Sermão do III Domingo Depois da Epifania

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Sermo in III dominica post Epiphaniam

Bethlehem a Brasilia, 27 januarii A.D. 2019

Aprender com o leproso e o centurião a pedir a graça da própria conversão

      O encontro de Nosso Senhor com o leproso na cidade deve nos interessar particularmente. Afinal, diz o Evangelho de São Mateus, o leproso “adorou Nosso Senhor”, isto é, inclinou-se profundamente diante dEle. Segundo São Marcos, esta inclinação ocorreu de joelhos (cf. Mc. I, 40), ao passo que São Lucas acrescenta que o leproso se prostrou com o rosto por terra (cf. Lc. V, 12). O sentido religioso da reverência é incontestável, e bem sabemos que esta prática oriental se mantém viva até hoje.

         Se o leproso reverenciava Jesus Cristo como Deus encarnado ou apenas como Messias, não podemos dizer ao certo; mas isto já não importa tanto a nós, católicos, que recebemos da Igreja a Fé na Divindade de Nosso Senhor. Nós, mais do que o leproso, temos a obrigação de nos inclinarmos diante da Pessoa divina do Cristo.

         Donde a nossa filiação e apego ao Rito Romano tradicional, cuja reverência e piedade confessa adequadamente a Fé da Igreja. Mas se praticamos a reverência do leproso na Liturgia com o conhecimento que nos vem da doutrina, não obstante, ainda nos falta o principal, isto é, reconhecermos a nossa lepra, que é o pecado. Afinal, de quê serve a revência sem procurar, com ela e por meio dela, uma verdadeira atitude interior? Lembremo-nos que Herodes insinuou interesse em adorar o Menino Jesus (cf. Mt. II, 8), e que os fariseus não hesitaram em tratar diversas vezes o Cristo de “mestre” (cf. Mt. XXII, 16). Os inimigos de Nosso Senhor também sabiam reverênciá-Lo, mas não pretendiam adorá-Lo, porque sua reverência estava cheia de malícia e de hipocrisia.

         Assim, não podemos permitir que os opositores do Rito Romano tradicional critiquem nosso apego legítimo por ele em razão da nossa falta de conversão. As cerimônias da Igreja são santas e fonte de santificação, ao passo que os frequentadores e defensores da Liturgia antiga podem perfeitamente se contentar com a reverência e a beleza exteriores, sem incluir, a cada gesto litúrgico, uma alma de leproso, que precisa ser curada pelo poder do Cristo. Eis no quê estas cerimônias devem consistir para nós: a oração da Igreja para aqueles que precisam ser redimidos, santificados, curados. Se não temos nenhuma lepra para apresentar a Nosso Senhor, se temos um bom e alto conceito de nós mesmos, se nada em nossa vida precisa ser corrigido e emendado, então partamos da igreja e retornemos às nossas casas, porque não viemos aqui fazer a oração do fariseu, mas a do publicano; não a adoração de Herodes, mas a do leproso.

         E quando apresentarmos nossa alma de leproso durante a Liturgia, as cerimônias deixarão de ser enfastiosas e entediantes—como elas costumam ser para alguns—, porque somente doentes febris como nós precisam de tantos sacramentais e tantos ritos a fim de nos desapegarem das criaturas e nos elevarem até Deus, nossa única felicidade. Com efeito, o fastio e o tédio durante a Santa Missa se devem não apenas à falta de conhecimento das verdades de Fé como também da falta de conhecimento de si mesmo. Se o leproso não soubesse ou não julgasse possuir lepra, não procuraria Nosso Senhor.

         A adoração do leproso já é digna de elogio por ser autêntica e sincera, sem lisonjas ou emulações, mas também é cheia de confiança no Salvador. O leproso não condiciona o poder do Messias e tampouco exige a cura. Ele não diz: “se podes”, pois sabe que Nosso Senhor pode curá-lo; não diz: “cura-me”, como quem dá ordens, pois não se considera digno. Apesar do estado deplorável de sua enfermidade, que exigia o isolamento quase que completo da sociedade e lhe causava inúmeras feridas e dores, o leproso se resigna completamente à vontade de Deus, ao dizer: “Senhor, se queres, podes curar-me.” (Mt. VIII, 2) A oração do leproso foi uma oração eficaz, porque reverenciou Nosso Senhor com humildade e confiança. Quanto a nós, quando vamos às cerimônias da Igreja, temos confiança na sua eficácia em nos mudar? Afinal, a Santa Missa é a renovação do Sacrifício do Calvário, cujo valor é infinito. E se confiamos verdadeiramente no poder da Liturgia em nos mudar, em nos converter, em nos santificar, em nos curar, por que não dizemos como o leproso: “Senhor, podeis curar-me”? Frequentemente, não pedimos a santificação, mas reduzimos a santidade à qual somos chamados a um mero cumprimento de deveres que nos evitam a condenação eterna. Vamos à Missa porque, se não formos, é pecado mortal. Confessamo-nos, porque, se não nos confessarmos, não podemos comungar. Comungamos, porque, se não comungarmos, parece-nos que a Missa não valeu. Com efeito, o leproso apresentou a sua doença a Nosso Senhor para ser curado; nós, por outro lado, somos doentes que escondemos as doenças de nossa alma de nós mesmos e de Nosso Senhor. De nós mesmos, porque não queremos escrutar a consciência, sob o medo de nos descobrirmos profundamente miseráveis; de Nosso Senhor porque, quantas vezes, entramos e saímos das cerimônias sem pedir uma verdadeira e autêntica conversão, como se fosse algo de acessório, e não a principal petição de nossa alma.

         É preciso notar também que, ao dizer “se queres, podes curar-me”, o leproso deixou Nosso Senhor livre para curá-lo ou lhe dar outra graça conforme a disposição da Sua vontade. Nós também podemos nos distanciar da adoração do leproso porque frequentemente rezamos sem procurarmos nos resignar à vontade de Deus, que é a nossa felicidade. Ninguém sabia melhor do que o leproso o quanto ele precisava ser curado, mas somente alguém como uma Fé imensa pode aceitar que Nosso Senhor lhe dê a cura ou algo melhor para a salvação da sua alma. Eis um ponto no qual devemos progredir na assistência da Santa Missa: quem assiste ao Sacrifício do Calvário deve se crucificar com Nosso Senhor, deve estender os braços com Ele e se convencer de que Deus nos ama mais e melhor do que nós mesmos e sabe do que mais precisamos. Não precisamos lhe dizer muitas coisas; precisamos, a exemplo do leproso, apresentar-nos como doentes de alma e esperarmos do Salvador as graças mais oportunas para a nossa santificação.

         A humildade e a confiança do leproso também se verificam no encontro de Nosso Senhor com o centurião. Enquanto em São Mateus é o centurião que fala, em São Lucas (cf. Lc. VII, 3; 6), ele envia primeiramente anciãos dos judeus, a fim de pedirem a cura do servo; em seguida, amigos, a fim de dissuadirem o Salvador de ir pessoalmente fazer o milagre. A humildade do centurião se verifica por meio destas embaixadas, porque não se julgava digno de ir ter com o Cristo, e por isso envia os outros. A confiança, por acreditar no poder de Nosso Senhor de curar à distância. Imbuído de tais virtudes, as palavras do centurião comoveram o Coração do Salvador: “Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha casa. Dizei uma só palavra e meu servo será curado.” (Mt. VIII, 8)

         Se a nossa Liturgia contém a reverência do leproso e as palavras do centurião, falta-nos agora adquirir as suas disposições de alma, sem as quais as mais profundas reverências e as mais belas palavras não merecerão de Nosso Senhor senão aquela reprimenda que Ele dirigiu aos judeus: “Este povo somente me honra com os lábios; seu coração, porém, está longe de mim. Vão é o culto que me prestam, porque ensinam preceitos que só vêm dos homens!” (Mt. XV, 8-9) Examinemos, hoje, nossa consciência, e peçamos a Nosso Senhor aquela graça principal da qual temos fugido, a graça da nossa conversão. Nosso Senhor curou o leproso e ouviu o centurião. Que ele nos cure e nos ouça.