Sermão do XXV Domingo Depois de Pentecostes(V Depois da Epifania)

Sermão proferido pelo Pe. Ivan Chudzik – Capela do Hospital da Beneficente Portuguesa.

Sermo in V Dominica quæ superfluit post Epiphaniam

Bethlehem a Brasilia, 11 novembris A.D. 2018

A paz que Nosso Senhor nos dá não é a do mundo

Inúmeras vezes ouvimos o mundo nos falar de “paz”, de “combate à violência”, de “superação de preconceitos” ou de “aceitação da diferença”. Sob diversos títulos, a sociedade pretende nos convencer que todo o mal do mundo consiste no confronto entre concepções diversas sobre as coisas, isto é: um quer fazer prevalecer o seu juízo sobre o do outro, e para tanto recorre à “violência” verbal ou mesmo física.
Isto significa que, para tal mentalidade pacificista, não se pode eliminar as injustiças e conflitos entre cidadãos sem antes renunciar à verdade objetiva, porque é a própria “pretensão” que cada um tem de possuir a verdade que produziu desde as “intolerâncias” até as piores tragédias da humanidade.
Tal renúncia à verdade objetiva e aos seus direitos não é uma novidade porque sempre houve entre os filósofos; mas que tenha ludibriado os fiéis católicos, a ponto de julgarem ser a doutrina do próprio Cristo, é um erro que toma proporções cada vez maiores e preocupantes.
Não obstante, ouvimos no Intróito: “Diz o Senhor: conheço os pensamentos de paz e não de aflição” (Jer. XXIX, 12), assim como na epístola da Missa: “Triunfe em vossos corações a paz de Cristo, para a qual fostes chamados a fim de formar um único corpo.” (Col. III, 15) Tamanha é a indignação que o pacifismo propagado pelo mundo causa entre os católicos fiéis à doutrina que frequentemente estes se esquecem ou não consideram que Nosso Senhor veio nos trazer a paz. E justamente porque o Messias era profetizado como “Príncipe da paz” (Is. IX, 5) que os fariseus esperavam a extirpação de todos os males e a destruição de todos os inimigos de Israel quando da Sua vinda. Donde o interesse de bem compreendermos a parábola do Evangelho, pela qual Nosso Senhor quis lhes ensinar a Sua paz, e da qual tiraremos lições para a nossa vida espiritual e para o apostolado.
Primeiramente, a parábola da joio e do trigo—assim como a das virgens insensatas e prudentes—rechaça o messianismo dos fariseus, ou seja, de que o Reino do Messias era meramente temporal, como uma espécie de retorno do Paraíso perdido de Adão. Não é possível que dentro de um reino perfeito haja trigo e joio juntos, isto é, bons e maus. A parábola opera uma distinção até então desconhecida: enquanto durar este mundo, conviverão bons e maus, enquanto que a separação está prometida para a eternidade: no Céu só entrarão os bons. Esta lição que receberam os fariseus também se aplica aos erros dos protestantes: a Igreja de Cristo não pode ser apenas “interna” ou “invisível”, ela não consiste apenas no estado de graça ou na união com Deus; do contrário, não se compreende como ela pode incluir os maus, sendo que estes, por causa do pecado grave, não vivem na graça. Para que até mesmo os maus possam pertencer à Igreja, é preciso que a sua natureza seja também exterior e visível, assim como o joio da parábola pôde ser distinguido do trigo. Com efeito, Nosso Senhor instituiu uma sociedade perfeita, que é espiritual, mas também hierárquica, jurídica, provida de Magistério, sacerdócio e ritos como os da Santa Missa. Convém dizer por último que a lição da parábola não deixa de se aplicar aos erros da dita “Teologia da Libertação”. Frequentemente ouvimos dos seus representares expressões como “em marcha para o Reino” ou então “trabalhar para a construção do Reino”. Ainda que tais expressões também tenham penetrado o vocabulário de muitos na Igreja, e fazendo abstração das tentativas de interpretá-las bem, é preciso considerar que, na mente de um teólogo da Libertação, o Reino de Deus ainda está para vir, e consiste tão-somente na justiça social. Ora, Nosso Senhor disse: “[…] o Reino de Deus já está no meio de vós” (Lc. XVII, 21). Não somos nós que “construímos o Reino”; foi Nosso Senhor que o fundou; não estamos em marcha para o Reino como se ele ainda não existisse, mas somos membros da Igreja militante e esperamos nos associar à plenitude deste Reino na Igreja triunfante.
Todavia, uma vez estabelecido que na sociedade civil e na Igreja de Nosso Senhor devem conviver até o fim da história bons e maus, devemos nos perguntar: qual a atitude dos bons com relação aos maus?
Certamente é um erro renunciar à verdade em nome de uma falsa caridade que não passa de filantropia, isto é, o “amor ao homem” por ele mesmo. Não é possível amar o próximo sem exercer a misericórdia espiritual, ensinando-o e o corrigindo. Melhor do que isto: não é possível amar o próximo, desejando-lhe todos os bens deste mundo, mas o privando do Sumo Bem pela recusa de se fazer apostolado. Disse o Salvador: “Porque o que quiser salvar a sua vida, irá perdê-la; mas o que perder a sua vida por amor de mim e do Evangelho, irá salvá-la.” (Mc. VIII, 36) Para salvarmos as almas que nos foram confiadas, é preciso ensiná-las a perderem e renunciarem tudo aquilo que se opõe ao amor de Deus.
Isto significa que toda correção, ainda que justa, deve ser feita por amor a Deus. Nosso Senhor repreendeu severamente os filhos de Zebedeu, Tiago e João, quando Lhe perguntaram se podiam pedir fogo do céu para consumir uma povoação que não quis recebê-Lo (cf. Lc. IX, 55-56). Nós frequentemente nos inflamamos durante o apostolado, e esta é a razão pela qual ele é ineficaz: o que nos move à indignação não é tanto o desinteresse dos outros em praticar a Religião, mas principalmente a sua indisposição em nos ouvir e concordar. Tal indignação é fruto do amor-próprio ferido, e por quê não um castigo para todo apostolado feito por “ativismo”, quando se tem sede de debater com conhecidos e desconhecidos e não se faz o apostolado proceder da vida interior, sem a qual mesmo os mais brilhantes argumentos não podem mover a dureza de coração de quem vive longe de Deus.
Não obstante, ainda que pratiquemos a caridade para com os maus pelas obras de misericórdia espiritual, é certo que a quantidade de maus supera a de bons, e que muitas vez não conseguimos mover sequer os nossos parentes mais próximos à prática da Religião. Assim, resta uma outra razão pela qual o joio foi semeado em meio ao trigo. Disse Santo Agostinho: “A abundância de maus é boa matéria de purificação para os bons” (Sermo 15, PL 38, 116-121) Nosso Senhor não quer que o joio seja retirado do trigo antes do fim do mundo porque isto serve para nos provar, para nos obrigar à prática das virtudes em meio às adversidades. Continua o Santo Doutor: “Ó irmãos meus, quantos e quantos em meio a esta luta pela vida, em meio à maldade deste mundo e em plena abundância de males souberam retirar-se e dirigir-se a Deus!” (idem) Nós devemos nos servir da maldade dos maus para nos voltarmos com mais confiança e ardor a Deus, ao invés de justificarmos a nossa própria mediocridade e tibieza pela ausência de uma sociedade católica perfeita em torno de nós. Mesmo no melhor dos cenários, a parábola é clara: sempre haverá joio junto ao trigo. Donde a paz de Cristo consistir na conformidade da nossa vontade à de Deus, e não na ausência de males físicos ou morais. Disse o Salvador: “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Não vo-la dou como o mundo a dá. Não se perturbe o vosso coração, nem se atemorize!” (Jo. XIV, 27) Aquele que julga ter paz porque vive na abundância de bens materiais, conforto, segurança e consolações certamente guarda o temor de tudo perder um dia; e onde há temor não existe verdadeira paz ou felicidade. Por outro lado, ainda que percamos tudo, se não perdermos o amor a Deus, guardaremos a mais inabalável tranquilidade de alma, como diz a Escritura: “[…] as almas dos justos estão na mão de Deus, e nenhum tormento os tocará. Aparentemente estão mortos aos olhos dos insensatos […], quando na verdade estão na paz!” (Sab. III, 1-3) Não esperemos praticar mais e melhor a Religião quando a sociedade se tornar mais católica; esta certeza não nos pertence; porém, o que sabemos é que a paz de Cristo não apenas sobrevive mas também cresce em meio às piores crises nas almas daqueles que se entregam à vontade de Deus. De uma certa maneira, o joio está presente em meio ao trigo para nos obrigar a procurar a paz de Deus e não a paz do mundo.
Para concluir, é preciso notar que o inimigo semeia o joio no mundo e, e não outra semente qualquer, porque esta planta praticamente não se distingue do trigo nem pela raiz, nem pelas folhas e nem pelas flores, sobretudo nos seus primeiros estágios, até que tenha formado a espiga. Isto não deixa de ser uma imagem dos disfarces que o erro toma para enganar os católicos, isto é, assumindo uma aparência de bem. Ainda que os maus convivam com os bons no mundo, os católicos devem evitar, na medida do possível, o contato com os maus e não se associar a obras em que os princípios não sejam integralmente bons. Basta um erro nos princípios para que as conclusões se afastem consideravelmente da Fé católica. Nosso Senhor Jesus Cristo, nossa paz, também disse: “Não julgueis que vim trazer a paz à terra. Vim trazer não a paz, mas a espada.” (Mt. X, 34) A paz de Cristo exige que não tenhamos acordos com o mundo, ainda que sob o pretexto de apostolado.