Meditação – Solidão de Jesus na Gruta de Belém.

Ecce elongavi fugiens; et mansi in solitudine – “Eis que me alonguei fugindo, e permaneci na soledade”

Sumário

Afim de nos sugerir o amor a solidão e ao silêncio, quis Jesus nascer fora da cidade e numa gruta solitária. Felizes de nós se, á imitação de José e Maria, nos entretivermos com ele nessa santa solidão. Aí o divino Menino nos falará, não ao ouvido, mas ao coração. Vendo a sua pobreza, ouvindo os seus vagidos, considerando que um Deus se reduziu a tal estado pelo nosso amor, sentir-nos-emos atraídos suavemente a Ele, e não poderemos deixar de o amar de todo o nosso coração, copiando em nós as suas virtudes.

I

Nascendo Jesus, quis escolher para sua ermida e oratório a gruta de Belém, pelo que dispoz que nascesse fora da cidade, numa solitária espelunca, afim de nos sugerir o amor á solidão e ao silêncio. Jesus, na sua manjedoura, conserva-se silencioso; silenciosos Maria e José o adora e contemplam. – Foi revelado a Soror Margarida do Santíssino Sacramento (chamada a esposa de Jesus Menino), que tudo o que se deu na gruta de Belém, mesmi a visita dos pastores e a adoração dos santos Magos, foi tudo feito em silêncio.

O silêncio das demais crianças provém da sua impotência, mas em Jesus Cristo foi virtude. Jesus Menino não fala, mas quanto nos diz o seu silêncio! Feliz daquele que na santa solidão do presépio se entretem com Jesus, Maria e José! Por pouco que o pastores ali se tenham demorado, voltaram todo abrasados no amor divino, pois que não cessavam de o louvar e bendizer: Reversi sunt laudantes et glorificantes Deum. Ó feliz da alma que de Belém para contemplar a misericórdia divina e o amor que Deus teve e ainda tem aos homens.

Ducam eam in solitudinem et loquar ad cor eius – “Eu o levarei a solidão e lhe falarei ao coração”. Na sua solidão o divino Menino nos falará, não ao ouvido, mas ao coração, convidando-nos ao amor de um Deus que tanto nos ama. Contemplando ali a pobreza daquele lindo ermitãozinho, que está numa fria espelunca, sem lume, com uma manjedoura por berço e um pouco de palha por colchão; ouvindo os vagidos, e vendo as lágrimas daquele menino inocente; considerando, enfim, que ele é o nosso Deus, como poderemos pensar em outra coisa que não seja amá-lo? Ah! que doce ermida é para uma alma de fé a gruta de Belém, na qual o Senhor nos fala e conversa conosco, não como rei, mas como amigo, irmão e esposo! Oh! que paraíso é o conversar a sós com Jesus Menino na lapinha de Belém!

II

Imitemos Maria e José, que, abrasados em amor, se deteem na contemplação do grande Filho de Deus, feito homem e sujeito ás misérias terrestres. Contemplam á sabedoria feita criança sem fala; o grande feito pequenino; o supremo tão humilhado; o rico feito tão pobre, o todo-poderoso feito fraco. Numa palavra, considerando a majestade divina oculta sob a forma de uma criança pequenina, desprezada e abandonada do mundo, fazendo e padecendo tudo para se tornar amável aos homens, roguemos-lhe que nos admita ao seu santo retiro. Paremos ali e nunca mais dali nos afastemos.

Querido Salvador meu, Vós sois o Rei do céu, o Rei dos reis, o Filho de Deus; como estais pois nessa gruta, abandonado por todos? Para Vos assistir não vejo senão José e a vossa santa Mãe. Desejo ajuntar-me a eles para Vos fazer companhia. Não me recuseis. Não sou digno disso, mas sinto que me convidais com os vossos doces convites interiores. Sim, a Vós venho, ó amadíssimo Menino; deixo tudo para ficar só convosco, durante toda a minha vida, ó meu querido Solitário, único amor de minha alma. Que insensato que sou! no passado Vos abandonei e Vos deixei só, meu Jesus, e fui mendigar junto das pobres criaturas prazeres miseráveis e venenosos; mas agora, iluminado pela vossa graça, não desejo senão viver só convosco, que quereis viver solitário na terra.

Quis dabit mihi sicut columbae? volabo et requiescam – “Quem me dará asas como da pomba? voarei e descansarei”. Ah! quem me dera poder fugir deste mundo, onde tantas vezes achei minha ruína; fugir dele e ficar sempre convosco, que sois a alegria do paraíso e amigo verdadeiro de minha alma. Senhor, prendei-me aos vossos pés, afim de que me não aparte mais de Vós, e goze a felicidade de Vos fazer companhia. – Ah! pelos merecimentos de vossa solidão na gruta de Belém, concedei-me recolhimento contínuo; de tal forma que a minha alma se torne uma cela solitária, na qual a minha única ocupação seja entreter-me convosco, submeter-Vos todas as minhas ações e pensamentos, consagrar-Vos todos os meus afetos, amar-Vos sempre e suspirar sem cessar por sair da prisão do meu corpo, para Vos ir amar sem véu no paraíso. Amo-Vos sempre, no tempo e na eternidade. – Ó Maria,  ó vós que podeis tudo, pedi a Jesus que me prenda com os laços do seu amor e não permita me suceda perder novamente a sua graça.

 

Extraído de “Meditações para todos os dias do ano” – Tomo III

Por Santo Afonso Maria de Ligório