Sermão do 5º Domingo depois da Páscoa

Bethlehem a Brasilia, 26 maji A.D. 2019

Por Pe. Ivan Chudzik, IBP.

A vinda do Espírito Santo e a meditação

         A poucos dias do mistério da Ascensão de Nosso Senhor, ouvimos neste domingo uma desconcertante afirmação Sua aos apóstolos: “Até agora não pedistes nada em meu nome.” (Jo. XVI, 24) Se os apóstolos não haviam pedido nada até então, o que dizer de tantas passagens do Evangelho em que se rogava algo ao Salvador? O que dizer do pedido de um dos discípulos, para que Nosso Senhor lhes ensinasse a rezar (cf. Lc. XI, 1), ou então durante a tempestade em alto mar, quando os discípulos O acordaram e clamaram para que Ele os salvasse (Mt. VIII, 25)? Como conciliar tantos pedidos da parte dos apóstolos e principalmente da parte dos enfermos com o que ouvimos há pouco no Evangelho: “Até agora não pedistes nada em meu nome”?

         Explicam os Padres da Igreja que os apóstolos não haviam pedido nada em Seu Nome porque enquanto o Salvador estava neste mundo eles costumavam Se dirigir diretamente à Sua Pessoa em todas as suas necessidades. Não obstante, quando Nosso Senhor voltasse ao Pai, já não poderiam tratar familiarmente com Sua Pessoa, mas teriam que pedir ao Pai em Seu Nome. De fato, a subida aos Céus  constitui o Salvador nosso perpétuo Mediador junto ao Pai, apresentando-Lhe Suas chagas gloriosas como Sacerdote e Vítima, uma vez que o Seu Sacrifício foi oferecido uma vez por todas, mas os méritos deste Sacrifício durarão eternamente.

         A partir da Ascensão, os discípulos deveriam rogar ao Pai em Nome de Seu Filho diletíssimo. Mas ainda que nós peçamos sempre todas as coisas em Nome de Nosso Senhor, seja em nossas orações particulares seja durante a Liturgia, o que os apóstolos ouviram ao término do ministério do Cristo devemos tomar para nós também, mesmo depois da Ascensão: “Até agora não pedistes nada em meu nome.”

         E como podemos tomar para nós tais palavras, nós que conhecemos a necessidade da oração e que costumamos rezar frequentemente? Por causa do que segue no discurso de Nosso Senhor aos discípulos: “Disse-vos essas coisas em termos figurados e obscuros. Vem a hora em que já não vos falarei por meio de comparações e parábolas, mas vos falarei abertamente a respeito do Pai. Naquele dia pedireis em meu nome […]” (Jo. XVI, 25-26). Em outras palavras, os discípulos pediriam ao Pai em Nome de Nosso Senhor não apenas por causa da Sua subida aos Céus, mas também graças à vinda do Espírito Santo, em Pentecostes, quando tudo aquilo que o Salvador tinha ensinado em parábolas seria confirmado e clarificado pelo Espírito Santo. Quando o Espírito Santo viesse e esclarecesse os apóstolos acerca da pregação de Nosso Senhor, então finalmente eles poderiam pedir, porque saberiam o que pedir e a necessidade de se pedir. Isto é confirmado por São Paulo quando ele diz: “[…] o Espírito vem em auxílio à nossa fraqueza; porque não sabemos o que devemos pedir, nem orar como convém, mas o Espírito mesmo intercede por nós com gemidos inefáveis.” (Rom. VIII, 26)

         A consequência de tais verdades é que não podemos presumir tão facilmente que sabemos o que rezar e que rezamos com frequência, pois quem nos ensina a rezar e nos ajuda a perseverarmos na oração é o Espírito Santo. Por esta razão Nosso Senhor ensinou muitas verdades por meio de parábolas, por causa da rudeza de espírito dos apóstolos, apegados a interesses mundanos, quando não políticos, e lentos para compreenderem as verdades sobrenaturais. Como diz Santo Agostinho: “[…] [os apóstolos] sequer entendiam que não entendiam; eram crianças e não sabiam julgar espiritualmente as coisas espirituais”. Neste sentido, o que fez o Espírito Santo em Pentecostes não foi revelar novas verdades, mas simplesmente esclarecer com Seus dons a fim de que os apóstolos julgassem espiritualmente o que era espiritual. A partir de então eles poderiam pedir ao Pai em Nome de Nosso Senhor, pois a inteligência bem iluminada pela Fé pede somente o que é conveniente à salvação e se conforma sem resistências à vontade de Deus quando esta se apresenta diferente da vontade dos homens.

         Por outro lado, há algumas décadas se fala exaustivamente que a Igreja deve “viver um novo Pentecostes”; mas o que muitos entendem por Pentecostes não passa da manifestação de dons extraordinários, isto é, o dom de línguas, de cura, de profecia, etc. Não obstante, não seria justamente uma forma de rudeza de espírito o pedir dons extraordinários, quando a vinda do Espírito Santo consiste principalmente na iluminação da inteligência? Se os apóstolos falaram em línguas, se fizeram profecias ou curaram, certamente tais dons serviram para provar a veracidade da sua pregação; mas o quê teriam pregado se não houvesse aquela iluminação do Espírito Santo para confirmar neles as verdades ensinadas por Nosso Senhor e os libertar do medo dos judeus? De fato, antes de subir aos Céus, Nosso Senhor disse aos apóstolos que esperassem o cumprimento da promessa do Pai (cf. At. I, 4), pois o Espírito Santo faria deles testemunhas da Sua pregação e lhes daria força. Este é também o ensinamento do Catecismo de São Pio X, quando diz: “Os apóstolos, depois que ficaram cheios do Espírito Santo, de ignorantes que eram, começaram a entender os mais profundos mistérios e as Sagradas Escrituras; de tímidos tornaram-se corajosos para pregar a doutrina de Jesus Cristo […].” (questão 94) Consequentemente, a iluminação da inteligência é mais necessária do que os dons extraordinários.

         Mas se a Providência reservou os dons extraordinários principalmente para o tempo da pregação dos apóstolos e também os concedeu a alguns santos, como a São Francisco Xavier durante as suas missões, por outro lado, é nossa obrigação pedir para que o Espírito Santos nos ilumine e nos fortaleza a fim de que também para nós o Cristo nos fale claramente—como em Pentecostes a Sua pregação se tornou clara aos olhos dos apóstolos. Se até agora “não pedimos nada” é porque nos falta, como faltou aos apóstolos, o conhecimento claro da verdade, sem o qual não saberemos o que pedir e não seremos atendidos em nossas súplicas. E de que modo devemos pedir a vinda do Espírito Santo, para iluminar a nossa inteligência e fortalecer a nossa vontade? Não através de um “novo Pentecostes”, mas através da meditação.

         A meditação consiste justamente numa iluminação da inteligência. Enquanto a oração consiste numa “elevação da alma a Deus”, a meditação inclui uma consideração das coisas espirituais: na meditação ocorre tanto a elevação de alma quanto a consideração de uma verdade de Fé. Não se trata de estudo tampouco de leitura espiritual; não é um monólogo ou uma mera introspecção: a meditação é uma oração na qual Deus nos ilumina e nos fortalece.

         Para se meditar é preciso que a alma tenha diante da inteligência uma verdade de Fé ou um Mistério da vida de Nosso Senhor, a fim de considerar este objeto sob a luz da graça. E aqui a meditação se distingue claramente do estudo da Teologia ou da própria leitura espiritual: enquanto que pelo estudo ou leitura a alma progride quantitativamente, conhecendo o que antes não conhecia, pela meditação a alma progride qualitativamente, conhecendo melhor uma verdade de Fé já conhecida. Enquanto o estudo da Religião é semelhante a uma viagem, na qual o viajante conhece novas paisagens, a meditação é como o amanhecer, em que a mesma paisagem é iluminada progressivamente.

         Para tanto, não é necessário que alguém leia muito, como o capítulo inteiro de um livro piedoso. A meditação exige pouco, pois quanto mais claro e simples for o objeto da meditação, mais facilmente a alma conseguirá se concentrar. Um parágrafo de um livro piedoso e não raro uma simples frase conteria o suficiente para que uma alma consiga se elevar até Deus.

         E uma vez que a alma encontrou uma verdade de Fé que lhe desperta interesse, como deve proceder? Santo Inácio de Loyola recomenda que a alma faça aquilo que o método jesuíta chama de “composição de lugar”: a imaginação deve reproduzir vivamente aquela verdade de Fé enunciada no parágrafo ou na frase escolhida. Conheci um sacerdote que costuma dizer que alma deve “montar um presépio”, imaginando os elementos contidos no ponto de meditação. Se se trata de um Mistério da vida de Nosso Senhor, basta se representar o mais detalhadamente possível; mas se se trata de uma verdade de Fé impessoal como o Céu, o Inferno, uma virtude sobrenatural, como a humildade ou a pureza, mais convém imaginar a própria alma sofrendo algum estado de espírito ou em posse da dita virtude. Nada impede que a composição de lugar, primeira parte da meditação, adapte-se bem ao temperamento e às necessidades de cada alma.

         Diante do quadro que a imaginação compôs, cabe agora à inteligência agir. É possível reler o parágrafo ou a frase que serviu de ponto de meditação, caso a alma queira retomar a verdade de Fé figurada na composição de cena. A partir daqui, a inteligência deve considerar as consequências daquela verdade de Fé, os seus motivos, deve pôr a sua vida em contraste com aquela virtude, deve procurar conhecer as dificuldades ou os meios relacionados à sua prática, etc. Em tais considerações a alma rumina a verdade de Fé, mas não “responde” às questões que faz a si própria. Na verdade, ao considerar com a inteligência o ponto da meditação, a alma se dispõe para ser iluminada por Deus, isto é, para que o próprio Deus venha lhe revelar algo. A luz da graça penetrando a inteligência faz a alma ver o que até então não tinha visto num objeto conhecido, e como Deus é luz que ilumina todo o homem (cf. Jo. I, 9), a alma cresce na sua união com Deus, porque tal iluminação produz a caridade.

         Sob a luz da graça recebida durante a meditação, a alma sabe o que deve pedir, pois não pedirá outra coisa senão a graça de realizar em sua vida espiritual aquilo que viu durante a meditação. Se meditou a Paixão de Nosso Senhor, pedirá a contrição dos pecados e o amor de Deus; se meditou sobre uma virtude, pedirá a graça de praticá-la. Pela meditação, Nosso Senhor nos iluminará e nos “falará abertamente” como em Pentecostes os apóstolos foram esclarecidos e fortalecidos.

         Não obstante, São Tiago diz na epístola da Missa: “Sede cumpridores da palavra e não apenas ouvintes” (Tg. I, 22). Uma alma pode ver a luz de Deus e ouvir a voz da graça durante a meditação e depois se esquecer daquilo que viu e ouviu simplesmente porque sua meditação não se concluiu com nenhuma resolução prática. Afinal, a luz que ilumina e a voz que ressoa durante a oração passam, uma vez que as impressões causadas pelos objetos sensíveis em nossos sentidos podem nos raptar a qualquer momento de uma elevação espiritual. A luz de Deus e a voz da graça devem perseverar em alguém através dos seus efeitos, isto é, através de uma resolução prática, que consiste no bom propósito em mudar de atitude em tal ou tal circunstância particular, a fim de aplicar na vida a verdade que viu durante a meditação. Donde a Coleta da Missa pedir para que Deus nos inspire pensar naquilo que é reto e nos governe para que o pratiquemos.

         Como nos admoesta São Tiago, não sejamos meros ouvintes, façamos da meditação um hábito diário, perseveremos nela fiel e heroicamente, pois todas as objeções e dificuldades que costumamos elencar contra a meditação vêm do demônio. Ninguém mais do que o demônio quer nos manter na trevas e cegueira da ignorância e na frieza e inércia da vontade. Para tanto, não nos esqueçamos da recompensa que São Tiago promete aos que meditam: “Mas aquele que procura meditar com atenção a Lei perfeita da liberdade e nela persevera – não como ouvinte que facilmente se esquece, mas como cumpridor fiel do preceito –, este será feliz no seu proceder.” (Tg. I, 25) Se quisermos ser felizes, façamos meditação.