Sermão do IV Domingo do Advento

  Sermo in IV dominica Adventus

Bethlehem a Brasilia, 23 decembris A.D. 2018

Sem as resoluções, o orvalho da graça não durará em nossa alma

         Antes de a Igreja renovar em nós a graça da Natividade, pela terceira vez no Advento o Evangelho esconde Nosso Senhor sob a figura de São João. Recordemos que, no segundo domingo do Advento, o Batista envia seus discípulos para verem e ouvirem o Cristo, a fim de saber se era Ele que deveria vir ou se deveriam esperar um outro; enquanto que no terceiro domingo, os judeus enviam sacerdotes e levitas para interrogarem o próprio Batista se Ele era o Cristo. De fato, podemos nos perder em muitas ilusões na vida espiritual, ou nos enganando sobre quem é Deus ou sobre os meios que nos conduzem até Ele. Em contrapartida, ouvimos no Evangelho deste quarto domingo: “[…] veio a Palavra do Senhor no deserto a João […]” (Lc. III, 2). Donde a nossa insistência em tratar o Advento como um retiro: porque precisávamos nos afastar do mundo neste tempo litúrgico a fim de ouvirmos a voz de Deus que ressoa na consciência, e que tantas vezes é ignorada quando se cede à desordem das paixões.

         Para tanto, observemos o interessante contraste entre o primeiro e o segundo versículo do Evangelho: após São Lucas ter elencado as autoridades daquele tempo, diz em seguida que “[…] veio a Palavra do Senhor no deserto a João […]”, sem que o evangelista tivesse estabelecido nenhuma relação de causa e efeito, ou seja, as autoridades não receberam a Palavra do Senhor e em nada colaboraram para que São João a recebesse. Se vivemos bem o Advento neste ano podemos compreender melhor este contraste: enquanto o mundo deposita a sua confiança nos meios materiais e nas autoridades civis—pensemos especialmente nas eleições deste ano—, a Providência dirige a História por meios desprezados pelos homens, como São João Batista no deserto. E se Nosso Senhor elogiou a penitência do Precursor (cf. Mt. XI, 7-8) em contraste com o luxo daqueles que vivam nos palácios, como ouvimos no segundo domingo do Advento, é de se supor que o convívio com os mundanos ou a frequentação do mundo sem grandes preocupações de limitarmos este convívio e de nos distinguirmos, pela integridade dos costumes, pode trazer para nós a mesma condenação que recai sobre o mundo.

         Muito necessário, portanto, foi este retiro do Advento, que amanhã irá se findar, porque a Palavra do Senhor se ouve no deserto, onde não há nada de atrativo aos sentidos ou às paixões; onde estaremos “a sós com o Só”, segundo a expressão de Santa Elisabete da Trindade. Solidão esta tanto mais necessária porque, como afirma o apóstolo na epístola de hoje: “Ele porá às claras o que se acha escondido nas trevas. Ele manifestará as intenções dos corações.” (I Cor. IV, 5) Somente entrando no deserto veremos as densas trevas dos nossos vícios e a malícia subjacente em muitas de nossas ditas “boas intenções”. Mas para seguir os passos de São João Batista e entrar no deserto do recolhimento, da oração e da penitência, temos que nos decidir em abandonar os palácios, pois os que vivem nos palácios levaram à morte tanto o Precursor quanto o Cristo. E quais são os “palácios” de nossos tempos senão as lojas, por seus encantos, os bares, com seu fastio fugaz, as praias, com as suas vaidades e escândalos, ou as festas com suas euforias, que se estendem madrugada afora? Alguns de nós fizeram um esforço de recolhimento durante o Advento, mas é provável que este recolhimento se perca justamente na iminência das grandes graças do Natal, seja pelos maus ambientes e circunstâncias que frequentaremos, seja pelo tempo excessivo perdido em bons ambientes ou pelas más companhias durante este período de férias e festejos.

         Em segundo lugar, este retiro se fez necessário porque, como diz a Coleta, nossos pecados afastam de nós a Pessoa de Nosso Senhor e as Suas graças. O Advento serviu para acelerar a vinda do Salvador à nossa alma,  santificando nosso recolhimento, oração e penitência, como ainda suplica a Coleta de hoje: “et magna nobis virtute succurre”, isto é, “e socorrei-nos com o Vosso grande poder”. O poder de Nosso Senhor para nos santificar é grande, mas uma vez que a graça do Natal consiste em renovar em nossas almas a primeira vinda do Salvador, isto significa que não devemos esperar que ela seja “cum potestate magna”, ou seja, “com grande poder”, porque assim será apenas a segunda vinda, o Seu retorno triunfal para julgar os vivos e os mortos.

         A primeira vinda, bem sabemos, foi humildade, silenciosa e oculta, de modo que o Intróito, citando o profeta Isaías, compara-a ao orvalho: “Que os céus, das alturas, derramem o seu orvalho, que as nuvens façam chover o justo; abra-se a terra e brote a felicidade e, ao mesmo tempo, faça germinar o salvador!” (Is. XLV, 8) Assim, se Igreja pede a graça da vinda de Nosso Senhor ao longo do Advento, e sendo este novo nascimento puramente espiritual e interior, não esperemos uma mudança súbita e radical durante a Liturgia do Natal, pois, como bem comparou o profeta, a graça da Natividade irá se derramar em nossas almas à semelhança do orvalho, cuja precipitação é praticamente imperceptível, ou da chuva, que exige tempo para umedecer e encharcar uma superfície, e irá brotar à semelhança das plantas, que exigem múltiplos cuidados para crescer até produzirem frutos. Com efeito, se a cada vez que pecamos empregamos a inteligência e a vontade para ofender a Deus, Nosso Senhor prefere nos dar a graça ao mesmo tempo em que permite novas ocasiões de pecado, a fim de empregarmos a mesma inteligência e a mesma vontade para nos conduzirmos pelo caminho oposto, isto é, o da virtude, reparando as faltas passadas, crescendo em graça no presente e aprovisionando méritos para a eternidade.

         Deste modo, quando a graça da Natividade se derramar em nossas almas, sairemos da Liturgia como São João Batista do deserto, cuja pregação consistia naquilo que dizia o profeta Isaías, citado pelo evangelista: “Todo vale será aterrado, e todo monte e outeiro serão arrasados; tornar-se-á direito o que estiver torto, e os caminhos escabrosos serão aplainados.” (Lc. III, 5) A graça da Natividade não irá nos mudar sem que nos proponhamos a uma vida nova tomando boas resoluções, conforme à graça recebida, o que exige o emprego da inteligência e da vontade, pois do contrário, seremos levianos, quando não presunçosos, esperando uma mudança extraordinária sem nenhum esforço de nossa parte.

         Ainda que São Paulo trate do sacerdócio na epístola da Missa, podemos muito bem aplicar as suas palavras a cada católico, na medida em que diz: “[…] o que se exige dos administradores é que sejam fiéis.” (I Cor. IV, 2) Cada um de nós tem a obrigação de administrar fielmente as graças recebidas, empregando a inteligência e a vontade para não perder, e sim fazer crescer os dons recebidos.

         Se queremos que Nosso Senhor nasça em nossas almas, devolvamo-Lhe nossas potências superiores e não façamos da nossa participação da Liturgia um mera devoção passageira, quando esperamos receber consolações sem a disposição de fazer da vida espiritual um combate. Mesmo pequeno e ainda na manjedoura, o Nosso Senhor teve que combater os príncipes deste mundo, fugindo para um deserto, o Egito. Se a São José foi dada, naquela ocasião, a imensa graça da custódia do Menino Jesus, na Liturgia do Natal a Igreja nô-Lo dará espiritualmente à nossa alma, esperando que nós O protejamos, como fez São José, e não que O matemos, como pretendeu Herodes. Para tanto, aproveitemos os últimos instantes de Advento para tomarmos resoluções sérias contra nossos pecados habituais, a fim de “prepararmos os caminhos do Senhor”, e a primeira delas é o firme e sincero desejo de não mais cair em pecados graves, que são a morte de Deus em nossa alma. Somente assim Nosso Senhor permanecerá conosco, como diz o Salmo do Gradual: “O Senhor se aproxima dos que o invocam, daqueles que o invocam com veracidade.” (Sl. CLXIV, 18) As resoluções farão a graça fecundar, e tornarão a nossa vida espiritual veraz e não falaz.

Padre Ivan Chudzik