às suas palavras, demonstrando que não era possível que o dom das línguas viesse da embriaguez, pois não era sequer nove horas da manhã. Se essa parte da multidão tivesse julgado com inteligência e não com escárnio, o príncipe dos apóstolos não precisaria começar o seu discurso refutando a possibilidade de que se tratasse de embriaguez para somente em seguida demonstrar que o dom de línguas realizava o oráculo do profeta Joel.

         A fim de compreender esta passagem dos Atos dos Apóstolos, consideremos que o Espírito Santo foi enviado aos doze, como ouvimos no Evangelho da Missa, para confirmar tudo aquilo que Nosso Senhor lhes ensinou (cf. Jo. XIV, 26). Dos sete dons do Espírito Santo, quatro concernem a intelecto: a sabedoria, a inteligência, a ciência e o conselho. Mas enquanto os apóstolos foram cumulados do septenário do Espírito Santo—isto é, os sete dons—, enquanto eles eram iluminados, fortalecidos e confirmados em graça, na multidão que se encontrava em Jerusalém havia quem julgasse segundo as paixões e não segundo a razão, com precipitação e não com prudência, atribuindo a manifestação das línguas a uma mera embriaguez.

         Esse exercício de discernimento, que mesmo os judeus piedosos não conseguiram fazer, e que os judeus carnais fizeram tão mal, foi um exercício de discernimento dos espíritos. O discernimento dos espíritos consiste em ponderar as moções ou os movimentos da alma quando está consolada ou desolada, quando está alegre ou triste, quando está tranquila ou perturbada, a fim de descobrir a origem de tais moções, se elas vêm de Deus ou do demônio. Os judeus carnais sequer atribuíram o dom das línguas ao demônio, como tantas vezes os fariseus atribuíram ao demônio a pregação de Nosso Senhor (cf. Jo. VIII, 49) ou os milagres que fazia (cf. Mt. XII, 27). Os judeus piedosos, por sua vez, conseguiram se maravilhar, mas nada puderam responder. Somente os apóstolos, cheios do Espírito Santo, puderam explicar a causa ou origem daquela manifestação dos dons extraordinários, pois o Espírito Santo lhes fôra enviado para confirmá-los nas verdades ensinadas por Nosso Senhor e lhes dar a força necessária para anunciá-las.

         Na vida dos Santos frequentemente ficamos maravilhados com os combates espirituais para se discernir as impressões de alma ou os fatos exteriores. Pensemos especialmente no discernimento que Santo Agostinho fez para chegar à graça da conversão. Enquanto era assaltado por dúvidas, o jovem Agostinho ouviu uma voz que lhe dizia: “toma, lê, toma, lê” (Confissões VIII, 12, 29). Dando ouvidos à voz, tomou uma epístola de São Paulo que antes tinha entre as mãos e leu uma passagem aos Romanos que foi determinante para abandonar definitivamente as obras da carne e pedir o Batismo.

         Com Santo Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus, o discernimento dos espíritos finalmente conheceu regras objetivas, a partir das quais um católico pode se guiar com segurança e se esquivar das ilusões do demônio. As regras do discernimento dos espíritos foram obtidas pela reflexão que o Santo fez sobre as suas próprias impressões, percebendo de onde se originavam e para onde o conduziam. Com efeito, enquanto os Santos julgam as coisas sob a luz do dom da inteligência, este dom pelo qual a alma percebe o sentido sobrenatural escondido nos obstáculos e a mantém em paz; nós outros, porém, que ainda não somos movidos habitualmente pelas inspirações do Espírito Santo, podemos nos servir do discernimento dos espíritos inaciano, no qual o intelecto age com o auxílio da graça. Aplicando bem as regras do discernimento, nosso intelecto obterá, ainda que com certo esforço, o mesmo juízo que os Santos recebem passivamente de Deus pelo dom da inteligência.

         De fato, discernir as impressões da própria alma é necessário a fim de se perseverar na virtude e não cair nas ciladas do demônio. A segunda regra inaciana, por exemplo, ensina o seguinte: “Com aqueles que procuram intensamente purificar-se de seus pecados, e progredir no serviço de Deus, […] costuma o demônio suscitar perturbações de consciência, tristeza e desânimo, inquietando-os com falsas razões, para que não vão por diante na sua santificação. Pelo contrário, é próprio do bom espírito dar coragem, forças, consolações, lágrimas, inspirações e tranquilidades, tornando-lhes tudo fácil e afastando todos os impedimentos, para que vão sempre adiantando na virtude e perfeição.” Uma alma que não conhece o discernimento dos espíritos, não sabendo explicar a origem de uma desolação e tampouco sabendo perseverar na virtude sem consolações, facilmente pode cometer o erro enumerado na quinta regra, a saber: “No tempo da desolação não se deve mudar nada, mas perseverar firme e constante nos propósitos feitos no tempo da consolação; porque do mesmo modo que na consolação nos aconselha e guia o bom espírito, assim o mau nos causa, na desolação, sugestões, a que não podemos dar assentimento.”

         Na verdade, no início da vida espiritual, a alma tem uma participação mais ativa na sua santificação, pelo exercício das virtudes, pela mortificação, pela meditação e pelo recolhimento ativo. E uma vez que a alma está suficientemente purificada de suas faltas e emprega todas as suas faculdades para corresponder com generosidade à graça, é preciso que Deus mesmo venha dirigir a obra de santificação, quando a alma assume uma parte cada vez mais passiva, como um puro instrumento nas mãos do Criador. Nesta fase, a alma se move menos pelas virtudes e mais pelos dons do Espírito Santo, menos por seus juízos e mais pelas divinas inspirações. Ao longo da vida pública do Salvador, os apóstolos tinham ouvido a Sua pregação mas pouco a entenderam. Durante os quarenta dias após a Ressurreição, Nosso Senhor continuou os ensinando e ainda assim custaram a entendê-Lo, pois enquanto o Salvador lhes explicava sobre o Reino de Deus, os apóstolos se preocupavam com a restauração política do Reino de Israel (cf. At. I, 6). Somente após a vinda do Espírito Santo, quando ficaram repletos dos dons, que finalmente sua inteligência se abriu para as verdades sobrenaturais e puderam captar o seu sentido.

         Dito isso, é um erro os católicos esperarem que o Espírito Santo realize em nós toda a obra da santificação sem nenhuma participação nossa. A propósito, a heresia quietista, no século XVII, consistiu justamente na recusa de toda a atividade da alma, que deveria permanecer inativa, à espera da intervenção de Deus. Enquanto que para a Fé católica, a santificação é uma obra que exige a cooperação do homem e mais tarde se torna passiva, para a heresia quietista, a natureza humana não tem nenhuma parte. Enquanto que para a Fé católica a graça eleva a natureza humana e esta se subordina à graça, para a heresia quietista, a graça se substitui à natureza humana, e esta parece não ser mais do que um cadáver nas mãos de Deus. Observamos um certo retorno do quietismo nos ambientes católicos de espiritualidade pentecostal, onde se invoca o Espírito Santo a fim de que Ele realize a santificação sem nenhum esforço pessoal, sem nenhuma cooperação, sem nenhum combate espiritual. Ao fim da oração, a alma estaria purgada, santificada e, por quê não, revestida de dons extraordinários, como os apóstolos. Neste caso, o combate espiritual, a prática das virtudes, a mortificação e mesmo os Sacramentos perdem praticamente todo o sentido, o que explica um certo liberalismo de quem se crê iluminado e se faz regra do próprio agir.

         Mas como a Fé católica ensina que o homem, tem, sim, a sua parte na santificação, que ela é mais ativa no começo e se torna passiva posteriormente, após muitas purificações e esforços generosos da alma, o discernimento dos espíritos se torna a bússola daqueles que ainda não ingressaram na via unitiva, para que não sejam enganados por falsas consolações e sugestões, por ilusões, perturbações e desolações, e assim encontrem a vontade de Deus com segurança e tranquilidade.

         Uma segunda aplicação necessária do discernimento dos espíritos concerne o apostolado, uma vez que das fontes da nossa formação católica depende a retidão da nossa vida espiritual. E aqui encontramos inúmeras ilusões.

         Infelizmente muitos católicos julgam que um erro deve sempre se apresentar clara e distintamente, assim como, por exemplo, tantos se preocupam com as manifestações demoníacas e mal percebem a ação sutil do demônio nas tentações quotidianas. Na verdade, o erro, quanto mais parecido com a verdade, mais perigoso é, de mesmo que o demônio é tanto mais eficaz quanto menos se faz percebido. São Paulo não exclui sequer a possibilidade de o demônio se disfarçar de anjo de luz a fim de anunciar um Evangelho diferente daquele que os apóstolos ensinavam (cf. Gl. I, 8). No discernimento dos espíritos de Santo Inácio, também se lê o seguinte: “É próprio do mau espírito transformar-se em anjo de luz e entrar primeiramente nos sentimentos da alma piedosa e acabar por lhe inspirar os seus próprios sentimentos. Assim, começa por sugerir a esta alma pensamentos bons e santos conforme às suas disposições virtuosas; mas logo, pouco a pouco, procura prendê-la em seus laços secretos e levá-la a consentir em seus pecaminosos intentos.”

         Portanto, devemos esperar “anjos de luz” no apostolado católico, com pensamentos aparentemente bons e santos, difíceis de se refutar e persistentes em seus interesses, que somente um exame atento, sob a luz da Fé, poderia desmascarar.

         Dito isso, é preciso dizer que não vem do Espírito Santo um apostolado que não proclama o Reinado Social de Nosso Senhor, porém se contenta em promover uma pretensa “alta cultura”, reduzindo a religião a uma escolha pessoal. Mas, então, de que espírito vem o que não vem do Espírito Santo?

         Não vem do Espírito Santo um apostolado que, apesar de reconhecer o Reinado Social de Nosso Senhor, prefere fazer abstração dos meios espirituais, que são a vida interior e a Liturgia, a fim tomar os meios políticos, como se a promoção de um Estado católico fosse a principal via para se converter a sociedade e não a dilação da vida interior, relegando a oração e a Santa Missa à santificação pessoal. Ninguém odeia mais a oração do que o demônio, e em troca da vida interior ele é capaz de oferecer qualquer outro bem lícito que ocupe a sua primazia, como, por exemplo, o engajamento político dos católicos. Mas, então, de que espírito vem o que não vem do Espírito Santo?

         Não vem do Espírito Santo um apostolado que, apesar de reconhecer o Reinado Social de Nosso Senhor, está disposto a fazer aliança com os inimigos da Igreja a fim de triunfar em pautas morais. Ainda que o Magistério condene o aborto, a ideologia de gênero e todas as desviações do nosso tempo, continua sendo ilícita toda a aliança que comprometa a integridade da Fé, sem a qual ninguém pode se salvar. Os católicos que se expõem a tais alianças julgam ingenuamente que estão “somando forças” com outros segmentos da sociedade, quando, na verdade, são os inimigos da Igreja que manobram os militantes católicos em favor próprio, para em seguida rejeitar as pautas morais que prometeram defender. Mas, então, de que espírito vem o que não vem do Espírito Santo?

         Não vem do Espírito Santo um apostolado que não passa de ativismo, cuja alma não é a oração, mas a promoção pessoal. A Teologia é uma ciência que os sacerdotes aprendem “de joelhos” no Seminário, isto é, unindo o estudo à oração, sem a qual podem facilmente cair no orgulho. Não se pode chamar de apostolado católico a mera difusão da Religião sem uma profunda vida de oração, sem frequência aos Sacramentos, sem prática das virtudes, sem mortificação, sem combate aos vícios, em suma, sem combate espiritual. Não são as qualidades pessoais que convertem, mas a graça. Quanto maior é o bem que alguém pretende fazer, maior é a união que deve possuir com Deus. Do contrário, multidões podem ouvir um falso profeta, mas nada de verdadeiro e duradouro será produzido por ele. Mas, então, de que espírito vem o que não vem do Espírito Santo?

         Não vem do Espírito Santo um apostolado que pretende justificar meios ilícitos por causa de um fim lícito, como, por exemplo, os palavrões e toda a grosseria presente em muitos falsos profetas do apostolado. São Paulo deseja, na epístola aos Efésios (V, 3), que os vícios sequer sejam nomeados pelos cristãos, e acrescenta: “Nada de obscenidades, de conversas tolas ou levianas, porque tais coisas não convêm.” (v. 4) Em contrapartida, há quem pretenda converter por meio de obscenidades, baixarias e palavrões, atiçando as paixões dos adversários, ao invés de mover a inteligência e a vontade do próximo por meio da vida interior e das virtudes. Nenhuma injustiça foi maior do que a condenação à morte de Nosso Senhor, e no entanto Ele não ofendeu ninguém nem Se irou, mas perdoou os Seus algozes e rezou por eles na cruz. Mas, então, de que espírito vem o que não vem do Espírito Santo?

         O que não vem do Espírito Santo, vem do demônio, e o demônio se disfarça de anjo de luz para nos iludir. Peçamos ao Espírito Santo a Sua iluminação, como diz a Coleta da Missa, para que possamos nos alegrar com as consolações no lugar das falsas sugestões do inimigo da nossa salvação.