Sermão do IV Domingo Depois da Epifania

Sermo in IV dominica post Epiphaniam

Bethlehem a Brasilia, 3 februarii A.D. 2019

Quem repousa em Nosso Senhor não sente as tempestades

A travessia do lago de Genesaré nos impressiona por causa da tempestade acalmada por Nosso Senhor, prova da Sua divindade; mas se o silêncio ao qual o Salvador reduz os ventos e as águas parece ser o único elemento importante deste episódio do Evangelho, lembremo-nos, como disse São Jerônimo, que todas as criaturas reconhecem o seu Criador, obedecendo-o. Os apóstolos demonstram não ignorar que o Cristo podia dar ordens sobre a natureza, porque O acordam e pedem a Sua intervenção. Sem contestar que este sinal seja o centro do episódio, todavia, não podemos ouvi-lo como se o que o precedesse não tivesse importância, ou melhor, não modificasse a cena. Pelo contrário, precisamos dar atenção a dois elementos que a tornam ainda mais significativa, a saber: o sono de Nosso Senhor e o medo dos apóstolos.

O Salvador quis passar para o outro lado do lago não apenas para realizar uma simples viagem apostólica, mas primeiramente porque estava cansado. Os evangelistas situam esta passagem após o sermão da montanha e algumas curas e diálogos, nos quais se vê a quantidade de trabalhos aos quais Deus mesmo Se submeteu: pregar, curar, expulsar demônios, corrigir e consolar. Se julgamos extraordinária a jornada de um São João Maria Vianney, de um São João Bosco ou de um São Padre Pio, não nos esqueçamos de que Deus mesmo trabalhou para ensinar os sacerdotes o quanto devem trabalhar; Deus mesmo Se cansou, para ensiná-los a não buscarem conforto na vida sacerdotal, razão pela qual o próprio convívio recreativo do sacerdote com os fiéis tem função de apostolado, assim como convém ser algo de extraordinário. Se na Criação do mundo o descanso de Deus significa tão somente a conclusão do ato criador, na Redenção o Verbo encarnado não quis refazer a natureza humana sem sofrer cada uma das suas vicissitudes, o que inclui o cansaço.

Todavia, a fatiga de Nosso Senhor não implica nenhum ativismo da Sua parte, porque, ao fim daquela tarde de trabalhos apostólicos, Ele quis Se apartar das multidões passando para o outro lado da margem (cf. Mc. IV, 35). Aquele cujo fardo é leve e o peso suave (cf. Mt. XI, 30) e não nos impõe nenhuma tribulação que esteja acima de nossas capacidades, também respeitou os limites da Sua natureza humana, procurando a solidão e o repouso. Com efeito, Nosso Senhor procurou a solidão porque subiu numa barca apenas com os apóstolos (cf. Mt. VIII, 23), apesar de outros discípulos O escoltarem, mas em outras embarcações (cf. Mc. IV, 36). E a prova de que estava deveras cansado foi o Seu sono profundo na barca, mesmo em meio a uma violenta tempestade. Ademais, ainda que o Verbo encarnado tome repouso após tantos trabalhos apostólicos, o Evangelho nota que Ele dormia sobre um travesseiro (cf. Mc. IV, 38), o que também dá prova da Sua constante mortificação. Nosso Senhor disse: “As raposas têm suas tocas e as aves do céu, seus ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça.” (Mt. VIII, 20) Se o Evangelho faz questão de mencionar que Nosso Senhor tomou um travesseiro nesta ocasião, podemos concluir que isto não Lhe era habitual, e apenas reforça o quanto o Salvador estava cansado.

É preciso considerar que o lago de Genesaré está cercado de montanhas, o que ocasiona facilmente a produção de fortes ventos. Os apóstolos—dentre os quais havia pescadores—deveriam estar acostumados às tempestades e ventanias de um lago com 21 quilômetros de comprimento por 12 de largura, e se temeram era porque a tempestade se sobressaía em violência, como diz o Evangelho: “De repente, desencadeou-se sobre o mar uma tempestade tão grande, que as ondas cobriam a barca.” (Mt. VIII, 24)

O desespero presente na súplica dos apóstolos dá a entender que eles procuraram conter a situação por si próprios, respeitando primeiramente o profundo sono do Salvador e somente O acordaram quando já não podiam fazer nada para se salvarem. Em São Mateus lemos: “Senhor, salva-nos, nós perecemos!” (Mt. VIII, 25), ao passo que em São Marcos temos a firme impressão de que os apóstolos esperavam Nosso Senhor Se acordar por si mesmo para salvá-los, porque lemos: “Mestre, não te importa que pereçamos?” (cf. Mc. IV, 38)

Uma vez que conseguimos extrair diversas conclusões a respeito do sentido literal, quanto ao sentido espiritual é preciso saber que os Padres da Igreja frequentemente interpretaram a barca como sinônimo da Igreja—por causa da arca de Noé, fora da qual ninguém se salvou—ou da alma, que também deve passar por tempestades antes de chegar ao porto da salvação. Donde o Apocalipse comparar os Bispos às estrelas (cf. Ap. I, 20), porque assim como as constelações orientam os navegantes em alto mar, os Pastores da Igreja devem nos indicar a via da salvação pela firmeza da doutrina e pela luz dos exemplos.

Se a barca é a nossa alma, não nos esqueçamos que nela repousa o Salvador, esgotado após inúmeros trabalhos apostólicos. Se Nosso Senhor Se cansa, é para nos dar o exemplo do heroísmo no apostolado; mas se toma repouso é para nos prevenir do ativismo, pois uma alma que não descansa, isto é, que não se refaz no Coração de Jesus, não tem nada a transmitir, a comunicar ao próximo no apostolado. O ativismo ofende a Deus, porque contraria aquelas palavras do Evangelho: “Vinde a mim, vós todos que estais aflitos sob o fardo, e eu vos aliviarei.” (Mt. XI, 28) Não obstante, este tem sido um problema constante junto aos católicos ligados ao Rito Romano tradicional, como que uma praga, difícil de ser extirpada.

Afinal, o ativismo separa a natureza da graça, a verdade da caridade e a inteligência da Fé. O apologeta, o militante, o debatedor católico reduz o seu apostolado a um mero confronto de idéias, em que bastaria expor a verdade para que o interlocutor reconheça sem falta o seu erro. Como tal conversão não irá ocorrer tão rápida e prontamente quanto ele presume, o apologeta é quem se converte em ativista, quando a defesa da verdade passa a importar menos diante do prazer que ele extrai em desmentir os mais variados inimigos da Igreja. Consequentemente, como pode esperar a conversão do outro quem defende, cheio de vaidade, a verdade? Ainda que nosso apologeta hipotético conheça a verdade, é movido pelas paixões, e não pelo bem do próximo, que ele empreende o debate. Interessa-lhe mais fazer o mundo concordar consigo—porque “ele tem razão”—do que se inclinar diante da verdade, o que corrompe o apostolado e faz dele praticamente uma guerra partidária. Em tal cenário, a defesa da Religião não passa de um debate sem necessidade da graça, a verdade deve ser dita sem nenhuma consideração da caridade e a conversão não é mais que a mera conclusão dos raciocínios apresentados pelo apologeta, isto é, uma simples mudança de opinião. Dito isso, é de se esperar que o primeiro a entrar em crise religiosa seja o apologeta, e não o seu interlocutor.

Ora, o descanso de Nosso Senhor na barca é uma imagem da alma, fatigada de trabalhos apostólicos, necessitada de solidão, isto é, de silêncio e de repouso, ou melhor, de oração. A conversão do próximo não é mero exercício de lógica ou de retórica, que pode, eventualmente, atingir a inteligência mas não mover a vontade. Para que a vontade renuncie à sua malícia é preciso o auxílio da graça, e para tanto, o apóstolo deve ser uma alma de constante e profunda união com Deus; do contrário, seu apostolado não passará de agitação e aflição de espírito, porque se move muito para não produzir nada.

Enquanto Nosso Senhor descansava na barca, os apóstolos se desesperavam por causa da tempestade. Uma alma sem oração não suporta as dificuldades e tribulações do apostolado, pois, como é movida pelas paixões não está disposta a sofrer, mas triunfar. E se não triunfa, se não vence o debate, como Davi tendo em mãos a cabeça de Golias (cf. I Sm. XVII, 54), logo se enche de desânimo assim como de indignação para com o seu interlocutor. Se soubesse que a conversão é uma obra da graça, na qual as obras de apostolado não passam de mero instrumento, teria vencido como Davi, que não tinha espada. Diz o Salmo: “Por vossa graça repelimos os nossos inimigos, em vosso nome esmagamos nossos adversários. Não foi em meu arco que pus minha confiança, nem foi minha espada que me salvou […].” (Sl. XLIII, 6-7)

Ao ser acordado pelos apóstolos, Nosso Senhor repreendeu a falta de Fé de quem se julgava vencido pela tempestade em presença de Deus encarnado. O Salvador dormia para obrigá-los a vencerem a tempestade pela Fé, ao passo que os apóstolos não rezaram e somente acordaram Nosso Senhor após a tempestade ter ameaçado afundar a barca. Do mesmo modo, o ativismo nos faz confiar em nossas capacidades em “trabalhar para Deus”, como se o Criador precisasse de algo nosso, assim como a oração se converte no “último recurso” ao invés do primeiro.

A oração é sempre a alma de todo o apostolado, mas especialmente neste século, em que se vive para se saciar as paixões, e na situação atual da Igreja, em que devemos dar uma importância menor às heresias e escândalos, uma vez que a crise não é a fraqueza ou a derrota de Deus, mas um castigo à nossa tibieza e uma provação para purificar a nossa Fé. Nosso Senhor está na barca, e como lemos no Evangelho, Ele dorme na popa (cf. Mc. IV, 38), isto é, no lugar dos aposentos do capitão. Mais do que combater de frente os problemas atuais do Catolicismo, importa remediar as suas causas, e a primeira delas é a nossa falta de união com Deus. Em geral, nós não ordenamos a nossa vida em vista de adquirir de fato a santidade, e isso ofende mais a Deus do que o erros da Teologia da Libertação.

Peçamos a Nosso Senhor a graça de termos uma grande Fé na santidade. Esta Fé nos conduzirá ao Seu repouso, e já não sentiremos a tempestade porque estaremos intimamente unidos ao Senhor da Criação e da História.

Padre Ivan Chudzik