Sermo in IV Dominica in Quadragesima

Bethlehem in Brasilia, 31 martii A.D. 2019

Pe. Ivan Chudzik, IBP.

A alegria espiritual, o pão da Quaresma

         Se a Quaresma nos parece ser um tempo longo e cansativo, hoje, no IV domingo, a Igreja faz festa ao nos dizer que já estamos na metade. Esta “festa” se vê pelo retorno das flores e das relíquias no aparato do altar; pela admissão do uso da cor rósea nos paramentos—apesar de serem raras as igrejas a disporem de paramentos desta cor—, pois a mudança da cor indica um afrouxamento da penitência, além da permissão para se tocar o órgão—onde se dispõe deste instrumento e de um organista. Mas ainda que as igrejas menos abastadas não disponham de muito aparato para festejar os 20 dias já transcorridos de Quaresma, é a Liturgia enquanto tal que nos anuncia esta alegria, pois o IV domingo da Quaresma é conhecido pela primeira palavra do Intróito, “Lætare”, extraída do profeta Isaías, e que quer dizer “alegrai-vos”. A temática da alegria e a da cidade santa Jerusalém estão presentes nas várias partes da Missa, porque originariamente o Papa celebrava o domingo Lætare na basílica de Santa Cruz de Jerusalém, a basílica de Roma que conserva as relíquias da Paixão. A escolha da igreja não é ocasional: a alegria deste domingo vem do triunfo da Cruz de Nosso Senhor, pois a Páscoa se aproxima. Mas a alegria do domingo Lætare deve vir também dos frutos que deveríamos colher hoje dos 20 dias já transcorridos de mortificação quaresmal. Se fomos fiéis às resoluções que tomamos desde a Quarta-feira de Cinzas, hoje podemos confessar com a Igreja que encontramos uma verdadeira alegria espiritual após termos feito o jejum e algumas mortificações. Mas se fomos infiéis às resoluções ou se sequer formulamos uma resolução de Quaresma, se já caímos durante os combates espirituais ou se ainda não nos levantamos de uma queda, este domingo nem por isso perde a sua alegria própria, pois hoje pode ser o dia da nossa conversão, caso sejamos generosos em aceitar a graça.

         Para comentarmos o Evangelho do IV domingo da Quaresma, é oportuno compará-lo com o do I domingo. No I domingo, Nosso Senhor é conduzido pelo Espírito Santo ao deserto (cf. Mt. IV, 1); hoje Nosso Senhor conduz os apóstolos a um lugar deserto (cf. Mc. VI, 31-32); no I domingo, Nosso Senhor teve fome e o demônio O tenta para transformar as pedras em pães (cf. Mt. IV, 3); hoje, Nosso Senhor põe à prova Felipe ao lhe perguntar onde comprariam pão para toda aquela multidão que os seguia (cf. Jo. VI, 5-6); no I domingo, Nosso Senhor Se recusa a transformar as pedras em pães (cf. Mt. IV, 4); hoje, no entanto, Nosso Senhor multiplica pães e peixes para dar de comer à multidão, e tamanho foi o milagre que os apóstolos puderam encher doze cestos com o que sobrou.

         De fato, Nosso Senhor recusou no deserto o pão oferecido pelo demônio enquanto teve fome, mas hoje, no IV domingo da Quaresma, Ele próprio Se compadece da multidão e lhe dá pão até a saciedade. A diferença entre o I e o IV domingo da Quaresma é clara: o demônio nos tenta para que não nos aproximemos dos bens espirituais, e por isso nos oferece os bens e as consolações deste mundo em substituição. Nosso Senhor, por Sua vez, dá pão até a saciedade após ter pregado àquela multidão que O seguia (cf. Mc. VI, 34) e curado os seus enfermos (cf. Mt. XIV, 14), o que significa que antes de se saciar o estômago é preciso se saciar a alma, com a graça. O mesmo pão que Nosso Senhor multiplica sobre o monte Ele recusa de produzir milagrosamente no deserto, porque no deserto era preciso orar e jejuar.

         De uma certa maneira, não apenas este domingo mereceria o título de “domingo da alegria”, mas todos os domingos da Quaresma. Afinal, o que fazem a penitência e a mortificação quaresmais senão nos devolver a verdadeira alegria, que é espiritual? Talvez o que nos impediu de sermos mais generosos durante as mortificações quaresmais foi o medo de sofrer, como se a privação das consolações sensíveis fosse uma privação da felicidade. Ora, é preciso dizer que existe mais felicidade na alma da Santíssima Virgem em meio às dores e tormentos do Calvário, contemplando seu divino Filho ultrajado, ferido e morto, do que nas maiores consolações deste mundo, porque a felicidade, que é bem espiritual e não sensível, depende da nossa união com Deus, e a união de Nossa Senhora é imensa. Por esta razão, aplica-se à Santíssima Virgem aquele versículo de Isaías (XXXVIII, 17): “Eis que a minha amargura tão amarga está em paz”. Uma alma unida a Deus não pode perder a paz ou a felicidade nem em meio aos sofrimentos, pois Deus mesmo é nossa paz e felicidade, nosso Sumo Bem. Por esta razão, a ação do demônio em nossa vida espiritual consiste em nos fazer esquecer da alegria espiritual e substituí-la sempre por alguma consolação passageira, seja a quebra de um simples propósito de Quaresma, seja a procura de consolações ilícitas, quando não impuras. Nosso Senhor, por Sua vez, quer nos dar o pão, quer saciar a fome do nosso estômago, quer nos dar as consolações sensíveis—como Ele fez, multiplicando os pães—, mas primeiramente Ele precisa nos conduzir ao deserto, onde só há pedra, e não pão, porque “Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus.” (Mt. IV, 4)

         Se queremos viver conforme a liberdade da qual trata São Paulo na epístola da Missa, pois o Batismo nos libertou do cativeiro do demônio e nos tornou herdeiros da Jerusalém celeste, então devemos exercitar esta graça batismal pondo ordem em nossa natureza, subjugando as paixões ao domínio da razão, e submetendo a razão ao império da graça. Não obstante, bem sabemos que se até o dia de hoje fomos fracos diante das tentações, a ponto de um ou vários vícios terem nos escravizado e inclusive se tornado praticamente sinônimo da nossa personalidade—pois gostamos de dizer que esta pessoa é preguiçosa, a outra iracunda—, enfim, se o demônio aparenta ter mais motivos para “se alegrar” do que nós neste IV domingo, não nos esqueçamos de que ainda nos resta 20 dias de Quaresma, ainda temos tempo para o combate espiritual, ainda é possível se preparar santamente para a Páscoa da Ressurreição. E para bem viver este tempo precioso que nos resta e que não podemos desperdiçar gratuitamente, convém comentar um outro ponto do Evangelho da Missa. Afinal, diz o evangelista que Nosso Senhor atravessou o lago da Galiléia rumo a um lugar deserto, não apenas para dar descanso aos apóstolos, que retornavam de suas missões, mas possivelmente para se afastar de Herodes, que naquela altura já havia ordenado a decapitação de São João Batista, e poderia então se preocupar com o Cristo e Sua pregação. Não obstante, assim que desceram da barca, uma grande multidão já aguardava o Salvador, e como diz São Marcos: “[…] Jesus viu uma grande multidão e compadeceu-se dela, porque era como ovelhas que não têm pastor.” (Mc. VI, 34) Ainda que tivesse Se afastado à procura de descanso e proteção, Nosso Senhor não hesitou em pregar e curar até o entardecer, fazendo os apóstolos trabalharem também, porque teve pena da multidão. Nosso Senhor continua tendo pena do nosso estado miserável; mas se Ele Se cansa e cansa os Seus ministros para nos comunicar a salvação, tenhamos nós pelo menos um pouco de gratidão para com Ele e não sejamos indiferentes nesta segunda metade da Quaresma, fazendo o que até agora não fizemos, e fazendo bem o que até agora fizemos mal.

         Mas o que devemos fazer que não fizemos, e fazer bem que até agora fizemos mal? Se queremos receber o principal pão que Nosso Senhor nos dá em recompensa, isto é, a alegria e a paz espirituais—que procedem da vida da graça—, nós que tantas vezes preferimos o pão das falsas consolações sugeridas pelo demônio, devemos ouvir a pregação de Nosso Senhor e apresentar a nossa natureza adoentada para ser curada por Ele, pois o que fez o Salvador antes de dar de comer à multidão senão pregar e curar?

         Afinal, quantas vezes procuramos o confessor ou o diretor espiritual à busca de uma nova luz sobre nossa vida espiritual e retornamos desapontados por ele não ter dito nada de novo. E por que queremos novos remédios nós que apresentamos sempre as mesmas doenças ao Sacramento da Confissão? O que Nosso Senhor nos pede neste IV domingo da Quaresma é o que Ele já sofria em Sua própria carne no I domingo: oração e jejum. Hoje o Salvador prega às multidões; e nós, que julgamos conhecer a pregação da Igreja só iremos reter, de uma vez por todas, as verdades sobrenaturais quando estas se tornarem o objeto da nossa meditação quotidiana. Nosso Senhor prega antes de dar de comer, pois quando uma alma que não tem o hábito da meditação trata com os bens deste mundo ela facilmente passa da medida, uma vez que lhe falta a luz da graça sobre a sua inteligência a fim de não se deixar escravizar por nada, nem pelo comer pelo beber ou por qualquer outro bem sensível. Podemos supor que uma multidão que antes ouve a pregação de Nosso Senhor depois come até a saciedade sem pecado; e se os apóstolos recolhem doze cestos de restos, isto não apenas demonstra a abundância do milagre, mas também a ausência de disputas pelas sobras. Em resumo: somente pela meditação, esta forma de oração pela qual Deus ilumina a nossa inteligência para nos fazer detestar o pecado e amar a virtude, que podemos vencer a atração desordenada que sentimos pelos bens deste mundo.

         Além de pregar, hoje Nosso Senhor também curou os enfermos. Nesta Quaresma, a enfermidade dos nossos pecados e vícios não será curada por um outro milagre senão o da mesmíssima meditação unida à mortificação. Uma alma que se mortifica, que se afasta dos bens lícitos, isto é, daquilo que nos é permitido, a fim de se aproximar mais generosa e intensamente dos bens espirituais, verá em pouco tempo o “milagre” de vencer as inclinações desordenadas de sua carne, pois como diz o Prefácio da Quaresma, o jejum eleva a mente, reprime o vício e alarga a virtude. Se contamos inúmeras fraquezas ou quedas desde o início da Quaresma, facilmente não contaremos muitos dias de meditação e de mortificação, e em se tratando de mortificação, temos nos esforçado para jejuar nas sextas-feiras de Quaresma ou sequer conseguimos cumprir a abstinência?

         Não desperdicemos a segunda metade do tempo quaresmal, pois os esforços que não fizermos agora certamente não faremos depois, durante o tempo pascal. “Agora é o tempo favorável, agora é o dia da salvação.” (II Cor. VI, 2), já nos dizia a Igreja, citando São Paulo, no I domingo da Quaresma. Após este dia de descanso e de alegria que é o IV domingo, tomemos as armas do combate espiritual, isto é, a meditação e a mortificação. Não veremos o Cristo ressuscitado vivendo em nossa alma na Páscoa se ao longo da Quaresma não Lhe demos entrada para nos reformar em nosso interior, pela meditação e pela mortificação. Mas se ouvirmos o Cristo pregar à nossa alma, pela meditação quotidiana, e se deixarmos Ele curar a nossa alma enferma pelo milagre da mortificação, então receberemos o Pão do Céu, o Santíssimo Sacramento da Eucaristia, como quem realiza o sentido da própria vida. De fato, vivemos para comungar, e comungar bem.