Sermo in III Dominica in Quadragesima

Bethlehem in Brasilia, 24 martii A.D. 2019

A imitação do Cristo: fim da vida interior e fim dos combates quaresmais

No primeiro domingo da Quaresma estávamos com Nosso Senhor no deserto; no domingo anterior, subimos com Ele até o Tabor, e neste domingo—é justo nos perguntarmos—para onde Ele nos conduz? Desta vez, não para longe nem para fora, porque nos conduz a um castelo, o castelo da nossa alma.

Com efeito, o Evangelho do primeiro domingo da Quaresma diz que Nosso Senhor foi conduzido ao deserto pelo Espírito Santo, para nos mostrar que a vida espiritual consiste em um combate contra os três inimigos da nossa salvação, a saber, o mundo, a carne e o demônio. No deserto, Nosso Senhor Se retirou das vaidades do mundo; pela mortificação, Ele sofreu conosco para nos dar o exemplo da necessidade de se moderar as paixões; pela oração Ele combateu o demônio e suas tentações. O primeiro domingo, portanto, sintetiza o combate espiritual que devemos travar especialmente neste tempo favorável que é a Quaresma, pois bem sabemos o quanto somos negligentes nos demais tempos litúrgicos.

O Evangelho do domingo anterior, por sua vez, diz que Nosso Senhor Se transfigurou no monte Tabor diante de três dos Seus discípulos, a fim de confirmá-los na esperança da Ressurreição quando, mais tarde, eles se tornariam testemunhas da Paixão. Esta glória que se entrevê no Tabor pela carne luminosa do Cristo será a recompensa final dos esforços de Quaresma, pois mortificação não consiste em se privar dos bens sensíveis em troca de sofrimento puro e simples, mas a fim de que por este desapego possamos elevar mais facilmente nossa alma para os bens celestes, diante dos quais todos os bens terrestres parecem pequenos e toda privação leve. Como disse um autor espiritual: “Para a alma que vê o Criador, toda a criatura parece pequena.”

Não obstante, São Pedro não compreendeu que a glória do Tabor não pertence a este mundo, de modo que é preciso descer da montanha ao invés de se instalar nela. E nestas semanas de deserto que nos faltam ainda, isto é, de combate espiritual, quantas quedas podem ocorrer por causa do desânimo ou da fraqueza, porque nos julgamos incapazes de superar os maus hábitos inveterados ou de nos desapegarmos de certos bens sensíveis. Será que ainda somos fiéis às resoluções que tomamos no início da Quaresma? Estamos fazendo deste tempo um tempo de combate ou já caímos numa certa indiferença? Temos praticado uma certa fuga do mundo ou o frequentado tanto quanto no resto do ano? Temos nos privado de consolações sensíveis ou elas sequer fazem parte das nossas resoluções quaresmais? Temos rezado mais ou ainda não temos o hábito da oração da manhã e da noite, do terço do Rosário, da meditação e do exame de consciência? Temos uma leitura espiritual ou o aparelho celular ainda nos escraviza e rouba o nosso tempo?

Dito isso, o Evangelho que a Igreja escolheu para o terceiro domingo da Quaresma compara o diabo a um homem forte e bem armado, que guarda a sua fortaleza a fim de que todas as suas posses estejam em segurança. Mas se sobrevém um mais forte ele será vencido, suas armas, nas quais depositava sua confiança, serão retiradas e seus despojos distribuídos. Este “homem mais forte” não pode ser outro senão o Cristo, que expulsa o demônio deste castelo, e o castelo é a nossa alma.

Com efeito, o demônio possui pacificamente uma alma quando a entretém no pecado grave, e enquanto ela permanecer no seu pecado não louva a Deus, como o possesso do Evangelho, que era mudo. Basta, porém, a graça operar a liberação desta alma para que ela retorne ao louvor de Deus, como o mudo que começou a falar após a expulsão do demônio. Donde São Paulo dizer na Epístola da Missa: “Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor: comportai-vos como verdadeiras luzes. Ora, o fruto da luz é bondade, justiça e verdade.” (Ef. V, 8-9) Assim, não há conversão sem uma vida de convertido: quem rejeitou as trevas não pode mais agir conforme as obras das trevas, mas produzir bom fruto.

E quem mais produziu bom fruto em sua vida senão o Verbo encarnado, cujos méritos são infinitos? Na mesma epístola de São Paulo também ouvimos que o Cristo: “[…] nos amou e por nós se entregou a Deus como oferenda e sacrifício de agradável odor […]”, de modo que o cristão não tem que buscar em outros o seu modelo supremo de conduta senão no Cristo. E assim conclui o apóstolo: “Sede, pois, imitadores de Deus […]” (Ef. V, 1).

De fato, a vida cristã é a imitação de Cristo, Deus encarnado, pois quem imita Nosso Senhor imita o próprio Deus. A vida do Cristo é, portanto, a única via da santidade. Ora, Nosso Senhor ofereceu a Sua vida em sacrifício na cruz; Sua vida só foi sacrifício, dom de Si perpétuo e irrevogável ao Pai. Ele não procurava os Seus interesses, como lemos no Evangelho: “[…] não busco a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou.” (Jo. V, 30)

Por essa razão, o cristão, uma vez convertido, não deve entreter nenhum compromisso com o espírito do mundo, não deve procurar seus interesses pessoais nem ganhos para si, porque seu único interesse, seu único ganho e seu único lucro é a glória de Deus. Se temos interesses que não são ordenados à glória de Deus e à nossa salvação é preciso corrigi-los quando não renunciá-los, porque após ter expulsado o demônio do mudo, Nosso Senhor admoestou a multidão que o diabo sempre procura retornar à sua antiga casa, isto é, nossa alma, mas desta vez com outro sete espíritos maus, e pior vem a ser a condição do homem após a queda do que antes.

O Evangelho deste terceiro domingo quer nos ensinar não apenas a miséria que é o estado de pecado mortal, no qual a nossa alma se torna escrava do demônio, mas principalmente que não devemos reduzir a vida espiritual a evitar este estado, pois se o demônio volta “mais forte” com seus companheiros para nos perder, como poderemos vencê-los senão tendendo à santidade, sem compromissos com as más ocasiões e com os antigos vícios? Quem iniciou o combate espiritual não pode estagnar na calmaria de uma vitória—como São Pedro no Tabor, pedindo para permanecer na consolação—, mas deve compreender que enquanto houver em nós matéria para purificação, Nosso Senhor não cessará de nos enviar ocasiões de combate a fim de triunfar sobre nosso amor-próprio desordenado e substitui-lo pela caridade. Se o próprio Deus é a medida da nossa santidade, Ele não se contentará de nos retirar uma mera culpabilidade, com a qual nos preocupamos tanto, mas procurará formar em nós o Coração do Seu Filho, o que frequentemente não nos interessa muito. Eis, portanto, o sentido último da Quaresma: renunciar ao homem velho para se conformar em tudo ao Coração de Jesus: aos Seus afetos, aos Seus pensamentos, às Suas obras, aos Seus movimentos, renunciando e se desvencilhando de tudo aquilo que nos impede de nos darmos inteiramente a Deus.

Observemos no Evangelho que, quando o demônio tenta voltar à sua antiga casa ele a encontra varrida e adornada: varrida da culpabilidade do pecado, mas ornada pelas virtudes. Assim, não nos basta nos confessarmos, tampouco fazermos a penitência quaresmal para nos purificarmos das penas devidas aos pecados passados, ou ainda nos mortificarmos para não mais recair nos pecados graves; é preciso principalmente desenvolver as virtudes, que são o meio fundamental para progredir no bem, uma vez que a nossa vontade se move sempre na direção do bem. Do contrário, como renunciar aos bens aparentes e ilusórios dos pecados habituais sem se propor um bem verdadeiro, sem procurar os meios, sem travar uma batalha para adquirir esta ou aquela virtude? Ainda que a Quaresma seja um tempo de penitência e de mortificação, esta não é mais do que a base das virtudes, pois o afastamento das consolações sensíveis lícitas é apenas uma condição e não a realização propriamente das virtudes. Pela mortificação evitamos de nos desviar de Deus, mas pelas virtudes visamos um bem honesto que nos faz crescer, em última instância, na caridade.

Donde quando São Paulo diz que devemos imitar a Deus ele acrescentar: “Progredi na caridade […]” (Ef. V, 2) Quem se mortifica dá ocasião à prática das virtudes; quem pratica as virtudes dá ocasião ao progresso da caridade; quem progride na caridade se torna semelhante ao Cristo, e este é o fim da vida espiritual, pois como diz São João, “Deus é caridade” (I Jo. IV, 16).

Visto por esse aspecto, no que mais consiste a penitência e a mortificação senão em se purificar ou se guardar de tudo aquilo que não é o Cristo ou não conduz a Ele? Nosso Senhor diz no Evangelho: “Quem não está comigo, está contra mim; quem não recolhe comigo, espalha.” (Lc. XI, 23)

Em resumo, nossa alma é como um castelo, onde o Espírito Santo quer morar e reinar soberanamente; nossos pecados sujam a Sua morada e a abrem a uma possível invasão de um tirano; nossos apegos são como o cavalo de Tróia, que nós queremos guardar dentro do castelo por ser belo, mesmo se o exército inimigo se encontra no interior. É preciso fazer penitência por ter sujado e quem sabe também introduzido um ídolo na morada do Espírito Santo; é preciso se mortificar do apego desregrado àquilo que não serve ao bem da nossa alma, mas que não temos coragem de moderar pelo fascínio que exerce sobre os sentidos, mesmo sabendo que o uso imoderado das consolações sensíveis lícitas conduz facilmente às ilícitas.

Por este motivo, São Paulo diz na Epístola da Missa, ao tratar da impureza, que ela não deve sequer ser nomeada entre os cristãos, pois assim convém aos santos (cf. Ef. V, 3). Com efeito, se o apóstolo ensina que a vida do cristão consiste na imitação de Deus, não apenas o pecado grave nesta matéria deve ser condenado, mas a menor impudicícia, porque feriria a perfeição desta imitação. Continua São Paulo: “Nada de obscenidades, de conversas tolas ou levianas, porque tais coisas não convêm; em vez disso, ações de graças.” (Ef. V, 4) A purificação da linguagem, mais uma vez, não passa de uma condição para se viver em ação de graças, como o Cristo, que ofereceu sobre a cruz o sacrifício de louvor.

Consequentemente, nesta Quaresma e em toda a nossa vida não temos mais que um interesse: olhar para o Cristo e contemplar a Sua vida, a fim de imitá-Lo em todas as coisas. E isto ressoa no Intróito da Missa: “Meus olhos estão sempre fixos no Senhor […]” (Sl. XXIV, 15), assim como no Trato: “Levanto os olhos para vós, que habitais nos céus.” (Sl. CXXII, 1). E nunca estaremos mais seguros de vivermos a imitação do Cristo do que nos aproximando de Sua Mãe Santíssima, que é bem-aventurada não somente por ter trazido o Cristo em seu ventre virginal, mas também por tê-Lo gerado em sua alma, ouvindo, guardando e praticando a Palavra de Deus. Que Nossa Senhora das Dores nos guarde fiéis nesta Quaresma.