O homem é um animal político, mas não pode se tornar um político animal.

 

            Se “um abismo atrai outro abismo”, como diz o Salmo (XLII, 7), em tempos de crise as próprias crises costumam engendrar outras tantas, num ciclo longe de se resolver. Perante inúmeros males e prejuízos que atingem todas as esferas da sociedade, não havendo um remédio universal à vista, a “solução” que a maioria dos cidadãos encontra é se resignar diante de males insuperáveis, procurando evitar o máximo de prejuízo pessoal. Uma vez que o bem comum se encontra ameaçado pelas crises, ou melhor, por causa das crises é usufruído apenas pela parcela mais abastada da sociedade, os cidadãos se obrigam a procurar unicamente o seu bem particular, renunciando se importar com o bem do próximo: quanto maior a crise tanto mais a própria sobrevivência se torna uma questão de urgência.

            Não obstante, há quem não se conforme em procurar tão-somente o bem particular e se ponha em defesa do bem comum. Esta defesa, evidentemente, não pode ser uma mera iniciativa individual, porque o indivíduo isolado dificilmente poderia vir em socorro de toda a sociedade. Seria como na Mitologia grega, em que Prometeu é punido por Zeus por ter transmitido o fogo dos deuses à humanidade: quanto maior a crise tanto mais as iniciativas pessoais que destoam da atitude comum dos cidadãos parece uma “loucura” a não ser imitada nem repetida.

            Ora, a defesa do bem comum só pode ser eficaz se for realizada por pelo menos uma parcela considerável da sociedade. Donde uma sociedade em crise possuir tantos partidos, causas, movimentos ou ideologias, em que cada grupo se organiza, ou melhor, se mobiliza, para reorganizá-la à sua maneira; mas o que todos procuram sem distinção é o poder político: sem ele, as tentativas de solução de uma crise não terão os meios para realizá-la, razão pela qual em muitos casos a revolução é a via encontrada por certas ideologias, a fim de obter o poder político quando isto não foi possível por via legal.

            Com efeito, já dizia Aristóteles que “o homem é um animal político”, isto é, sua natureza está ordenada à vida em sociedade, porque o bem particular do indivíduo passa pelo bem da sociedade, isto é, o bem comum. A justiça e a paz que emanam da ordem social garantem e facilitam a plena posse do bem particular de cada um, de modo que a sociedade assume a função de instrumento na consecução do fim último do homem. Neste sentido, o homem não pode buscar a felicidade desinteressado de que a sociedade a busque também, pois o fim da sociedade não é outro senão o próprio fim do indivíduo.

            Não obstante, a obstinação pela política faz com que o homem passe de “animal político” a “político animal”, isto é, um ser que pretende, pela política, transformar a sociedade numa espécie de “paraíso terrestre”, como se o fim da vida consistisse tão-somente na satisfação dos apetites da natureza ou na posse de bens materiais. Com efeito, se o homem, animal político, reduz sua existência àquilo que tem de comum com os animais—comer, beber, dormir, etc.—ele se torna tragicamente num político animal, fazendo política para saciar mais fácil, plena e seguramente os instintos, e não mais do que os instintos. Deste modo, a diferença entre a pólis e o formigueiro (ou a colméia) diminui severamente, porque o político animal—ou melhor, animalizado—se servirá da sua inteligência abstrata apenas para garantir sobrevivência e prazer sensível.

            Ora, se o poder político é necessário para organizar os cidadãos na busca do bem comum—o que exclui o anarquismo de toda concepção realista do homem e do mundo—, ele se torna relativo e secundário se se toma em consideração que o sentido da vida humana não se reduz às necessidades do corpo e não se conclui com a morte. Pelo uso da razão, sabe-se com certeza que o bem do corpo está ordenado ao bem da alma; portanto, erram gravemente aqueles que propugnam uma “solução política” que reduza a felicidade do homem ao bem do corpo, ou melhor, à saciedade dos apetites. Em outras palavras, e sem nenhuma consideração religiosa, não se pode admitir nenhuma outra possibilidade de felicidade neste mundo fora da contemplação virtuosa da verdade da qual tratou Aristóteles no livro da Ética. Isto significa que o Comunismo e todas as demais formas de utopia, pelo simples fato de considerarem o homem tão-somente sob o viés político, econômico e social, não oferecem à natureza humana um bem à altura da sua dignidade: se homem é mais do que uma formiga e a sociedade é mais do que um formigueiro, então a felicidade é mais do que “ter o estômago cheio”. Por piores que sejam as mazelas de uma sociedade, a carência de alimentos, as epidemias, o flagelo de uma guerra ou de um regime opressor não podem abalar estes princípios que são de ordem metafísica, e consequentemente válidos em qualquer circunstância. É um erro crasso julgar que o estado atual de coisas exige “outros princípios” ou “novas soluções”, porque toda a tentativa de solução que se oponha à ordem real será necessariamente catastrófica. Pode-se buscar outros meios, mas não um outro fim; e se a natureza do homem está ordenada à contemplação virtuosa da verdade, as utopias materialistas serão sempre intrinsecamente más.

            Não obstante, há quem queira “espiritualizar” as utopias, dando-lhes um viés religioso, pelo uso do Evangelho. Mas, como disse ex-frei Leonardo Boff: “O que propomos não é Teologia dentro do marxismo, mas marxismo dentro da Teologia.”[1] Assim, a entrada do materialismo histórico dialético dentro da Revelação cristã implicará na reinterpretação de todos os dogmas e portanto no esvaziamento e substituição do seu sentido espiritual por um sentido materialista. De nada serve os representantes da Teologia da Libertação pregarem sobre o “Reino de Deus” se este reino não passa, na sua interpretação “libertadora”, de um suposto “paraíso socialista”! Portanto, a herética Teologia da Libertação não obtém nenhuma espiritualização; trata-se apenas e vergonhosamente na “prostituição” da Teologia aos interesses políticos do Marxismo.

            Para que o homem, animal político, não se torne num “político animal”, animalizado pela tentação materialista das utopias sociais, é certo que não se pode perder de vista a sua natureza integral, corpo e alma. Mas a própria felicidade que está ao alcance da sua natureza, como tão bem percebeu Aristóteles, torna-se um nada quando comparada àquela que lhe é oferecida gratuitamente por Deus. Com efeito, a contemplação da verdade e a vida virtuosa, que deveriam ser o fim da existência humana, assumem a condição de meio, isto é, de instrumento, diante da felicidade sobrenatural à qual Deus chama o homem, e que consiste não mais no conhecimento bem-aventurado da verdade natural, mas na visão, ou melhor, na posse do Autor de toda a verdade, o próprio Deus, que o raptará de amor e o preencherá de felicidade. Como disse Santo Inácio de Loyola nos Exercícios espirituais (Princípio e fundamento): “O homem é criado para louvar, prestar reverência e servir a Deus nosso Senhor e, mediante isto, salvar a sua alma; e as outras coisas sobre a face da terra são criadas para o homem, para que o ajudem a conseguir o fim para que é criado. Donde se segue que o homem tanto há-de usar delas quanto o ajudam para o seu fim, e tanto deve deixar-se delas, quanto disso o impedem.” Se por um excesso de bondade, Deus elevou o homem a um fim sobrenatural, a sua existência assim como a da própria sociedade devem se ordenar à posse da visão da glória no Céu, de modo que tanto a política quanto a economia já não servirão para “encher o estômago”, como na concepção marxista, mas para fornecer a devida e honesta subsistência a um homem que está a caminho da eternidade, e que precisa se apresentar diante de Deus em estado de graça, munido das virtudes morais—como a da temperança.

            Tais considerações tornam ainda mais vergonhosa situação de inúmeros ministros de Cristo que, menosprezando o seu dever grave de levar almas para o Céu, preferem se imiscuir em política, como se a existência humana se reduzisse a este mundo. A Teologia da Libertação não “batiza” o Marxismo, apenas o esconde, maliciosamente. Na verdade, é o Marxismo que “batiza” o vocabulário católico, enganando milhares de fiéis, que se engajam em causas políticas—e mesmo partidárias—e abandonam a vida espiritual por influência de falsos pastores. Em tempos tão preocupados com a “dignidade da pessoa humana” como estes, nada é mais contrário à dita dignidade do que um sistema político—com um apêndice religioso—que toma o estômago faminto do homem por centro do indivíduo e da própria História.

[1]    BOFF, Frei Leonardo. Marxismo na Teologia. In: Jornal do Brasil, 6 de abril de 1980.

 

Pe. Ivan Chudzik, IBP.