Sermo in I Dominica in Quadragesima

Bethlehem a Brasilia, 10 martii A.D. 2019

Por Pe. Ivan Chudzik, IBP.

O jejum quaresmal: meio de se adquirir a verdadeira alegria

Ao entrarmos na igreja e ao principiar da Missa, percebemos o quanto a Quaresma pode ser um tempo litúrgico triste e enfadonho: vemos no altar o vazio deixado pela ausência das flores e das relíquias, além da substituição—onde é possível—das velas brancas pelas amarelas, que indicam a penitência; ouvimos o Coro cantar melodias graves e por que não tristes; e onde há órgão ou uma capela musical, os instrumentos emudecem, deixando apenas as vozes modularem um louvor sóbrio e austero; notamos a ausência, desde a Septuagésima, do Glória e do Aleluia, mas notamos também a introdução, desde Quarta-feira de Cinzas, de longas leituras e orações que pedem o perdão dos pecados e a aceitação por parte de Deus da nossa penitência, com inclinações e genuflexões que ocorrem durante as Missas de semana. A Igreja eclipsa a beleza do culto e torna os ofícios mais longos e sóbrios. Quem poderia apreciar um tempo litúrgico como a Quaresma, em que nos privamos das consolações sensíveis pela mortificação e não encontramos na Liturgia e nos exercícios de piedade senão a meditação constante do pecado e das suas penas?

Contra este espírito triste e já cansado se dirige São Paulo na epístola da Missa: “Agora é o tempo favorável, agora é o dia da salvação.” (II Cor. VI, 2) Um católico não pode se entristecer por estar no tempo favorável e no dia da salvação; pelo contrário, deve combater esta tristeza que o impede de lucrar as graças abundantes que virão durante a Quaresma. Eis, portanto, a primeira conclusão à qual devemos todos chegar: a Quaresma é um tempo de graça, e ninguém pode se entristecer diante da graça, pois tal tristeza é própria de um vício capital, a acídia. Com efeito, o acidioso se entristece diante do bem sobrenatural porque não quer se esforçar ou se cansar pela sua santificação. Ele vê os seus deveres para com Deus como um peso, como uma espécie de agressão ao seu bem-estar, preferindo se deleitar com bens passageiros, proporcionais à sua preguiça e pequenez de espírito. Deste modo, a acídia é também uma ingratidão para com Deus, na medida em que o acidioso não quer frutificar os talentos que recebeu.Dito isso, é preciso reconhecer que nossa sociedade é profundamente acidiosa, o que se verifica não apenas na busca desenfreada por consolações ilícitas, porque assim é o espírito do mundo. O que caracteriza melhor nossa sociedade como gravemente acidiosa é a quantidade de passatempos e entretenimentos que imergem a juventude no mundo virtual, como se o tempo não precisasse ser aproveitado, mas meramente perdido. Em nossa época, não somente os mundanos sofrem de acídia, mas os próprios católicos que pretendem praticar seriamente a Religião, uma vez que as solicitações constantes que sofremos para conferirmos novidades, atualizações, publicações, compartilhamentos e uma miríade de conteúdos inúteis pupulam diariamente no aparelho celular e nos seduzem a não rezar agora, mas depois; e tampouco rezar depois, mas amanhã. Praticamente ninguém escapa desta epidemia de acídia que nos convence a “olhar só mais um pouco o telefone celular”, a procurar novidades, a pesquisar inutilidades, a descobrir futilidades, a comentar frivolidades, e cuja consequência, em última instância, é grave para a vida espiritual, pois nos aumenta a concupiscência dos olhos, diminui-nos o fervor, afasta-nos da oração e pouco a pouco nos predispõe a vícios graves, especialmente contra a pureza.

Dito isso, é preciso reconhecer que nossa sociedade é profundamente acidiosa, o que se verifica não apenas na busca desenfreada por consolações ilícitas, porque assim é o espírito do mundo. O que caracteriza melhor nossa sociedade como gravemente acidiosa é a quantidade de passatempos e entretenimentos que imergem a juventude no mundo virtual, como se o tempo não precisasse ser aproveitado, mas meramente perdido. Em nossa época, não somente os mundanos sofrem de acídia, mas os próprios católicos que pretendem praticar seriamente a Religião, uma vez que as solicitações constantes que sofremos para conferirmos novidades, atualizações, publicações, compartilhamentos e uma miríade de conteúdos inúteis pupulam diariamente no aparelho celular e nos seduzem a não rezar agora, mas depois; e tampouco rezar depois, mas amanhã. Praticamente ninguém escapa desta epidemia de acídia que nos convence a “olhar só mais um pouco o telefone celular”, a procurar novidades, a pesquisar inutilidades, a descobrir futilidades, a comentar frivolidades, e cuja consequência, em última instância, é grave para a vida espiritual, pois nos aumenta a concupiscência dos olhos, diminui-nos o fervor, afasta-nos da oração e pouco a pouco nos predispõe a vícios graves, especialmente contra a pureza.

Nenhum tempo litúrgico nos obriga a tanta generosidade na vida espiritual do que a Quaresma, como diz São Leão Magno, pois se não conseguimos manter em todos os mistérios da Redenção a mesma devoção e reverência com a qual convém nos apresentarmos para a Páscoa, a Igreja nos provê estes quarenta dias de jejum e penitência a fim de repararmos a pureza do espírito perdida ao longo do ano pelas faltas pessoais. E antes de entrarmos neste tempo de penitência, bem sabemos que a Igreja instituiu, pelo menos desde São Gregório Magno, os três domingos da Septuagésima, durante os quais procuramos adquirir o espírito de penitência, pois sem tal espírito não estaremos dispostos aos esforços e sacrifícios próprios da Quaresma. E apesar do zelo maternal da Igreja, grande ainda é o horror que nos causa o sofrimento, porque tememos os dias de jejum e fraquejamos nos propósitos de penitência; e mesmo quando procuramos ser fiéis à penitência quaresmal, frequentemente ela é praticada com uma certa irritação, na medida em que suportamos com mais dificuldade as adversidades do quotidiano quando nos faltam as consolações sensíveis.

Ora, não entramos na Quaresma para sofrermos, mas por meio do sofrimento adquirirmos a alegria verdadeira, as consolações verdadeiras e o bem verdadeiro, como diz São Paulo na mesma epístola: “Somos julgados tristes, nós que estamos sempre contentes; indigentes, porém enriquecendo a muitos; sem posses, nós que tudo possuímos!” (II Cor. VI, 10) De fato, é preciso perder tudo neste mundo, pelo desapego, se quisermos adquirir o Tudo, o próprio Deus, o nosso único necessário. Eis aqui a nossa segunda conclusão: se a Quaresma é um tempo de graça, e a graça deve ser para nós causa de verdadeira alegria, então entramos neste tempo para perdermos o que nos torna tristes. A tristeza não está na prática da penitência: pelo contrário, a penitência nos libera da tristeza própria dos vícios, pois como diz o Prefácio quaresmal, o jejum comprime o vício, eleva a mente e alarga a virtude.

Notemos no Evangelho que Nosso Senhor foi conduzido ao deserto pelo Espírito Santo (cf. Mt. IV, 1), e um dos frutos do Espírito Santo é a alegria (cf. Gl. V, 22). Do mesmo modo, Nosso Senhor nos proíbe de praticarmos o jejum com o semblante triste (cf. Mt. VI, 16-18), pois isto é próprio dos hipócritas. De fato, a Quaresma deve ser para nós motivo de suma alegria, uma vez que seremos purificados e nos uniremos mais intimamente a Deus, nosso Sumo Bem.

São Basílio Magno nota em um sermão que, ao longo do Antigo Testamento, Deus deu grandes graças aos Seus servos mediante o jejum. Pelo jejum Moisés subiu ao monte, pois se não tivesse jejuado, não ousaria entrar na nuvem e receber as tábuas da lei; e enquanto o servo de Deus jejuava e orava durante quarenta dias sobre o monte, o povo pôs tudo a perder em um só dia de intemperança, razão pela qual Moisés preferiu quebras as tábuas do que entregá-las a um povo vinolento. Enquanto o jejum conduz Moisés à presença de Deus, a intemperança dos israelitas causou a perda da salvação, porque voltaram vergonhosamente à idolatria dos egípcios quando fabricaram o bezerro de ouro. Foi pelo jejum que a oração de Ana obteve a graça de conceber Samuel; foi pelo jejum que Sansão se tornou invencível, pois sua mãe o concebeu e o nutriu no jejum; foi pelo jejum que Elias mereceu ter uma grande visão, e Moisés, quando recebeu pela segunda vez as tábuas da lei, reiterou o jejum. E em conclusão, São Basílio faz este belo elogio: “O jejum faz sábios os legisladores: da alma é o melhor guardião, do corpo é um amigo seguro, aos homens fortes é proteção e arma, aos atletas e combatentes serve de exercício. Ele afasta para longe as tentações, à piedade é arma, com a sobriedade habita e produz a temperança: nas guerras dá força, o repouso na paz ensina.” Não somente na Nova Aliança é preciso jejuar a fim de se aproximar da Santa Comunhão—e consequentemente da Santa Missa—, mas já no Antigo Testamento os sacerdotes eram obrigados a jejuar, sendo que ofereciam não mais do que figuras do verdadeiro sacrifício.

Santo Ambrósio, por sua vez, ao tratar do jejum, acrescenta um argumento deveras admirável, diante do qual não sobra nenhuma margem para uma suposta tristeza durante a penitência. Diz o Santo Doutor: “O jejum também dá alegria aos convivas, porque as refeições se tornam mais saborosas após o jejum, quando a assiduidade no comer as tornam fastidiosas e o prolongamento no comer as banalizam. O jejum é o tempero da comida: quanto mais ávido for o apetite, tanto mais o alimento se torna saboroso.”

Se considerarmos todos os bens que o jejum quaresmal produz em nossa alma, segundo São Basílio, e em nosso corpo, segundo Santo Ambrósio, já não temos motivos para fugirmos ou nos entristecermos com o próprio jejum ou as demais mortificações quaresmais. Os sacrifícios de Quaresma não apenas nos unem mais intimamente a Deus, mas também devolvem a justa alegria que os bens sensíveis nos dão, nos seus justos limites, isto é, em ordem à nossa salvação. Eis, portanto, a nossa terceira conclusão: assim como estas pregação pode, espero eu, mudar o nosso espírito e torná-lo mais generoso para os combates quaresmais, do mesmo modo, as longas leituras e orações durante este tempo litúrgico pretendem atrair a nossa inteligência para o bem que decorre da penitência, com a diferença de que os textos da Santa Missa não apenas instruem como também aplicam as graças da Liturgia. Donde o nosso interesse em conhecermos as leituras e orações que a Igreja reza diariamente na Quaresma, a fim de não perecermos de desânimo durante as tentações e tribulações, porque a Liturgia quaresmal irá iluminar a inteligência e fortalecer a vontade.

Com efeito, tanto a instrução quanto a graça são meios necessários para perseverarmos nos propósitos quaresmais, porque, como ensina Santo Tomás, do pecado se vence ou fugindo ou resistindo (cf. Summa Theologiæ IIa IIæ, Q. 35, a. 1, ad 4). Fugindo, quando a ruminação contínua da tentação apenas aumenta o ardor dos sentidos, como é o caso da luxúria. Resistindo, quando uma reflexão prolongada suprime a atração pelo pecado que provém de um exame superficial, e este é o caso da acídia. Assim, quanto mais meditamos os bens espirituais, mais eles se nos tornam agradáveis, o que faz cessar a acídia.

É preciso, portanto, que entremos generosamente no período quaresmal caso queiramos vivê-lo como um tempo de graça. A superficialidade e o imediatismo da sociedade atual precisam dos remédios oferecidos pela Liturgia tradicional desde séculos: orações e leituras prolongadas—que nos obrigam a meditar e considerar que temos trocado frequentemente o Céu por ninharias sobre a terra—, além do jejum e da mortificação, que nos afastam das solicitações do mundo para reavermos a nossa liberdade, o gosto pelos bens espirituais e o uso legítimo dos bens sensíveis.

Se Nosso Senhor jejuou e combateu o demônio no deserto, devemos, consequentemente, imitar este deserto tanto quanto possível, o que significa que a privação dos alimentos por si só não basta; para que seja meritória e nos disponha à união com Deus precisa estar acompanhada, evidentemente, da oração e de um certo recolhimento. É inevitável que, durante a Quaresma tomemos distância das redes sociais e do uso do celular, e isto de maneira efetiva, e não apenas em propósitos vagos. O silêncio exterior irá revelar o nosso profundo ruído interior, pois o uso excessivo dos meios de comunicação além da frequentação do mundo inundam nossa imaginação de imagens e sons, que depois se tornam no flagelo da nossa oração. Mas assim como ao fim das tentações Nosso Senhor foi consolado pelos Anjos, nossa perseverança também não deixará de ser recompensada pelas suaves consolações da graça. Se nos esvaziarmos das criaturas, Deus mesmo virá preencher e saciar a nossa alma. Se cremos, jejuemos.