Sermão do XXV Domingo Depois de Pentecostes

Sermão para o 25º Domingo depois de Pentecostes
11.11.2018 – Padre Daniel Pinheiro, IBP

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.
Ave Maria…

Nós temos hoje, caros católicos, a parábola da cizânia e do trigo, quer dizer, de como crescem juntos no mundo e na Igreja os maus e os bons. Na parábola, temos o campo, que é o mundo. O homem que semeou que é Deus. Deus fez todas as coisas boas, como nos diz também a Sagrada Escritura após a criação: Deus viu que tudo era muito bom. O inimigo do homem, que é o demônio, semeou a cizânia no meio do trigo. De fato, o demônio que nos trouxe o pecado, a morte, o sofrimento ao tentar nossos primeiros pais, Adão e Eva.
Nós vemos na parábola como bons e maus crescem juntos no mundo e na Igreja. Nosso Senhor não permite que sejam arrancados, a não ser no momento da ceifa, isto é, somente no fim do mundo é que serão separados bons e maus. Deus deixa que cresçam juntos aqui nesse mundo e mesmo dentro de sua Igreja. A presença dos maus, e sua presença numerosa e o fato de eles crescerem, isto é, de que tenham certa prosperidade, é muitas vezes um motivo de escândalo para os bons. Quando falamos aqui dos bons, falamos daquele que, ajudado com a graça de Deus, procura realmente converter-se a Deus, lutando para abandonar o pecado, ainda que caia algumas vezes. O mau é aquele que já não procura a Deus ou não faz realmente um esforço sério para converter-se a Deus, ainda que pareça fazer. Muitos maus estão nas nossas igrejas católicas, com frequência aproximam-se da comunhão, louvam os discursos e sermões e louvam os bons costumes, mas, de fato, não vivem assim…
Por que deixa Deus que cresçam os maus? Primeiro, que os maus tenham certa prosperidade aqui na terra é bem natural. Mesmo os maus fazem algo bom. É preciso que recebam a recompensa justa por esse bem. Como não receberão a recompensa na vida eterna, Deus permite que tenha alguns bens temporais já aqui nesse mundo. A prosperidade temporal dos maus não deve ser motivo de escândalo para nós. Isso entra perfeitamente dentro da providência divina e de sua justiça.
Em segundo lugar, Deus deixa que cresçam os maus porque, nesse mundo, a cizânia ainda pode transformar-se em trigo. Os maus podem converter-se, como um São Paulo, como um Santo Agostinho, como uma Maria Madalena. Quantos de nós, que hoje procuramos servir a Deus com sinceridade não fomos antes cizânia? E se tivesse sido aplicado a nós o rigor que às vezes queremos com os outros não estaríamos hoje aqui, buscando servir a Deus, mas teríamos sido arrancados. Deus dá, então, um tempo oportuno para a conversão dos maus. Se ainda somos desses maus, que não procuram a conversão a Deus, lutando resolutamente contra o pecado e a ocasião de pecado, aproveitemos esse tempo agora, antes que nos encontre a ceifa.
Em terceiro lugar, Deus deixa que cresçam juntos cizânia e trigo, maus e bons porque, muitas vezes, não podemos saber quem realmente é bom e quem realmente é mau, e julgaríamos somente pela aparência. E poderíamos, nesse caso, prejudicar os bons e fazer que crescessem indevidamente os maus.
Deus deixa que cresçam os maus para o bem dos bons. A Sagrada Escritura nos diz que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus. A presença dos maus no mundo e na Igreja também coopera para o bem dos bons. Os bons, de fato, são exercitados pelos maus, pois os maus são ocasião para que os bons pratiquem a virtude: atos de humildade, paciência, caridade. Os bons são levados a mais orações e penitências para que os maus de convertam, vejamos o exemplo dos pastorinhos de Fátima rezando e fazendo penitências pela conversão dos pecadores. A coroa e a glória do martírio, tão excelente, apenas existe porque há os maus. Sim, a presença dos maus ajuda espiritualmente os bons, como que dando ocasião para a prática das virtudes e dando ocasião para exercer a confiança na providência divina.
Nosso espírito ainda muito humano tenderia a querer ceifar de uma vez todos os maus do mundo. Nisso, haveria prejuízo para os bons, como acabamos de indicar. Está claro que, na medida em que pudermos, devemos evitar a convivência com os maus que são para nós ocasião de pecado. Está claro que em certos casos os maus devem ser excluídos da Igreja pela excomunhão quando há certos pecados gravíssimos. Muitas vezes, deverão ser excluídos da sociedade pela prisão ou mesmo pela pena de morte em casos gravíssimos. Todavia, no mais das vezes, teremos que conviver com a cizânia, com os males e tirar proveito disso para a nossa alma, exercendo a virtude e confiando na providência divina. Não podemos puramente eliminar a cizânia.
A cizânia cresce entrelaçada ao trigo e muito semelhante a ele. É somente ao fim que podem se diferenciar mais claramente e serem separados. A cizânia para ser queimada no fogo do inferno, o trigo para ser colocado no celeiro divino. Querendo arrancar a cizânia, muito do trigo também se perderia. Assim vai no mundo e na Igreja. Tirar dos os maus traria prejuízo para os próprios bons. E mesmo alguns bons seriam arrancados, confundidos com a cizânia. Não é possível que se arranque a cizânia, a não ser em casos muito claros.

A presença dos maus no mundo e na Igreja não deve nos escandalizar em nada, caros católicos. Devemos aproveitar tudo para o crescimento de nossa união com Nosso Senhor Jesus Cristo. Não devemos ficar murmurando, reclamando dos defeitos dos outros. Ainda menos reclamar das disposições da divina providência que permite que os bons convivam com os maus. Devemos nos convencer disso, caros católicos, com convicção profunda e inteira confiança em Deus.
Devemos, como diz São Paulo na Epístola de hoje, nos revestir de sentimentos de misericórdia, de benignidade, de humildade, de mansidão, de paciência, sofrendo-nos uns aos outros e perdoando-nos mutuamente, se algum tem razão de queixa contra o outro. Assim como o Senhor nos perdoou a nós, também nós devemos perdoar (uns aos outros). Sobretudo, devemos ter caridade, que é o vínculo da perfeição… Ensinemos e admoestemos uns aos outros, com toda a sabedoria… Tudo o que fizerdes, em palavras ou por obras, fazei tudo em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai.