Sermão do V Domingo Depois da Epifania

Sermo in V Dominica post Epiphaniam
Bethlehem a Brasilia, 10 februarii A.D. 2019

vigilância, guardiã da graça

Nós aprendemos, no Catecismo, que os Sacramentos agem ex opere operato, isto é, que a sua eficácia vêm da própria obra realizada. Se as condições determinadas por Nosso Senhor estiverem presentes—a matéria e a forma do Sacramento—, é o próprio Cristo quem comunica a graça por meio do ministro, independentemente dos méritos ou da Fé daquele que administra. Nosso Senhor assim fez para nos garantir uma grande segurança a cada vez que recebemos algum Sacramento, pois não podemos iniciar ou progredir na vida espiritual se tivermos pouca ou nenhuma certeza de que recebemos a graça, sem a qual ninguém entrará na luz da glória.
Não obstante, após nosso Batismo, muitos de nós já receberam inúmeras vezes os Sacramentos da Penitência e da Eucaristia, certos de que foram absolvidos pelo sacerdote e de que comungaram verdadeiramente a Pessoa de Nosso Senhor sob as aparências de pão. Não temos dúvida quanto à eficácia desses Sacramentos e tampouco quanto ao cortejo de graças que cada um deles nos alcança. Pela Confissão, o penitente pode recuperar a graça santificante, se porventura a perdeu, ou então obter uma nova infusão desta graça, além de receber os auxílio da graça atual a fim de vencer as tentações e não recair nos vícios. Na Eucaristia, por sua vez, o comungante recebe não apenas uma graça, mas o Autor da graça, o Verbo encarnado, unindo-se mais estreitamente a Deus pela caridade, obtendo o perdão das faltas veniais e recebendo um aumento de fervor e consolação espiritual.
Mas ainda que o Catecismo e os piedosos escritos dos Santos nos fomentem uma grande confiança no poder santificante dos Sacramentos, não poucas almas deixaram de recebê-los como que já não acreditando na real mudança que podem causar na vida espiritual; assim como muitas almas ainda os recebem regularmente, porém mais pelo temor de viverem sem a graça do que pela certeza de seu poder santificante. É preciso reconhecer que uns e outros, cada um a seu modo, desistiram da santidade. Uns não frequentam mais os Sacramentos movidos por um falso respeito, como se Nosso Senhor não tivesse instituído tais canais da graça para eles também, ou melhor, principalmente para eles. Outros recebem regularmente os Sacramentos sem saberem que, a cada recepção, a cada Confissão ou Comunhão, devemos esperar um avanço na vida de oração e na prática das virtudes, e não uma mera consolação espiritual passageira.
Deste modo, se estamos certos da eficácia destes canais de santificação, não nos resta outra alternativa senão reconhecer que toda insuficiência e toda deficiência não está do lado dos Sacramentos, mas do nosso lado, da parte das nossas disposições. Ainda que a nossa época atravesse uma grave crise de Fé, não podemos nos contentar em conhecer simplesmente a doutrina da Igreja, porque este conhecimento, por si mesmo, não nos dá a segurança da salvação. Saber, por exemplo, que podemos nos confessar após recair em um pecado não nos garante que teremos tempo ou oportunidade de encontrar um confessor, e um bom confessor. Quando o Concílio de Trento diz que “a Fé é o princípio da salvação” (ses. VI, cap. 8, n. 801) isso significa que sem a Fé ninguém se salva; mas a Fé que não está revestida da graça, sob a moção da caridade, não passa de uma Fé morta, inoperante, que também não pode salvar. Por esta razão, não devemos medir o êxito do nosso apostolado por critérios meramente exteriores—a quantidade de pessoas que frequenta ou a repercussão nos meios de comunicação—, porque, sem o influxo da graça, nosso apostolado não causaria conversões, apesar de fazer certas verdades de Fé circularem. A Fé precisa da Caridade; mas se temos dificuldade em nos mantermos ou em crescermos na Caridade, isso se deve à nossa pouca ou nenhuma Esperança, virtude sobrenatural pela qual temos a firme certeza de que Deus nos dará os meios para nos santificarmos se observarmos fielmente os Seus mandamentos. Donde a utilidade de considerarmos a parábola do joio e do trigo no seu sentido espiritual, a fim de aprendermos com ela certas disposições necessárias para que a nossa Fé seja operante e a nossa frequentação dos Sacramentos seja frutuosa.
Bem sabemos que as parábolas frequentemente serviram, na pregação de Nosso Senhor, para tratar do Reino dos céus, isto é, a Igreja, e este seria o primeiro sentido da parábola em questão: o campo é o mundo; a boa semente os filhos do Reino e o joio os filhos do Maligno. Não obstante, a atitude dos servos pode ser perfeitamente aplicada à nossa vida espiritual e ao apostolado, pois o que fazem eles na parábola senão interrogarem o pai de família sobre os meios de se preservar os frutos e fazer boa colheita?
Assim, o primeiro elemento que devemos considerar na parábola, meditando-a em seu sentido espiritual, é o sono dos servos. Diz o Evangelho: “Na hora, porém, em que os homens repousavam, veio o seu inimigo, semeou joio no meio do trigo e partiu.” (Mt. XIII, 25) Diferentemente do sono de Nosso Senhor na barca, um sono de repouso dos trabalhos apostólicos, o sono dos servos consiste simplesmente na falta de vigilância. Se São Paulo exorta: “Vigiai! Sede firmes na fé!” (I Cor. XVI, 13), isto significa que, se o corpo dorme e descansa, a Fé, porém, não pode descansar. Da mesma maneira, ordena São Pedro: “Sede sóbrios e vigiai. Vosso adversário, o demônio, anda ao redor de vós como o leão que ruge, buscando a quem devorar.” (I Pd. V, 8) Com efeito, o demônio não espera que o procuremos para firmarmos um pacto. Ele precisa tão somente que lhe demos algumas brechas, pelas quais, paulatinamente, ele introduz tentações em matéria leve, até que das pequenas quedas se desenvolvam vícios, pois o hábito de pecar venialmente predispõe com facilidade a alma aos pecados mortais.
Os servos da parábola não vigiaram; e antes que a boa semente brotasse, o inimigo semeou o joio durante a noite. Do mesmo modo, a cada vez que recebemos os Sacramentos da Confissão e da Eucaristia, Nosso Senhor planta em nossa alma a semente da Sua graça, cujo crescimento e desenvolvimento depende da nossa vigilância. Neste sentido, se hoje constatamos uma infinidade de vícios e pecados em nossa alma, todo este joio poderia ter sido evitado se tivéssemos vigiado e combatido, se não tivéssemos dialogado imprudentemente com a tentação, como Eva no Paraíso. No tempo de Nosso Senhor era costume de se pôr vigias num campo quando os frutos já estavam maduros, pois neste tempo havia risco de roubos. Todavia, na vida espiritual devemos vigiar sempre, já que o demônio pode nos roubar a qualquer instante; e enquanto nos preocupamos com problemas como os escândalos cometidos pelo Clero, a infiltração das sociedades secretas na Hierarquia, os sinais do fim dos tempos, dentre outros, esquecemo-nos de vigiar fazendo a oração da noite, por exemplo.
Não vigiamos quando negligenciamos deveres que são pequenos em si, sem perceber que da fidelidade a estas pequenas obrigações depende todo o edifício da graça. Afinal, se formos fiéis durante um combate espiritual, não apenas vencemos a tentação, mas crescemos em graça, crescemos na união com Nosso Senhor, o que significa que, se Deus nos chama à santidade, Ele nô-la dá à medida da nossa generosidade. É em vão que esperamos a santidade para daqui alguns anos, talvez no fim da vida, se dia após dia não ordenamos nossas ações a fim de cooperar com Nosso Senhor. Nossa infidelidade, nossa inconstância, nossa fraqueza e inclusive nossas quedas nada mais fazem do que impedir que o edifício da vida espiritual tenha fundamentos, ou pelo menos fundamento sólido. E sem fundamento sólido, nosso castelo interior irá sucumbir em pouco tempo.
Consequentemente, não nos basta aspirar a santidade em termos gerais, como os servos teriam interceptado o inimigo caso o vissem entrar no campo do pai de família. Precisamos nos servir das nossas faculdade superiores, a inteligência e a vontade, a fim de aplicarmos, por meio de resoluções práticas, as luzes que recebemos durante a oração, especialmente a meditação. A malícia do inimigo só obteve a semeadura do joio por causa da inadvertência dos servos, assim como o demônio ilude com sucesso as almas sem estratégia, sem armas, sem vigilância, em suma, sem combate espiritual.
Mas, uma vez que o joio foi semeado no campo de trigo, do mesmo modo que a nossa falta de vigilância permitiu o enraizamento de tantos vícios em nossa alma, o melhor para nós não é arrancá-los de uma só vez, por um milagre da graça, porque a presença dos vícios nos obriga a uma vigilância e a uma humildade muito maiores. Donde Santo Agostinho dizer que a presença dos maus mesclados aos bons obriga estes a serem melhores, pois é mais difícil praticar a virtude em uma sociedade corrompida, e tal dificuldade também se encontra em uma alma que precisa fazer a boa semente da graça crescer apesar dos vícios de tempos passados a inclinarem continuamente ao pecado.
A vigilância sobre si fará a graça dos Sacramentos frutificarem. Esta graça a recebemos como um “tesouro em vasos de barro” (cf. II Cor. IV, 7), de modo que, se após tantas quedas o demônio, como fino psicólogo, já conhece tão bem os meios para nos fazer cair inúmeras outras vezes, cabe-nos agora procurar, sob a luz da meditação, os meios a fim de estarmos sempre prontos para o combate espiritual, sem o qual não seremos santos, e quem sabe sequer nos salvaremos.

Padre Ivan Chudzik