Sermão da Festa de Cristo Rei

Pe. Ivan Chudzik – Igreja Nossa Senhora do Rosário.

Sermo in festo Domini Nostri Jesu Christi Regis
XXIII Dominica post Pentecosten
Bethlehem a Brasilia, 28 octobris A.D. 2018

Entre Herodes e Pilatos, esquerda e direita, o Cristo Rei é vitorioso de todo liberalismo

A festa instituída por Pio XI em honra a Cristo Rei tem por Evangelho o diálogo entre Nosso Senhor e Pilatos, e não a cena do Juízo final. Com efeito, o Reino de Jesus Cristo não é apenas escatológico, isto é, reservado ao fim dos tempos, ao Céu—como poderíamos pensar considerando apenas o Intróito—; tampouco é um Reino unicamente espiritual ou interior, de Deus reinando nas almas dos justos—como trata a Epístola da Missa—, mas é também um Reino social, exigindo a submissão tanto das instituições quanto dos cidadãos à lei da Igreja.
Não obstante, no diálogo entre Nosso Senhor e Pilatos, ouvimos o Salvador dizer: “O meu Reino não é deste mundo” (Jo. XVIII, 36). De fato, o Seu Reino não é deste mundo, mas está neste mundo, na medida em que a Igreja Militante, composta por nós batizados, está a caminho da Igreja Triunfante, composta pelos Santos do Céu. Donde Nosso Senhor ter nascido neste mundo: para nos redimir e nos conquistar com Seu Sangue, fundando a Igreja, sociedade hierárquica e não igualitária, visível e não unicamente espiritual ou interior, e perfeita, não necessitando receber nada das seitas ou falsas religiões. Todavia, podemos dizer que a Igreja fundada por Cristo se identifica com o Reino dos Céus pregado por Ele?
Com efeito, o Reino de Deus consiste essencialmente na participação à Sua vida divina. Ao Reino de Deus pertencem todos os justos de todas as épocas, na terra, no Purgatório e no Paraíso. Consequentemente, podemos dizer que os justos do Antigo Testamento pertencem ao Reino de Deus porque se salvaram e estão no Céu, mas nunca foram propriamente membros da Igreja católica, fundada por Nosso Senhor. Não obstante, a Igreja católica é o Reino de Deus, na medida em que é o seu último estágio sobre a terra, pela perfeição da sua lei e dos meios de salvação. Erram, portanto, aqueles que identificam o Reino de Deus à justiça social; mesmo a Igreja sendo o estágio mais acabado do Reino de Deus neste mundo, ela não deixa de ser uma sociedade peregrina, cujos membros devem se associar um dia aos seus concidadãos do Céu.
Ora, se o Reino de Deus não consiste numa mera justiça social, não obstante, na medida em que Deus elevou o homem a uma finalidade sobrenatural e fundou a Igreja como sociedade hierárquica, visível e perfeita, isto significa que faz parte da doutrina católica propugnar o reinado de Nosso Senhor na esfera pública. A missão divina da Igreja não se reduz, portanto, às consciências, à vida espiritual individual, mas exige a adesão de toda a sociedade civil; o que significa que entre a Doutrina da Igreja e as liberdades promulgadas pela democracias liberais há uma inimizade irreconciliável. Assim, não se pode crer que Jesus Cristo é Deus e se permitir ou promover o exercício público das demais religiões, que são necessariamente falsas; não se pode crer que o homem foi criado por Deus Nosso Senhor e aceitar que o poder emana do povo ou que qualquer união estável, inclusive as que se fundam na sodomia, podem receber o título de “casamento”; não se pode crer que a Igreja católica é a única Igreja de Cristo, fora da qual não há salvação, e não promover a sua difusão e a educação católica de todos os cidadãos, a começar pelas crianças, em todas as instituições públicas; não se pode crer que a missão da Igreja consiste na salvação das almas e defender o liberalismo econômico, como se o acúmulo de riquezas não precisasse se submeter à Moral. Se a nossa Fé em Nosso Senhor se reduz ao foro interno, então nunca tivemos Fé em Nosso Senhor, porque não O julgamos digno o suficiente de reinar para além das nossas consciências. Pelo contrário: Aquele que é o sentido da nossa existência é também o sentido da sociedade e da própria História; o Seu Reinado social não é uma opção, é uma necessidade.
Tal exigência implica na obrigação de todo católico em fazer apostolado, de acordo com as suas capacidades e deveres de estado, para que o Cristo reine em cada ambiente, em cada repartição, em cada instância, em cada setor, enfim, em toda a sociedade e em todos os seus membros. Donde o nosso interesse em observar atentamente duas figuras que se opõem ao Cristo Rei durante o Seu julgamento, e que representam bem o mais pernicioso erro contra o Reinado social: o liberalismo.
Primeiramente, a figura de Herodes. Quando Nosso Senhor foi enviado à casa de Herodes, este se alegrou, pois esperava presenciar um milagre (cf. Lc. XXIII, 8). Todavia, após ter feitos muitas perguntas e recebido apenas o silêncio do Redentor, Herodes O tratou com desprezo, escarneceu-O, mandou revesti-Lo com uma túnica branca e O reenviou a Pilatos (cf. Lc. XXIII, 11). Sabemos que Herodes vivia em adultério, e que por causa de uma dança aceitou mandar degolar São João Batista. A figura de Herodes, portanto, representa o liberalismo daqueles que não põem freios às suas paixões, e por isso se rebelam contra a lei de Deus. No encontro com Nosso Senhor, o que interessou Herodes foi muito mais a curiosidade vã do milagre, para satisfazer seus sentidos, do que a santidade da vida e da doutrina do Salvador. Ao vesti-Lo com uma túnica branca, Herodes tratou Nosso Senhor de louco. Do mesmo modo, para o liberalismo das correntes políticas de esquerda, a doutrina católica não passa de uma “loucura”, a “loucura” daqueles que não se fazem escravos das suas paixões e instintos em nome de uma pretensa “liberdade”. Contra esta falsa liberdade dos liberais, diz São Paulo: “A linguagem da cruz é loucura para os que se perdem, mas, para os que foram salvos, para nós, é uma força divina.” (I Cor. I, 18)
Diferentemente de Herodes, Pilatos procurava inocentar Nosso Senhor (cf. Jo. XIX, 4; 6; 12), manifestando um certo interesse na Sua Pessoa e doutrina. Não obstante, enquanto Herodes apenas O revestiu de uma túnica branca, foi Pilatos que mandou flagelá-Lo (cf. Jo XIX, 1), que quis entregá-Lo aos judeus para que O condenassem por si mesmos (cf. Jo. XIX, 6); que se lavou as mãos (cf. Mt. XXVII, 24) e aceitou a Sua crucifixão (cf. XIX, 16). Pilatos também é figura do liberalismo, mas de um liberalismo dito conservador, que pretende fazer o que é justo porém sem a devida intolerância ao erro e ao pecado. Tal liberalismo é muito mais perigoso e bem mais presente entre os católicos. Quantas vezes, por exemplo, ouvimos dizer que “cada um é livre para fazer o que bem quiser”, e que o único mal consiste em impor a sua ideologia aos outros, sobretudo às crianças. Ora, impor uma ideologia certamente é um mal, mas não se importar com os erros e pecados alheios apenas porque pertencem à vida privada, a uma “escolha pessoal” que deve ser respeitada acima de tudo, também é um mal. O católico deve reprovar as ideologias seja quando são impostas à sociedade seja quando praticadas por quem as escolheu. Por conseguinte, uma sociedade católica deveria coibir a manifestação dos erros e dos pecados públicos mesmo quando certos cidadãos têm o desejo de praticá-los, porque ninguém tem “direito” ao erro e ao pecado, que são um desvio e não o exercício da liberdade. Ainda que a sociedade não possa dissuadir certos cidadãos, ela deve pelo menos impedir que os erros e os pecados públicos tenham visibilidade, e assim não seduzam ou escandalizem os demais.
Voltando à figura de Pilatos, observamos justamente que ele estava pessoalmente convencido da inocência de Nosso Senhor, mas não foi firme o suficiente para impôr o seu juízo diante dos judeus, preferindo guardá-lo para si. Nós católicos não podemos reduzir as nossas convicções de Fé ao foro interno, à vida privada, como se a vida em sociedade exigisse outras regras diante das quais a nossa Religião se torna inconveniente. Disse Nosso Senhor: “Se alguém se envergonhar de mim e das minhas palavras, também o Filho do Homem se envergonhará dele.” (Lc. IX, 26) E esta vergonha que o Salvador terá de nós significa a nossa condenação.
Pilatos cedeu a condenação de Nosso Senhor, mas não sem antes tentar negociar com os judeus a Sua soltura ou uma mudança de tribunal. Do mesmo modo, o liberalismo de tendência conservadora pretende praticar as obras de apostolado negociando e concluindo acordos com aqueles que não têm os mesmos princípios que os nossos, pondo em risco a integridade do bem que se pretende fazer. Com efeito, somente é lícito aos católicos se aliarem aos seus inimigos se os seus princípios não forem comprometidos, o que nem sempre é o caso, porque dificilmente os católicos se preocupam com os princípios quando pretendem, por exemplo, defender a vida ou combater o Comunismo. E sob a motivação de uma finalidade boa, esquecem-se das circunstâncias perigosas e assimilam sutilmente os erros dos nossos inimigos. Quantas vezes encontramos católicos militantes de movimentos cuja finalidade é honesta, mas que já não pensam como católicos! De católicos militantes se tornaram tão-somente “militantes” de um ativismo pernicioso.
Notemos, por fim, que Pilatos pergunta: “Que é a verdade?” (Jo. XVIII, 38) porém não espera Nosso Senhor responder; sai da Sua presença e vai ter com os judeus novamente. Do mesmo modo, o liberalismo de tendência conservadora erra por não deixar o Verbo encarnado ensinar toda a verdade; ele se admira com alguns aspectos da doutrina católica—e Pilatos aceitou em alguns momentos ouvir o Salvador—, mas não adere integralmente a esta doutrina, porque prefere as conclusões de certos filósofos ou professores em matéria diversas como filosofia, política, economia, cultura etc., ainda que em contradição com o Magistério constante da Igreja.
Se julgamos que o nosso combate se restringe aos erros do Marxismo e da Teologia da Libertação, saibamos: estes não passam dos erros mais grosseiros, que podem enganar somente os mais incautos. Apenas os católicos de mais estudo podem se deixar iludir pelos erros de um liberalismo de tendência direitista e conservadora. Todavia, não nos esqueçamos: após Herodes ter reenviado Nosso Senhor a Pilatos—diz o Evangelho—, os dois, que eram inimigos, fizeram as pazes naquele mesmo dia (cf. Lc. XXIII, 12). Ambos os liberalismos são contrários ao Reinado social de Nosso Senhor, seja o de esquerda seja o de direita, porque o fundamento de ambos é uma noção imoral de liberdade, que assegura ao indivíduo o direito de escolher inclusive o que é ilícito. Uns escolhem seguir as paixões e saciar os instintos, e estes cometem erros mais grosseiros e evidentes—são os liberais de esquerda—; outros escolhem defender certos bens naturais ou se admiram com algumas verdades da Fé católica, mas procurando conciliá-las com princípios alheios ao Evangelho—como a unidade transcendental das religiões antigas—são os liberais de direita. O Cristo Rei, que calca aos pés o leão e o dragão, como diz o Salmo (cf. Sl. XC, 13), é vitorioso tanto sobre uns quanto sobre outros.