Padres casados: Padre Laguérie responde a Monsenhor Wintzer

O superior do Instituto Bom Pastor responde ao arcebispo de Poitiers:

Eu conheço bem Monsenhor Wintzer, arcebispo de Poitiers, diocese onde morei durante quase dois anos. Belo, com um metro e oitenta, educado e sorridente, ele me recebeu contrariado e forçado porque, sem-teto na época, eu estava ao menos quite com a República. Mesmo batizado e cristão, crismado e padre de Jesus Cristo bem antes dele, ele tinha precisado, entretanto, que me recebia com “cidadão francês”. Vocês vão entender o porquê, mas eu guardo dele mesmo assim uma grande gratidão… ele tinha me dado até mesmo o uso de ordens, e também para meu secretario o Padre Billot, mas unicamente na casa onde eu morava; eu podia então confessar em todo o mundo, salvo em Roma (onde é preciso uma autorização especial) e na diocese de Poitiers, exceto nessa dita casa.

Ele poderia ter pensado em usar esses dois novos padres residentes para algum apostolado numa diocese avariada, não por ele mesmo, mas por vários dos seus predecessores. Mas não, ele já tinha na sua diocese uma dúzia de padres de batina que o incomodavam bastante. Ou ainda poderia recriar o seminário diocesano fechado já há muito tempo… Nós soubemos depois disso que é mais fácil, em certas dioceses da França (que eu não nomearei) de conseguir uma paroquia se você é um criminoso predador do que se você celebra em latim…

Era preciso então achar uma solução para a desertificação sacerdotal espantosa das dioceses do interior, e essa preocupação é motivo de honra para o arcebispo de Poitiers, já que um vizinho seu próximo acadêmico esperava, ao invés, desejosamente uma Igreja sem padres. Atualmente, já é fato consumado, ou o será rapidamente: é preciso considerar rapidamente a possibilidade de ordenar padres casados. Essa é sacada de Mons. Wintzer. Ou ao menos ele foi o primeiro a dizer em voz alta, o que muitos já pensam em voz baixa há muito tempo.

Atenção as más línguas! Não significa de maneira alguma poder casar os padres já ordenados. Eles assinaram, prometeram, juraram! Eles deveriam ter pensado nisso antes, não deveriam ter começado a construir uma torre para a qual não teriam os meios necessários. Não vamos dar a essas pobres almas, já atormentadas por toda sorte de fantasmas (cf. abaixo) a esperança irrealizável de casar em justas núpcias. Longe de nós, ao menos por enquanto.

Visto que essa primeira restrição é muito desconfortável, eu diria até mesmo integrista, vejamos com calma. Se não existe nenhuma objeção no próprio sacerdócio para que sejamos padres e casados, porque admitir que sejam ordenados sendo homens casados e negar que se casem sendo padre? É simplesmente um desenvolvimento histórico infeliz. “O tempo aqui, senhor, não muda em nada a questão” teria dito nosso velho Molière. Se podemos ordenar as pessoas casadas porque não casar os padres? “Eles prometeram”, diz o arcebispo de Poitiers que finge ignorar que a Igreja teria perfeitamente o poder de desvincula-los dessa obrigação, como ela já o faz, infelizmente, demais …, mas vamos ao fundo do problema.

Não discuto o argumento da causa final, simples bom senso matemático: isso permitiria “penetrar no território onde numerosas igrejas só abrem suas portas para os enterros”. Vale ressaltar como algo excepcional o fato de um bispo residencial chamar a atenção (eu acredito que seja a primeira vez) à desertificação sacerdotal de nosso interior. Bravo, sim bravo! Eu constato que essa desolação, finalmente, só é lembrada, quando se trata de trazer à tona a ordenações de homens casados…

A formação desses homens (é preciso seis anos de estudos, quase o dobro frequentemente, para formar os padres atuais, celibatários) não é um problema para Mgr Wintzer. “Um ensino específico para esses novos representantes da Igreja não é da ordem de uma utopia”. Já que estamos dizendo que isso é possível, então circule. Eu me permito simplesmente fazer observar Sua Excelência, que essa gente é casada, e consequentemente tem uma esposa que, mesmo sóbria e modesta, pode exigir algum tempo e algum dinheiro. Que se eles respeitam “Humanae Vitae” é possível também que eles tenham uma prole considerável a qual também exige atenção, tempo e dinheiro. Que consequentemente eles têm uma situação e um trabalho convenientes. Um curso noturno durante seis anos poderia fazer mal a um equilíbrio familiar bem precário se isso não for levado em consideração. Mas bem, não é utópico porque é possível e não é impossível porque não é utópico. Molière me vem de novo ao espirito nos graus obtidos por Argan, o doente imaginário que se tornava médico:

Mihi a docto Doctore

Domandatur causam et rationem quare

Opium facit dormire :

A quoi respondeo,

Quia est in eo

Virtus dormitiva,

Cujus est natura

Sensus assoupire.

Mas onde eu digo que o Arcebispo escorrega completamente, são nos seus dois últimos argumentos. Escutem!

“Isto quebraria a imagem do padre que se considera um homem sagrado e poderoso”. Eis o mal absoluto, imperdoável, insuportável. É essa deformação que explica os estupros (sim, você leu bem: são estupros causados por padres!) pois ela está ligada “à desequilibrados psicológicos reforçados por esta aura de sagrado que rodeia os padres”. Vocês entendem bem a mentalidade do arcebispo? É o caráter sagrado do padre e a autoridade que dele emana que, no celibato mal vivido, gera os desvios sexuais e a torpeza que choca as crônicas! E os seus casamentos resolveriam tudo, naturalmente.

Nós acreditamos exatamente o contrário durante 2000 anos: é quando o padre respeita seu caráter, ó quão sagrado, e a temível responsabilidade que pesa sobre seus ombros, que ele vive bem, se respeita a si mesmo e respeita seu rebanho, evidentemente. Dessacralizando o padre (e com que direito?) se aumentariam ainda mais as orgias escandalosas e a zombaria espetacular da qual tem se dado exemplos desde o Concílio. Seria preciso que finalmente os olhos se abram para ver as causas verdadeiras dessa anarquia moral e do odor nauseabundo que dela segue. Profanou-se o padre, fez-se dele um assistente social ou um agitador sócio-político, tirou-se dele o sagrado em todos os âmbitos (formação, seminários, breviário, orações, missa, ordenações, doutrina, filosofia, teologia, patrística, magistério, língua sagrada etc.) e vocês se espantam que agora ele viva como todo mundo?! Se o padre é “como todo mundo” porque ele não deveria viver “como todo mundo”, ou seja, bem mal?! E vocês querem tirar dele a ultima muralha de sagrado que ainda o cerca: seu misterioso celibato!

São João Crisóstomo, repete no seu tratado do sacerdócio que o padre deve estar elevado acima do leigo como o céu este elevado acima da terra, nada menos. São Pio X (Haerent animo) chama a virgindade de “o mais belo ornamento da nossa ordem (sacerdotal)”. O argumento, completamente desgastado, de que os primeiros apóstolos eram casados é simplesmente grotesco. Quando surge Jesus Cristo o celibato e a virgindade não existem porque foi Ele (e sua Mãe primeiro) que o inventam. Jesus escolhe então necessariamente seus apóstolos entre as pessoas casadas. E como fazer diferente? Mas sua pregação inteira, e mais ainda, seu exemplo incitam justamente a se emancipar desse julgo. Alguns o entenderão imediatamente, como São João, Estevão, Paulo, Barnabé e muitos outros. Será que São Pedro realmente levou a Antioquia e depois à Roma sua esposa? São Tomé a sua às Índias? São Paulo explica (1 Cor 7) que é bom para o homem não ter mulher e que queria que todos os homens fossem como ele. Ele explica também que os apóstolos tem o costume de levar com eles alguma irmã (ou seja, uma cristã e não uma esposa) para os ajudar. Mas se vocês pensam que o grande são Paulo é um grande misógino e que “seu espinho na carne e as bofetadas de Satanás” poderiam ser alguma perversão incontornável (vocês se entendam com ele, não é mesmo Michel Onfray, que copia bestialmente Celso?!), releiam o próprio Senhor (Mt 19, 12):

“Porque há eunucos que o são desde o ventre de suas mães, há eunucos tornados tais pelas mãos dos homens e há eunucos que a si mesmos se fizeram eunucos por amor do Reino dos Céus. Quem puder compreender, compreenda”. (Vocês não são mais capazes, ao que parece).

A questão do celibato eclesiástico, entretanto não é moral nem dogmático, mas espiritual e teológico, e é por isso que este mundo hedonista, consumista, individualista, egoísta não pode mais compreendê-la. Aliás, porque é então que vocês dão palpite? O padre é marcado na sua alma, para a eternidade, com o caráter indelével de ministro de Jesus Cristo (e não de funcionário). Ele é o prolongamento ontológico do Cristo-sacerdote pois o Espirito Santo marcou sua alma com esse poder sacerdotal que o permite celebrar o sacrifício de Cristo sendo seu instrumento indispensável e perdoar os pecados, poder essencialmente divino. Mais ainda, ele participa a essa graça intima que faz que Cristo seja Cristo, sacerdote, pontífice entre Deus e os homens, esta graça do mistério da Encarnação pela qual a humanidade do Cristo subsiste na pessoa do Verbo, a “Graça de União”. Entre o sacerdócio dos fiéis e o dos padres não há uma diferença de grau mas uma diferença de especificidade. E vocês gostariam que esse homem fosse como os outros e que tivesse uma mulher! Cegos condutores de cegos.

Aquilo que mesmos os pagãos vislumbram confusamente vocês nem veem mais. Eles percebem mesmo tateando, o caráter sagrado do padre católico, radicalmente diferente nisso de todo outro ministro. Um pastor luterano ou anglicano não é senão um pregador da palavra, mais ou menos hábil. Um padre católico é o sacramento do Cristo, vivo e verdadeiro, seu ícone, suas mãos e mesmo sua pessoa prolongada.

Ah, eu ia esquecer um argumento decisivo! Os orientais, por vezes mesmo uniatas, fazem assim e aceitam os padres casados… porque não nós? Muito obrigado. Eu não hesito em dizer que a Igreja do Oriente foi bem menos fiel ao Evangelho que nós durante a história, que está ai a causa de suas misérias, que se ela não tivesse ordenado homens casados ela se portaria bem melhor e que ela teria resistido bem melhor, como nós, a todos os invasores, que sejam muçulmanos ou comunistas. Então querer nos alinhar com essa igreja moribunda: não, obrigado! “Antes o turbante que a tiara”, lemos sobre alguns mosteiros do monte Athos…

Última palavra de Mgr Wintzer: “os homens de Deus devem obedecer à justiça dos homens do país (..) Nós não somos homens sagrados acima das leis, nós somos cidadãos como os outros, judiciáveis como qualquer outro”.

Eu confesso não entender o que faz aí essa admirável expressão “os homens de Deus” depois de tudo o que já aguentamos e do que nos resta a ouvir. Quem são esses “homens de Deus” que não tem nenhum caráter sagrado, são cidadãos como os outros? Sem duvida a expressão é uma repetição do grande são Paulo (1 Tim) “ô homo Dei” admirável e que diz ainda o caráter sagrado do bispo de Timóteo, mais um celibatário ordenado pelo apóstolo. Pego em alguma torpeza extrema esse cidadão x volta bruscamente a ser um homem de Deus, estranho não?!

Mgr. Wintzer volta a sua cara tese do homem como os outros sobre o aspecto penal do qual todos concordam hoje em dia. Descobrimos ainda, um pouco tarde, que um padre que comete tais crimes (estupro e pedofilia) deve ser punido bem mais que os outros, por causa justamente do caráter sagrado que ele corrompeu. Havia antigamente o privilégio do foro que isentava os clérigos de um julgamento civil e não os tornava judiciáveis senão nos tribunais eclesiásticos. Suprimindo esse privilégio, a Igreja se impediu de julgar ela mesma os seus membros e os abandonou ao tribunal de direito comum. Mas ela o fazia muito bem e não havia bispos para tolerar as monstruosidades atuais dos seus ministros. Existia mesmo uma cerimônia de degradação, publica e infamatória para o delinquente. Mas agora, de 60 anos para cá os eclesiásticos delinquentes puderam agir com toda impunidade: a Igreja sufocava os casos escabrosos e o estado não ousava (ainda) colocar o nariz, pensando falsamente que os bispos fariam ainda seu trabalho. (Canonicamente esse privilegio do foro foi abolido pelo CIC de 1983, mesmo se ele de fato já havia sido abolido bem antes. As reduções ao estado leigo eram geralmente feitas a pedido dos sujeitos e não impostas como pena).

E como a moral de Michel Polnareff sobre o bem conhecido “nós iremos todos ao paraíso” reinava soberana, tendo como único limite a efêmera muralha dos direitos do homem, os crimes impunes, entretanto bem conhecidos, se multiplicaram ao excesso. Eles submergem hoje a Igreja. Cada dia nos traz seu lote de novos fatos a todos os níveis inimagináveis da hierarquia. O que fazer então diante dos frutos sórdidos e nauseabundos do “aggiornamento” triunfante dos anos 60?

Ordenar padre homens casados para canalizar sua concupiscência intempestiva e… tudo irá melhor! A crise será logo superada e obrigado ao corajoso promotor da causa salvífica.

Eu me permito, para terminar sorrindo, dar alguns conselhos de velho padre a esses futuros eleitos e a seus experimentadores. Não os escolham muito jovem de medo que sua concupiscência não tenha dito ainda sua última palavra e não lhes dê uma rasteira. Presbyteros quer dizer “anciãos”, não se precipitem. Com essa leva de anciãos, nós vamos rejuvenescer a media de idade do clero: 72 anos. Para seus estudos, pensem em bolsas porque sua vida profissional irá necessariamente mal. Cuidem também que a qualidade de suas esposas seja excepcional, para que elas não queiram extorquir sobre o travesseiro alguns segredos de confissão que as incomode. Se alguma santa alma, Deus o livre, se apegar um pouco demais a eles, como acontece impreterivelmente, que em hipótese alguma sua senhora fique sabendo. Ordenar padre casados é algo muito difícil, mas o que fazer com os padres casados divorciados?

E se, ao invés, se recomeçassem os seminários, com batina, latim e castidade? Tentem, eu posso garantir que isso funciona. Mas sobretudo, diga-os que Jesus Cristo vale a pena e Ele não os decepcionará.

 

Fonte: https://www.riposte-catholique.fr/archives/150463  (Tradução João Gabriel Sampaio)