Sermão do I Domingo do Advento

Sermo in I dominica Adventus
Bethlehem a Brasilia, 2 decembris A.D. 2018

Despertar do sono e fazer do Advento um retiro

Entre o domingo anterior e este domingo não há praticamente diferença no Evangelho escolhido para a Liturgia, com exceção de que hoje ouvimos São Lucas, e no domingo anterior, São Mateus. Ambos os domingos tratam do fim do mundo; o que significa que o ano litúrgico termina e recomeça com a mesma temática, a saber: a segunda vinda de Nosso Senhor. E não poderia ser diferente: a lei da oração é a lei da Fé, ou seja, a Igreja reza como ela crê. Desde o pecado de Adão sabemos que estamos fadados à morte do corpo; e desde a primeira vinda de Nosso Senhor sabemos que Ele retornará em glória para julgar os vivos e os mortos, de modo que a missão da Igreja não pode consistir em promover uma mera justiça social ou a simples alta cultura e certos valores morais; a missão da Igreja consiste em nos preparar para o juízo, seja o particular, que sucederá imediatamente a nossa morte, seja o universal, quando haverá o fim da História.
Não obstante, ainda que a missão da Igreja seja aplicar nas almas a salvação de Nosso Senhor; ainda que cada católico aguarde o dia da própria morte e a sociedade aguarde o do seu próprio fim, o Evangelho do fim do mundo não é lido mais do que duas vezes no ano litúrgico—ao princípio e ao término—, e não a cada domingo ou então a cada Missa. Isso porque a ação da Igreja não se reduz a incutir nas almas o temor servil, isto é, quando alguém se abstém do pecado apenas por temor das penas merecidas, e não por amor à justiça. Ao princípio e ao fim do ano litúrgico, a Igreja quer que os seus filhos não se esqueçam que o tempo vai se findar, que o tempo passa e que o tempo é curto. Não sabemos quando será o fim da História, mas para aqueles que foram ceifados pela morte, este mundo já acabou e a eternidade já começou. Assim, precisamos temer por nossa eternidade, mas sem fazer da vida espiritual uma mera fuga do pecado e das suas penas, porque o temor servil pode muito bem se mesclar com a presunção de “converter-se depois” ou de “converter-se no fim”. Afinal, se o que importa é tão-somente não cair no inferno, fácil seria adiar a conversão e continuar pecando enquanto se tem saúde, juventude ou meios para tanto.
A Igreja não quer que seus filhos se importem em obter ou recuperar o estado de graça apenas por temor servil. Por isso, ela nos faz contemplar a cena do fim do mundo dentro de um ciclo, o ano litúrgico, que percorre a vida do Salvador, de modo que este domingo é o primeiro do Tempo do Advento, isto é, o tempo de preparação à Natividade de Nosso Senhor. Todavia, o ano litúrgico não pode ser concebido como uma simples comemoração de eventos do passado, porque consiste principalmente na aplicação atual das graças anexas a cada mistério da Vida do Salvador, graças estas presentes no Sacrifício do Calvário, uma vez que a Paixão de Nosso Senhor contém todas as fases de Sua Vida, já que é a suma expressão da caridade do Salvador, de modo que a cada vez que a Missa é celebrada, é todo o mistério de Cristo que se torna presente pelo Sacrifício eucarístico. Assim, ao longo do ano litúrgico, a Igreja dispõe as riquezas de graça sintetizadas na Missa, aplicando de maneira particular, no tempo litúrgico próprio a cada mistério, as graças do Natal, da Epifania, da Páscoa e mesmo de Pentecostes.
Torna-se evidente, portanto, que a Igreja não se importa tão-somente em nos conduzir ou nos manter em estado de graça; ela quer que cheguemos, como disse São Paulo, ao “estado de homem perfeito”, à “estatura da maturidade de Cristo” (cf. Ef. IV, 13), fazendo-nos percorrer os mistérios da Vida do Salvador a fim de nos conformar a Ele, e isto não pode ser separado do estado de graça, como também disse o apóstolo: “Todos vós que fostes batizados em Cristo, vos revestistes de Cristo.” (Gal. III, 27) A graça do Batismo não pode “se estagnar”: se acreditamos nos santos, acreditamos também que recebemos um chamado à santidade desde o Batismo, e este chamado consiste justamente em nos revestirmos de Nosso Senhor, vivendo da Sua Vida, razão pela qual devemos ir à Missa muito mais do que “para cumprir preceito”, mas procurando lucrar as graças próprias de cada ato litúrgico e de cada tempo litúrgico.
E isso é um convite para vivermos este Advento com uma seriedade que até então nos faltou. Como dissemos há pouco, frequentemente alguém pode se abster do pecado muito mais por temor das suas penas do que por amor a Deus, conservando na alma o hábito, ou melhor, o vício, daquele pecado. Se não combater este vício, cedo ou tarde o pecador vem a retornar ao pecado, ainda que ele conheça bem as suas penas. Quando se apresenta à Confissão, a Teologia moral chama tal penitente de reincidente, isto é, o que retorna aos pecados confessados por causa da ausência ou do pouco empenho em evitá-los. Considerando as raízes fundas que certos pecados costumam causar, somente um esforço constante e disciplinado poderia extirpá-los das almas, o que geralmente se obtém durante um retiro ou exercícios espirituais, ocasião para se afastar do mundo, buscar com mais insistência a graça e formular boas resoluções. Ora, o Advento—assim como a Quaresma—não deixa de ser o retiro da Igreja, pregado pela própria Igreja através da Liturgia. Assim deveremos vivê-lo neste ano e dora diante: com a seriedade de um retiro, porque ninguém entra num retiro para se entregar ao pecado, porém para vencê-lo.
A epístola da Missa está impregnada de tal espírito. São Paulo declara: “Já é hora de despertardes do sono.” (Rom. XIII, 11) Com efeito, aquele que dorme, ainda que não esteja morto, não age, mas pensa que age, por causa dos sonhos. O sono é interpretado como a inércia na vida espiritual daqueles que conservam o estado de graça mas não progridem, por causa de alguma ilusão que os prende nesta inércia, assim como aquele que sonha tem a impressão de agir e fazer grandes coisas, quando na verdade não passa de uma fantasia da imaginação. Assim, no que concerne a nossa vida interior, sonhamos com a santidade em um dia vindouro, quando ainda somos bastante negligentes na oração; sonhamos com a cessação de um vício, quando ainda não fugimos das ocasiões e não formulamos resoluções para combatê-lo; sonhamos em adquirir grandes conhecimentos em matéria de doutrina, quando ainda perdemos tempo com entretenimentos fúteis ou ociosidade. E os sonhos se tornam mais perigosos no que concerne o apostolado: sonhamos em fazer grandes obras pela Cristandade, quando não nos preocupamos sequer em santificar a própria alma; sonhamos em converter multidões, quando não rezamos para pedir a graça da conversão dos outros; sonhamos em extirpar as heresias da sociedade, quando o nosso apostolado se deixa fundamentar por pensadores que sabidamente não crêem em tudo o que a Igreja ensina e assim por diante. Se hoje a Igreja nos apresenta o relato do fim do mundo é para que despertemos deste torpor e nos levantemos sem tardar, porque, como disse São Paulo: “A salvação está mais perto do que quando abraçamos a fé.” (v. 11) Se o Senhor está próximo, não temos tempo a perder. Donde a Coleta da Missa pedir a graça de sermos livres dos perigos iminentes dos nossos pecados, pois se continuarmos por mais tempo no sono da tibieza, da fraqueza, da preguiça, da ociosidade e da inconstância, ele se converterá rapidamente na morte da nossa alma.
Durante este retiro que é o Tempo do Advento, devemos nos revestir das armas da luz (cf. Rom. XIII, 12), esperando a vinda dAquele que é a Luz de Deus, o Cristo. Para tanto, gostaria de propor um exercício, uma mortificação, que será de grande utilidade para o nosso adiantamento espiritual: moderar a conexão à internet no celular. Tamanho é o mal que o vício do celular produz nas almas que isso nos impede de tratar de Fé e Moral apenas em termos abstratos, obrigando-nos a dar um conselho que deveria se restringir à Confissão e à direção espiritual; mas como iremos viver o Advento neste ano como um verdadeiro retiro, é preciso que façamos um esforço para nos retirarmos na medida do possível, e nada mais oportuno do que diminuir o uso do celular, especialmente por causa do acesso fácil que ele proporciona ao mundo virtual, fonte de inúmeros pecados, desde a ociosidade até a impureza. Durante o Advento, façamos o propósito de limitar o acesso à internet especialmente durante a noite, cortando a conexão—e talvez um alarme ajude a nos lembrar disso—num horário conveniente, a fim de não prolongarmos demasiadamente o uso do celular, o que frequentemente nos impede de fazer a oração da noite e dormir cedo. E quem não reza à noite e descansa pouco não tem vontade nem disposição para fazer a oração da manhã no dia seguinte, sendo que da oração da manhã depende a santificação de todas as atividades daquele dia, porque é de manhã que convém fazer a meditação e tirar dela as resoluções. Portanto, urge pôr um freio nesta fonte traiçoeira de ociosidade, dando mais tempo à oração, ao estudo e ao descanso legítimo do corpo.
Assim como a preparação para a segunda vinda de Nosso Senhor se dá pela primeira, do mesmo modo, a preparação à primeira vinda, isto é, à graça do Natal, se dá pela consideração da segunda. Estamos a cada instante que passa mais próximos do encontro com Nosso Senhor, e não podemos fracassar a oportunidade que a Igreja nos dá de fazer do Advento um retiro.

Padre Ivan Chudzik