Sermão da Festa da Sagrada Família

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Sermo in festo Sanctæ Familiæ

Bethlehem a Brasilia, 13 januarii A.D. 2019

Imitar Nosso Senhor em Sua vida oculta

 Desde a nossa infância, muito provavelmente ouvimos na paróquia, da parte do pároco ou da catequista, que a Sagrada Família é modelo para todas as famílias. Se aprendemos isso, o pároco e a catequista não erraram, pois este é o ensinamento da Igreja, que podemos encontrar na própria Coleta da Missa, que pede a graça de sermos instruídos pelos exemplos da Sagrada Família. Não obstante, a grande dificuldade das últimas décadas não consiste tanto na contestação deste divino modelo; a grande dificuldade consiste muito mais no fato de que a maioria de nós não sabe o que é uma família para ter na Sagrada Família um modelo.

         A título de comparação, em 1892, Leão XIII inicia uma carta apostólica (Neminem fugit) com as seguintes palavras: “A ninguém escapa que a felicidade privada e pública depende de modo particularíssimo da instituição familiar.” Era uma evidência, há pouco mais de um século, que a família é o fundamento natural da sociedade, além de uma igreja e escola doméstica. Hoje, uma parte considerável da sociedade contesta a própria existência da família natural, por não aceitarem mais que a natureza, criada por Deus, e não uma escolha pessoal, determine a identidade de cada um. Mas não é o caso de tratarmos das ideologias contrárias à família sem antes termos constatado que os laços familiares já foram afrouxados há décadas pela decadência religiosa da sociedade. Assim, a promoção do divórcio, da mentalidade contraceptiva, da infidelidade matrimonial pela segunda união, das uniões sem compromisso—que desprezam tanto o matrimônio natural quanto o Sacramento do matrimônio—, do aborto, da sodomia e, finalmente, de toda a libertinagem sexual só se tornou possível em uma sociedade que deixou de rezar e se instruir pela Fé da Igreja; e nós sabemos muito bem que a transição entre os anos 60 e 70 do século passado foi um período deveras conturbado para o Ocidente.

         A primeira causa da decadência familiar, portanto, é a decadência religiosa, de modo que podemos perfeitamente contestar as ideologias atuais contra a família sem termos necessariamente nascido em uma família que mereça este nome, sem termos conhecido verdadeiramente o que é uma família. As famílias já estavam decadentes, pela falta de oração e instrução religiosa, para que as leis iníquas fossem promulgadas sem grande resistência e para que as ideologias dominassem as escolas e universidades sem grande contestação.

         Diante da crise presente, é uma graça extraordinária não se deixar arrastar pelas modas e ideologias do mundo, pois a inimizade entre Nosso Senhor e o mundo é irreconciliável, como está escrito no Evangelho: “Se fôsseis do mundo, o mundo vos amaria como sendo seus. Como, porém, não sois do mundo, mas do mundo vos escolhi, por isso o mundo vos odeia.” (Jo. XV, 19)

         Não obstante, e voltando ao primeiro ponto da nossa reflexão, podemos muito bem nos opormos ao “espírito do mundo” defendendo a família natural, instituída por Deus, sem termos vivido em uma família. Sendo assim, seria possível, no nosso caso, que a Sagrada Família ainda fosse um modelo? Como ver em Maria Santíssima um modelo de mãe e em São José um modelo de pai—ainda que São José fosse apenas pai adotivo—se, para muitos de nós, a mãe ou o pai não passa de uma figura ausente—quando não ocasião de escândalo—e não é possível lembrar da própria infância ou pensar na própria família sem associá-la a inúmeros conflitos dos quais os filhos, de um modo ou de outro, pagam pelas falhas na personalidade e na formação? Ainda é possível a Igreja propor a Sagrada Família como modelo em uma sociedade em que praticamente já não há mães e pais dispostos a imitarem a Virgem Santíssima e a São José?

         Certamente sim. Primeiramente, porque os Santos não são apenas nossos modelos, mas também nossos intercessores. Ao Se incarnar, Nosso Senhor quis assumir todas as fases da vida humana, desde a gestação até a idade adulta. Escolhendo ter uma Mãe segundo a natureza humana, elegendo um pai adotivo e vivendo a vida doméstica durante toda a infância até o início do Seu ministério, o Salvador santificou a família, de modo que, se em tempos de crise faltam famílias íntegras e são poucos os que querem imitar a Sagrada Família, sempre será possível rezar à Família de Nazaré, pedindo a conversão dos nossos parentes, o que também é um dever de estado. E rezar à Sagrada Família pelos nossos parentes pode se revelar algo difícil quando ainda se guarda mágoas de familiares, ou quando o trauma causado pela mãe ou pelo pai impeça uma alma de se dirigir com confiança à Santíssima Virgem ou ao próprio Deus, que é Pai. Eis, portanto, uma graça que a Sagrada Família deve nos alcançar: o perdão das ofensas em família, por amor a Deus, que não merece ser ofendido.

         Em segundo lugar, se para muitas famílias, a mãe não seguiu o exemplo da Santíssima Virgem e o pai o de São José, nenhum de nós tem escusa para não imitar Nosso Senhor, Filho de Deus Pai, mas também Filho obediente à Sua Mãe, Maria Santíssima, e por causa do Matrimônio virginal dela com São José, obediente ao Seu pai adotivo. Nosso Senhor é modelo de Filho, e filho todos nós somos. Ainda que não possamos imitar o Redentor na Sua pobreza em Nazaré ou no aprendizado da profissão do Seu pai adotivo, podemos todos imitá-Lo no Seu escondimento, isto é, na Sua vida interior. Nosso Senhor é Deus, mas como diz a Liturgia, Ele é um Deus piedoso, porque neste mundo o Cristo rezou, e rezou muito. O abade Dom Chautard, na obra “A alma de todo apostolado”, nota que, em comparação com os três anos de vida apostólica de Nosso Senhor, houve trinta de vida oculta, razão pela qual o Aleluia da Missa cita o profeta Isaías ao dizer: “Verdadeiramente tu és um Rei escondido, Deus Salvador de Israel” (cf. Is. XLV, 15) Eis o quanto o mistério da vida oculta de Nosso Senhor deve envergonhar a nós todos, pois enquanto Deus onipotente Se esconde para rezar, obedecer e trabalhar, nós, miseráveis, frequentemente fugimos da oração, da humildade e dos deveres de estado!

         Devemos imitar Nosso Senhor em sua vida oculta, procurando fundar, ancorar, enraizar a nossa vida na oração, especialmente na meditação, que praticamente nenhum católico sabe fazer, e quando sabe, não pratica. Do contrário, que famílias os senhores pretendem construir no futuro, sem vida de oração e sem as virtudes domésticas, como a humildade e a obediência, que Nosso Senhor praticou exemplarmente? Que boa mãe ou que bom pai serão dois jovens católicos que não rezam, mas que se entregam aos mesmos vícios da juventude de nossa época, reduzindo a prática cristã aos debates inúteis da internet? É preciso que a juventude católica perceba que, por outras vias, pode cometer os mesmos erros dos pais. Sem oração a virtude não pode sobreviver; sem oração abundam os pecados veniais e rapidamente se alastram as tentações para os pecados mortais; sem oração não há forças para a mortificação, para a disciplina e o sacrifício, especialmente para se estudar e trabalhar. E dois jovens que não rezam apenas potencializam seus defeitos no namoro, porque nenhum dos dois está acostumado a praticar as virtudes, especialmente a castidade de alma e de corpo. E de um namoro sem oração e virtudes evidentemente não virá uma família santa e exemplar.

         Não nos esqueçamos de que houve um tempo em que este país foi católico, e, na verdade, não foi há muito tempo, mas há pouco mais de meio século. Não basta nos opormos às ideologias contrárias à família e ao matrimônio: nossos avós também conheciam o Catecismo, mas foi a geração deles que não transmitiu a Fé aos filhos—se por culpa própria ou não, não vem ao caso—, o que ocasionou os desastres matrimoniais da geração de nossos pais. Se os jovens não rezarem, enveredarão pela mesma via, ainda que conheçam o Catecismo melhor que os seus avós.

         Peçamos à Sagrada Família a graça da vida interior, e imitemos o escondimento de Nosso Senhor, por exemplo, pela resolução de eliminar uma rede social—da qual não dependemos para nada de verdadeiramente bom—e de limitar o uso do celular à noite, a fim de não prejudicar a oração e o descanso do corpo.

Padre Ivan Chudzik