Sermão do III Domingo do Advento

Sermo in III dominica Adventus
Bethlehem a Brasilia, 16 decembris A.D. 2018

A alegria de possuir Deus, vitória contra as solicitações e preocupações do mundo

Transcorridas duas semanas deste tempo litúrgico que devemos viver como um retiro, pregado pela própria Igreja, no terceiro domingo do Advento a penitência cede lugar à alegria pela proximidade do Salvador, como diz o apóstolo na epístola da Missa: “O Senhor está próximo.” (Fl. IV, 5) Em contrapartida, numa antífona das primeiras Vésperas do I domingo do Advento, a Igreja cantava citando o profeta Isaías (XXX, 27): “Eis que o nome do Senhor vem de longe […]”. O Senhor vem de longe porque nós, como filhos pródigos, afastamo-nos da casa paterna e fugimos das nossas obrigações, e quem sabe da própria graça. Antes que o Cristo venha realizar a justiça no Juízo final, Ele não cessa de vir todos os anos, no Natal, assim como em todos os instantes da nossa vida, a fim de nos aplicar a Sua misericórdia, mas isso não sem pedir a nossa cooperação. Disse Santo Agostinho: “Deus, que nos criou sem nós, não quis salvar-nos sem nós” (Sermo 169); o que significa que se não quisermos cooperar com a graça, ainda que a Liturgia cante que “o Senhor está próximo” Ele continuará longínquo das almas que não se propuseram viver este tempo litúrgico como um retiro, com seriedade e generosidade. Para muitos de nós, o Advento sequer começou; e consequentemente não haverá Natal, ou melhor, não haverá a aplicação da graça da Natividade, porque o Natal de um católico não se resume em enfeites, presentes ou na ceia em família. Enquanto o Cristo está para nascer novamente pela Liturgia, quão triste constatar que muitos estão avessos à graça à semelhança do rei Herodes, que insinuou interesse em venerar o Menino Jesus, quando, na verdade, pretendia matá-Lo, porque o pecado mortal não deixa de ser a “morte de Deus” na alma do pecador.
Mas se fizemos um mínimo de violência contra nós mesmos, procurando pôr em prática as resoluções propostas nos últimos dois domingos, então temos motivos para nos alegrarmos com a Igreja neste domingo. Com efeito, é preciso reconhecer que os vícios produzem na alma uma certa dependência e escravidão que a impede de ser verdadeiramente livre e alegre. Há almas que pecam “por rotina”, não tendo mais “gosto” no pecado, mas sem conseguir se livrar das cadeias que este produz. O retiro do Advento serviu até então para nos afastar das solicitações do mundo, a fim de permitir que Nosso Senhor Se aproximasse de nós. Donde termos sugerido mortificações associadas ao uso do celular—a saber, limitar a conexão ao mundo virtual, evitar ler ou escrever em debates inúteis e fechar a conta em alguma rede social sem utilidade verdadeira—, pois, atualmente, quando não se peca pelo celular, pelo menos se perde um tempo considerável com ele, o qual deveria ter sido reservado à oração, ao estudo e ao descanso legítimo do corpo.
De fato, Nosso Senhor não pode Se aproximar de nós se ainda estivermos no sono da tibieza ou nas prisão das paixões; e esta é a graça própria do Advento: reaver a nossa liberdade para servirmos a Deus com alegria. Diz o verso do Intróito: “Fostes propício, Senhor, à vossa terra; liberastes Jacó da escravidão” (Sl. LXXXIV, 2). Pela graça de Deus é possível, e perfeitamente possível, vencer toda e qualquer escravidão, desde o mais inveterado pecado mortal até o mais sutil orgulho espiritual. Não obstante, a liberdade que Nosso Senhor quer nos conquistar no Advento não consiste na ausência das tentações do demônio, das vaidades do mundo ou da própria concupiscência. O que atrasa muitos de nós na vida espiritual é a ilusão de que bastaria a Confissão ou a Comunhão para se obter vitória contra um vício; na verdade, assim que a tentação retorna, uma nova ocasião de pecado se apresenta ou a natureza decaída se revolta, fácil seria recair quando não há vigilância e combate. A necessidade do combate espiritual está afirmada na epístola de hoje quando o apóstolo diz: “Alegrai-vos sempre no Senhor. Repito: alegrai-vos!” (Fl. IV, 4) Não nos esqueçamos de que, no domingo anterior, dissemos que um católico deve se alegrar com a prática da Religião, mas esta alegria não exclui o combate, porque se trata de uma alegria espiritual e interior, que pode muito bem subsistir na alma durante a tentação, e não apenas isso: a alegria cristã se torna um alimento, uma provisão durante o combate espiritual, a ponto de o demônio precisar desviar uma alma da alegria espiritual se quiser lhe propor as falsas consolações deste mundo.
E no que consiste a alegria cristã senão na presença da Santíssima Trindade em nossa alma pela graça? Em comparação com a in-habitação divina, toda tentação se revela uma loucura abominável. Donde o apóstolo dizer: “Não vos inquieteis com nada! Em todas as circunstâncias apresentai a Deus as vossas preocupações, mediante a oração, as súplicas e a ação de graças.” (Fl. IV, 6) O apóstolo não dá nenhuma exceção: nada deve ser objeto de inquietação, mas tudo deve ser apresentado em oração. Quem não considera e frequenta a suave presença de Deus na alma não vive em “quietude”, isto é, no repouso que proporciona a vida interior, porque seus sentidos o solicitam sempre para considerar e frequentar tudo o que se apresenta fora, razão pela qual esta alma está sempre inquieta, agitada pelo ímpeto das paixões.
Assim como no domingo anterior Nosso Senhor elogiou a firmeza de vontade de São João Batista, no terceiro domingo do Advento a Igreja nos exorta a esta mesma firmeza pela fuga das solicitações nascidas das tentações e das preocupações presentes nas tribulações. Afinal, é um erro da nossa parte julgar que não precisamos apresentar em oração toda e qualquer circunstância da nossa vida. É um erro dizer palavrões ao invés de invocar a Santíssima Virgem nas cruzes do quotidiano; é um erro “falar sozinho” quando não estamos sozinhos e podemos muito bem nos dirigir ao nosso Criador a cada instante; é um erro nos resignarmos ao “curso natural” das coisas, como se a Providência não ordenasse a própria natureza ao bem da nossa alma. De tal modo a oração é necessária e útil em todas as circunstâncias, que a Coleta da Missa pede para que o próprio Deus “acomode o Seu ouvido à nossa prece”, manifestando assim a imensa solicitude de Nosso Senhor para conosco. E quem reza, considera a presença de Deus na alma, fonte da mais suma alegria espiritual, e já não se move conforme as solicitações e preocupações que sofre de fora, mas a fim de conservar esta alegria que possui no seu íntimo, como ouvimos na epístola de hoje: “E a paz de Deus, que excede toda a inteligência, haverá de guardar vossos corações e vossos pensamentos, em Cristo Jesus.” (Fl. IV, 7)
Para tanto, tomaremos o diálogo de São João Batista com os sacerdotes e levitas num sentido moral a fim de aprendermos do Precursor o fundamento da sua firmeza de vontade. Os representantes dos fariseus lhe perguntaram: “Quem és tu?” (Jo. I, 19) Convém também ouvirmos esta interrogação como se fosse dirigida a cada um de nós: “Quem sou eu?” Afinal, se desistimos da virtude tantas vezes nas tribulações e tentações é porque, dentre outras causas, não temos um verdadeiro conhecimento de nós mesmos, da nossa pequenez e miséria; e movidos por tal cegueira agimos como se estivéssemos no centro, como se apenas houvesse os nossos interesses a serem considerados. Com São João Batista devemos também reconhecer que não somos “especiais” como julgamos ser, não somos “excelentes” como pretendemos ser, não somos “grandes” como insinuamos ser, não somos “indispensáveis” como fazemos crer. E se não temos nada de especial, de excelente ou de grande por nós mesmos, também não temos nenhuma desculpa para não praticar a virtude, nenhuma licença para nos excedermos durante a tribulação ou cedermos durante a tentação. Do contrário, como pretendemos que o Menino Jesus nasça numa alma cheia de si mesma e complacente com as suas obras? Por esta razão, a Coleta da Missa pede a graça de que a visita de Deus ilumine as trevas interiores da nossa inteligência. Com efeito, não podemos cair na condenação do Precursor do Messias àqueles que o interrogavam: “[…] no meio de vós está quem vós não conheceis.” (Jo. I, 26)
Não obstante, São João se definiu “[…] a voz que clama no deserto” (Jo. I, 23) Dele devemos aprender a não sermos mais do que uma voz, para falarmos com Nosso Senhor e falarmos de Nosso Senhor, ao invés de nos fazermos o centro de nós mesmos. Com ele devemos ir para o deserto do recolhimento e da oração procurar a alegria espiritual ao invés de ficarmos no mundo sob o fastio da vaidade e das paixões.
Dito isso, tomemos uma resolução: evitar, ao menos até o fim do Advento, de fazer postagens ou compartilhamentos virtuais que, de alguma maneira, põem-nos no centro das atenções; mortificaremos também a curiosidade de procurar ou acessar conteúdos que comunicam não mais que uma alegria vã e fugaz. Duas semanas ainda nos restam e não podemos perder os frutos que já colhemos, assim como devemos procurar frutificar mais enquanto ainda estamos neste tempo privilegiado de retiro. Se o orgulho nos conduziu até hoje aos excessos das paixões, a partir de hoje a humildade nos fará repousar na alegria de fazer da própria alma uma manjedoura para o Sumo Bem, Nosso Senhor Jesus Cristo.

Padre Ivan Chudzik – IBP