Sermo in II Dominica post Pascha

Bethlehem a Brasilia, 5 maji A.D. 2019

Por Pe. Ivan Chudzik, IBP.

O Instituto Bom Pastor, obra da Igreja, na Igreja e para a Igreja

O II domingo da Páscoa nos é particularmente caro, porque sendo dedicado ao Cristo Bom Pastor no calendário tradicional, torna-se, portanto, nossa festa patronal. Ouvimos no Evangelho que Nosso Senhor Se diz o “Bom Pastor” e que as suas ovelhas O conhecem (cf. Jo. X, 14). Por esta razão, é justo que hoje procuremos conhecer melhor, à luz do Evangelho, esta pequena família da Igreja que carrega o título do Bom Pastor, pois se as ovelhas conhecem Aquele que apascenta as suas almas, o Cristo, e se o Instituto Bom Pastor participa da missão do próprio Cristo, então podemos esperar que as ovelhas da Igreja reconheçam na doutrina deste Instituto a mesma doutrina contida na pregação de Nosso Senhor, assim como em nosso ideal sacerdotal, expresso em nossos Estatutos, uma imagem do próprio pastoreio de Nosso Senhor, que dá a vida pelas ovelhas.

       Não obstante, ainda que o Instituto Bom Pastor não queira ser mais do que uma obra da Igreja, na Igreja e para a Igreja, guardando e transmitindo a doutrina da Igreja de Nosso Senhor e procurando se conformar ao Cristo no exercício do sacerdócio—apesar das misérias humanas de cada sacerdote—, devemos admitir, não sem constrangimento, que muitos não reconhecem no Instituto a sua identidade católica e a sua filiação à Igreja.

       De um lado, há quem diga que os católicos ligados ao Rito Romano tradicional—e isto repercute em nossos sacerdotes—são pessoas de posses, que não se importam com a justiça social, mas que se contentam em frequentar uma Missa um tanto “elitista”, uma Missa cuja pompa só interessa à alta sociedade. Por outro lado, há quem diga também que, ao celebrarem exclusivamente este Rito, os sacerdotes do Instituto Bom Pastor se condenam a uma vida de pobreza e de incertezas, porque, sendo pequeno o número de nossos fiéis, as doações também não seriam suficientes para tantas necessidades de apostolado.

       De um lado, há quem diga que não estamos aprovados pela Igreja, como se todo o fundamento canônico de nossas atividades—aprovação de Roma, autorização do Bispo local, uso de ordens, etc.—não bastasse por si só, uma vez que, ao ver de alguns, não agimos “em comunhão”. Por outro lado, há quem reconheça nossa aprovação, mas não entenda que somos uma obra da Igreja, e sim, um Instituto que serve apenas para atender os fiéis egressos da obra de Dom Lefebvre e não mais.

       De um lado, há quem diga que não conhecemos ou não aceitamos o Magistério recente da Igreja, como se para nós o último Concílio da Igreja fosse Trento ou Vaticano I. Por outro lado, há quem diga que se estamos aprovados pela autoridade romana é porque aceitamos indistintamente todo e qualquer ponto do Magistério supremo não-infalível.

       De um lado, há quem diga que nosso modo de exercer o sacerdócio já está ultrapassado, porque se fundamenta unicamente na santificação das almas, sem se interessar pelo engajamento político e social. Por outro lado, há quem espere dos sacerdotes do Instituto uma atuação em favor da ala direitista ou da causa monarquista por exemplo, como se o nosso sacerdócio e a nossa Missa estivessem necessariamente vinculados a uma causa política.

       Poderíamos multiplicar os exemplos, mas estes já bastam para se provar que se o Instituto Bom Pastor nem sempre é reconhecido como uma obra da Igreja, é porque a própria voz de Cristo já não é ouvida e compreendida pelas ovelhas do rebanho. Se em nossos tempos cada um aceita a seu modo a doutrina de Nosso Senhor, é de se esperar que muitos desaprovem a missão do Instituto Bom Pastor, o que não passa de uma mera consequência do “livre-exame” da Fé. Por esta razão, nossos sacerdotes não pretendem prestar contas a todos, respondendo críticas e objeções, mas exercer o sacerdócio de modo a imprimir novamente nas ovelhas—frequentemente perdidas dentro do próprio rebanho—a nossa identidade católica, que procede da Fé da Igreja. De fato, pastorear as ovelhas não consiste apenas em afugentar os lobos; e o Bom Pastor não age por interesse próprio, mas está disposto a sacrificar a vida pelo bem das ovelhas. Por esta razão, não há testemunho melhor em favor de nosso Instituto do que os frutos nas almas, do que um espírito e uma conduta genuinamente católicas, e não o partidarismo—unido a um problemático “culto” ao fundador—que frequentemente encontramos em nossos tempos.

       Dito isso, se fizermos da nossa Fé e da nossa Liturgia nosso maior, ou melhor, nosso único tesouro, pouco importa a nós, sacerdotes, a riqueza ou a pobreza; pouco importa se nossos superiores nos enviarem a apostolados abastados ou com muitas necessidades; pouco importa se nossas ovelhas vierem da elite ou das classes mais baixas. Nenhuma riqueza neste mundo pode nos adquirir o tesouro que é assistir ou celebrar o mais venerável Rito da Cristandade; e se a pobreza for o preço deste tesouro, estamos dispostos a pagá-lo, se assim dispor a Providência. Este é o espírito de Nosso Senhor, que disse: “Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e cumprir a sua obra.” (Jo. IV, 34)

       Se cumprirmos nossos Estatutos, se nos atermos àquilo que os Arcebispos e Bispos determinam ao nos receberem e se obedecermos aos nossos Superiores, não temeremos os desafetos que receberemos inevitavelmente aqui ou acolá por causa de nossas posições doutrinais e litúrgicas, nem as interpretações restritivas que muitos darão à nossa missão. A obediência não inclui necessariamente a aprovação dos outros; quem obedece se propõe a agradar somente aquele a quem obedece, em razão do respeito que tem para com o superior. Por outro lado, se nossos sacerdotes se importassem em agradar a todos certamente não teriam grandes preocupações com o Direito Canônico e a autoridade da Igreja, pois quem quer agradar a todos obedece apenas em favor próprio e sacrifica as convicções pessoais em troca da aprovação e do afeto alheio. Este, porém, não é espírito de Nosso Senhor, que disse: “Não busco a minha glória. […] Se me glorifico a mim mesmo, a minha glória não é nada; meu Pai é quem me glorifica […].” (Jo. VIII, 50; 54)

       Se guardarmos a Tradição da Igreja e se formos fiéis aos princípios da boa Teologia na pregação, no ensino do Catecismo, nas formações e no atendimento às almas pouco importa o que dirão a respeito da nossa adesão ao Magistério recente. Este é o espírito de Nosso Senhor, que assim respondeu ao servo do sumo sacerdote durante o Seu julgamento: “Se falei mal, prova-o, mas se falei bem, por que me bates?” (Jo. XVIII, 23)

       Se praticarmos a vida interior com generosidade para com Deus, pouco importa o que dirão a nosso respeito em matéria de política, pois Nosso Senhor não poderá reinar na sociedade enquanto não reinar nas almas.  Enquanto muitos se engajam politicamente e apenas substituem os perigos que oferece a Esquerda em troca das ilusões que oferece a Direita—sobretudo por causa do envolvimento desta com doutrinas de caráter esotérico—, nossos sacerdotes continuarão fazendo o apostolado exterior nascer de uma autêntica e sólida vida interior. Este é o espírito de Nosso Senhor, que disse: “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça (isto é, a sua santidade) e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo.” (Mt. VI, 33)

       Como o Cristo Bom Pastor, que conhece as Suas ovelhas (cf. Jo. X, 14), nosso Instituto não pretende tratá-las todas em pé de igualdade, fazendo abstração das necessidades de cada uma. A arte da pastoral exige o conhecimento das circunstâncias particulares de cada ovelha, mas isto sem trair nenhum dos princípios da nossa Teologia e sem omitir ou falsear nenhuma verdade da Revelação. Em tempos de crise de Fé, o Instituto Bom Pastor pretende reafirmar que a pastoral não é um absoluto, uma mera práxis que evolui, mas deriva da sagrada Teologia, e consiste muito mais na adaptação do pastor d’almas à inteligência do que ao sentimento das suas ovelhas. Ocorre frequentemente, porém, que as ovelhas entendem mas discordam do pastor e desertam do rebanho. Se o pastor negociar as verdades de Fé, para reaver a ovelha desertora, arrisca perder o rebanho inteiro, pois um pastor sem doutrina equivale a um redil sem cercado, onde os próprios lobos podem circular livremente. Como diria o dominicano Padre Garrigou-Lagrange: “A Igreja é intolerante nos princípios porque crê; mas é tolerante na prática porque ama. Os inimigos da Igreja são tolerantes nos princípios porque não crêem; mas são intolerantes na prática porque não amam.” A paciência e a misericórdia da Igreja não consistem na aceitação do erro ou do pecado das ovelhas. O Bom Pastor, como o bom samaritano, precisa curar a ovelha ferida pela heresia ou por uma vida de pecado; o Bom Pastor, como na parábola do filho pródigo, precisa revestir a ovelha perdida da graça santificante antes de recebê-la no redil com uma festa. Por esta razão, é de se questionar a eficácia pastoral de tantos concertos musicais e eventos promovidos para uma massa imensa de fiéis, que não atinge cada alma em sua necessidade particular, mas se contenta em comover seus sentimentos. A adesão incondicional do Instituto Bom Pastor à Tradição da Igreja, longe de ser anti-pastoral, é a condição da nossa pastoral: se o Bom Pastor busca a ovelha perdida é porque crê firmemente que o lugar desta ovelha é dentro do redil, assim como o lugar das almas é dentro da Igreja católica, o único redil de Cristo.

       Por fim, como o Cristo Bom Pastor dá a vida pelas ovelhas (cf. Jo, X, 15), alimentando-as com o Seu Corpo e Sangue, nosso Instituto vê no Rito Romano tradicional a expressão perfeita do dogma da Eucaristia e do Santo Sacrifício, sem a qual faltará a Fé necessária para que as ovelhas não cessem de pedir à Igreja o as graças do Calvário e o alimento eucarístico. Mais ainda. Cada sacerdote do Bom Pastor sabe que sua missão é tanto mais eficaz quanto maior for a identificação de cada um deles ao Cristo Sacerdote e Vítima. De fato, o sacerdote não apenas oferece o Sacrifício e comunga da Santa Vítima, como que cumprindo uma mera rubrica do Missal. O sacerdote deve se fazer um só com Aquele a Quem empresta a voz, o Cristo Sumo Sacerdote; e com Aquele de Quem recebe a vida em alimento espiritual, o Cristo Vítima. O sacerdote deve se imolar no altar a cada Missa que celebra, como o Cristo oficiou a própria imolação no Calvário. O sacerdote deve imolar todo interesse pessoal a cada Missa que celebra, como o Cristo não teve outro interesse senão o do Seu Pai ao Se oferecer em sacrifício. O sacerdote deve se identificar com o Cristo Sacerdote e Vítima, de tal modo que Nosso Senhor não encontre mais obstáculo ou resistência em Seu ministro para a difusão das graças. Para tanto, faz-se necessária uma autêntica espiritualidade sacerdotal, sendo que em nossos tempos os sacerdotes tendem a se fazer o centro da vida eclesial, atraindo as ovelhas mais para si do que para Nosso Senhor. Também por esta razão, o Instituto Bom Pastor vê no Rito Romano tradicional a expressão segura de uma autêntica espiritualidade sacerdotal, porque as mortificações que o Missal antigo impõe à vontade própria do celebrante o acostumam a se dirigir a Nosso Senhor com perfeito esquecimento de si.

       Dito isso, o Instituto Bom Pastor não julga que a sua atuação seja anti-pastoral, que sua Liturgia seja antiquada ou que a sua missão não tenha lugar a não ser em circunstâncias isoladas da vida eclesial. Não podem envelhecer a Teologia e a Liturgia daqueles sacerdotes que sobem todos os dias o altar dizendo as seguintes palavras do Salmo (XLII, 4): “Subirei ao altar de Deus: do Deus que alegra a minha juventude”.