A Crisma

 

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Sempre foi um imperioso dever de todos os tempos, que os pastores se esmerassem em explicar o Sacramento da Confirmação. Hoje em dia, porém, devem expô-lo com maior empenho e cuidado, porque na Santa Igreja de Deus muitos deixam absolutamente de receber a Crisma; e, de quantos a recebem, raríssimos são os que procuram alcançar, plenamente, os devidos frutos da graça sacramental.” – Catecismo Romano

O sacramento da Crisma ou Confirmação, ao contrário do que alguns pensaram ao longo da história e ainda hoje pensam, não é uma mera confirmação ou tomada de consciência da graça batismal para aqueles que receberam o batismo quando crianças, mas um verdadeiro sacramento, com uma graça sacramental particular que “confirma” ou aperfeiçoa em nós a vida da Graça, especialmente pela abundância dons do Espírito Santo que ele derrama sobre aqueles que o recebem.

Por não ser estritamente necessário para a salvação, como é o Batismo, é comum que os católicos façam pouco caso de recebê-lo. Mais ainda, pelo fato de ser conferido a pessoas que já passaram da idade da razão e que muitas vezes já têm o poder de decisão sobre o que fazem, a influência benéfica de uma mãe ou de uma avó devota, que talvez tenha sido decisiva quando do Batismo, já não tem mais o mesmo efeito quando da Crisma. Seja qual for o motivo, é um grave erro. Os sacramentos são os meios ordinários e abundantes da graça, instituídos por Nosso Senhor. Não há motivo para se esperar que Deus dê esses mesmos dons que Ele daria na Crisma por algum meio extraordinário, se podendo receber, o católico negligenciou a sua recepção. Ou seja, um grande número de graças que estavam reservadas para esta pessoa, não serão dadas.

Ainda há mais: a Crisma é um daqueles sacramentos que imprime caráter. Esse caráter é uma marca indelével, ou como se diz em filosofia, um acidente na alma, que nos configura como soldados de Cristo. Por ser de ordem espiritual, nós não vemos esse acidente, mas Deus, sim o vê e sempre nos dá graças especiais para nos auxiliar nos deveres próprios do crismado, que são defender e propagar a Fé recebida no Batismo.

O sacramento da Crisma realiza em nós aquilo que foi realizado nos Apóstolos de forma mais abundante e espetacular no dia de Pentecostes. Foi a partir desse momento que eles, esquecendo o perigo que corriam e zelosos pela propagação da Fé em Nosso Senhor, começaram a vida propriamente apostólica e, em um só dia, São Pedro converteu mais de três mil judeus. Por isso nos ensinou o Papa São Melquíades (313-314): “Pelo Batismo, diz ele, o homem alista-se na milícia; pela Confirmação, equipa-se para a luta. Na fonte batismal, o Espírito Santo confere a plenitude da inocência; na Confirmação, dá a consumação da graça. No Batismo, renascemos para a vida; depois do Batismo, somos confirmados para a luta. No Batismo, somos purificados; depois do Batismo, somos munidos de força. A regeneração garante de per si a salvação aos que se batizam em tempo de paz; a Confirmação arma e adestra para os embates da guerra”. Em resumo, a Crisma nos faz soldados de Cristo.

Como os outros sacramentos, o Crisma, necessita de matéria, forma e ministro adequados, para que a sua validade seja garantida. A matéria é a imposição das mãos do Bispo e a unção feita na fronte do crismando, com o óleo do Crisma, que quer dizer, em grego, unção. Este óleo é composto de uma mistura de azeite e bálsamo e é consagrado em uma benção solene, pelo Bispo na Quinta-feira Santa.  “O óleo, que se derrama e fortalece, significa a abundância da graça que se difunde na alma do cristão para confirmar na Fé; e o bálsamo, que é aromático e preserva da corrupção, significa que o cristão fortificado por esta graça é capaz de difundir o bom aroma das virtudes cristãs, e de preservar-se da corrupção dos vícios” (Catecismo de São Pio X). A imposição da mão, como em outros sacramentos, simboliza o domínio de Deus sobre aquele que recebe.

Quanto à benção do Santo Crisma (óleo), se explica a necessidade dela ser tão especial pelo fato de não se conhecer que Nosso Senhor o tenha santificado de alguma outra forma, como fez com a água quando do seu Batismo ou com o pão e o vinho quando da Última Ceia.

A forma no Rito Romano Tradicional é a seguinte: Eu te assinalo com o sinal da Cruz, e te confirmo com o Crisma da salvação, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Assim seja. Ele exprime em primeiro lugar o sinal com que é marcado aquele que fará parte do Exército de Cristo, em seguida, o vigor do coração e do espírito que a Crisma comunica aos que o recebem para a sua salvação, enfim, o poder divino que opera no Sacramento fazendo menção à Santíssima Trindade.

O ministro ordinário desse sacramento é o Bispo. Um padre só pode conferi-lo validamente com a sua delegação. A razão dessa exclusividade é dada pelo Catecismo Romano da seguinte maneira: “Na construção de casas, os operários desempenham o papel de ajudantes inferiores. São eles que preparam e assentam a pedra, a argamassa, a madeira, os outros materiais, e assim erguem a construção. Mas a última demão do edifício fica na responsabilidade do mestre de obras. Ora, o mesmo se dá também com este Sacramento. Como simboliza, por assim dizer, o remate de um edifício espiritual, era conveniente que por nenhum outro fosse administrado, senão por quem tivesse a plenitude do sacerdócio.

Como para o Batismo, a Igreja também pede ao crismando que escolha um padrinho ou madrinha de Crisma, que seja um verdadeiro guia e companheiro na vida cristã, que cresce em maturidade. Segundo o costume, é uma só pessoa e do mesmo sexo do crismando. No mais, essa pessoa deve ser já crismada e viver segundo a lei de Deus e da Igreja, para que possa guiar o afilhado antes de tudo pelo exemplo de vida. Cabe aqui lembrar o aviso feito quando tratamos do Batismo: Aquele que por motivos de amizade ou parentesco quisesse escolher um padrinho que não esteja em conformidade com aquilo que pede a Igreja, dá prova de uma verdadeira ignorância, senão de um desprezo por aquilo que o sacramento é.

 

Padre José Luiz Zucchi, IBP.