Sermão do XXII Domingo Depois de Pentecostes

Sermão proferido pelo Pe. Ivan Chudzik em Porto Alegre/RS na Igreja Nossa Senhora da Piedade.

Sermo in XXII Dominica post Pentecosten

Porto Alegre, 21 octobris A.D. 2018

Não sejamos como os fariseus: tenhamos Fé em Nosso Senhor

Desde o dia de nossa conversão, quantas vezes demos por certo que já conhecemos a verdade e a vontade de Deus e as praticamos! Notemos, todavia, o quanto esta atitude é perigosa observando o comportamento dos fariseus neste episódio do Evangelho. Com efeito, eles também tinham certeza de que conheciam as Escrituras; mas paulatinamente substituíram a vontade de Deus pela própria na medida em que a vontade de Deus Se revelou diferente daquilo que julgavam. E como o demônio pode muito bem se disfarçar de anjo do céu para nos enganar (cf. Gl. I, 8), precisamos pedir não apenas a graça de conhecer sem enganos a verdade e a vontade de Nosso Senhor, mas sobretudo a de praticá-las.
Ao interrogarem o Salvador, os discípulos dos fariseus e os herodianos O chamam de “Mestre” e dizem: “[…] sabemos que és verdadeiro e ensinas o caminho de Deus em toda a verdade, sem te preocupares com ninguém, porque não olhas para a aparência dos homens.” (Mt. XXII, 16) Não obstante, o evangelista afirma, no versículo anterior, que agiram assim procurando surpreender Nosso Senhor em Suas palavras. Ainda que reconhecessem a veracidade da Sua Pessoa e do Seu ensinamento, não pretendiam outra coisa senão encontrar nEle algum erro ou contradição a fim de desmoralizá-Lo diante das multidões; e assim que ouviram a resposta com a qual a Sabedoria de Deus os surpreendeu, eles, apesar da admiração, deixaram-nO e se retiraram.
Ora, por que os inimigos de Nosso Senhor reconhecem que Ele diz a verdade mas Lhe preparam uma armadilha? Por que O deixam e se retiram, se se admiram da Sua resposta? Porque crer não é uma obra unicamente da inteligência, crer é antes de tudo uma graça; e os fariseus recusaram esta graça ao se obstinarem na espera de um Messias político, que traria a restauração do Reino de Israel. Nada nem ninguém poderia ameaçar o seu orgulho nacional, a ponto de combaterem o próprio Deus encarnado.
Donde a importância de o católico rezar, e rezar muito, para conhecer e se conformar à verdade e à vontade de Deus, sem as quais é impossível se salvar ou fazer apostolado. Pouco importa quais são as minhas obras, as minhas atividades, as minhas inventivas pelo bem das almas: se Nosso Senhor não estiver presente, elas se revelam vãs e mesmo perigosas.
Como já dissemos, os fariseus procuravam surpreender Nosso Senhor em contradição, e para tanto enviaram os próprios discípulos a fim de não serem descobertos, pois o Salvador julgaria se tratar de jovens procurando se instruir na Lei, e assim não desconfiaria das suas intenções. Não obstante, os fariseus enviaram estes discípulos em companhia de herodianos, isto é, dos partidários de Herodes na disputa pelo poder na Palestina, que naquela época estava nas mãos de Pôncio Pilatos.
Após deliberação dos doutores da Lei, a questão que os discípulos dos fariseus e os herodianos fizeram a Nosso Senhor foi esta: “É permitido ou não pagar o imposto a César?” (Mt. XXII, 17) Se Nosso Senhor respondesse afirmativamente, o povo iria abandoná-Lo, pois o Messias não poderia pregar a submissão dos judeus a um governo pagão; mas se respondesse negativamente, seria acusado de subversivo e denunciado às autoridades romanas. A propósito, mais tarde, quando Nosso Senhor foi levado a Pilatos, os fariseus O acusaram efetivamente de incitar o povo a não pagar impostos (cf. Lc. XXIII, 1). Isto significa que, para lançar uma questão que não passava de uma armadilha, os doutores da Lei se coligaram com os herodianos, inimigos de Pilatos; mas para obter a condenação de Nosso Senhor, posteriormente foram testemunhar contra Ele diante do próprio Pilatos! A ação dos fariseus era hipócrita e a pergunta maliciosa: pouco interessava de que lado estaria a resposta do Salvador, importava apenas constrangê-Lo ou perante o povo ou perante os romanos e assim aniquilar o seu ministério.
Todavia, os fariseus, cegos de orgulho, não podem imaginar que o Verbo encarnado não cai no laço que Lhe armam, mas faz os próprios pecadores tropeçarem em suas armadilhas. Com efeito, no Talmud, isto é, o comentário judaico à Lei, se diz que a soberania de um rei se mede pela extensão do uso da sua moeda. Ao pedir para ver uma moeda, Nosso Senhor mostra aos fariseus que eles já tinham a resposta que procuravam: se usavam a moeda dos romanos, então é porque reconheciam a legitimidade do seu governo; donde a obrigação de pagar imposto a César.
Tais considerações revelam o quanto os fariseus estavam cegos de orgulho: coligaram-se com os próprios inimigos, agiram contra os próprios princípios procurando em tudo um meio de prejudicar o Salvador. Ao mesmo tempo—não nos esqueçamos—O chamaram de “Mestre”, reconheceram que ensinava o caminho de Deus e que era veraz.
Os fariseus erraram não por ignorância, mas por malícia, não podendo suportar que o Reino do Messias fosse outro que a restauração política de Israel. Melhor do que se converterem, preferiram fabricar armadilhas para desacreditar o Salvador. Nós também podemos armar laços a Nosso Senhor pela incoerência de nossa vida espiritual e pela obstinação em certos meios de apostolado, quando pretendemos resgatar a política, a economia, a cultura ou o que quer que seja sem fazê-lo em ordem à vida sobrenatural.
Se não nos esforçamos para nos mantermos e crescermos na graça de Deus, agimos como aqueles fariseus que chamam Nosso Senhor de “Mestre”, declaram que Suas palavras são verdadeiras, admiram-se com Sua resposta mas não O seguem. Com efeito, o que nos diferenciará dos fariseus será isto: seguimos ou não seguimos Nosso Senhor? Os fariseus ouviram a resposta do Salvador mas se retiraram da presença dEle. E quanto a nós: ao sairmos desta igreja, também passaremos a semana fugindo da graça de Deus?
Ademais, se o nosso apostolado não se fundamentar na vida da graça e no desejo de pôr o nosso próximo na graça de Deus, seremos como aqueles fariseus que só se importavam em triunfar de Nosso Senhor, custe o que custar, e para tanto, traíram os próprios princípios e se coligaram com os próprios inimigos, para a sua maior vergonha. Se queremos custe o custar restaurar a política, a economia, a cultura ou o que quer que seja sem primeiramente subordinar este trabalho à salvação das almas, seremos a vergonha da Santa Igreja, pois nos declaramos católicos mas frequentamos pessoas, ambientes, cursos, manifestações, debates onde os princípios são outros, onde Deus não passa de um detalhe, e tudo isso em nome de um pretenso “Reinado social de Nosso Senhor”. Queremos mudar a sociedade em torno de nós coligando-nos formalmente com aqueles que não têm os nossos princípios e aceitando sutilmente os seus erros. Assim, se a sociedade mudará ou não, não sabemos; mas a nossa Fé certamente diminuirá, pelo medo que temos de fazer apostolado apenas entre católicos por sermos poucos e menos estruturados. Os fariseus também, observando a pobreza de meios materiais e a ausência de um discurso político, duvidaram até o fim de que Nosso Senhor fosse o Messias, e preferiram combatê-Lo. Não sejamos como os fariseus: tenhamos Fé em Nosso Senhor, em cujas mãos repousa o universo, e de Quem depende a nossa santificação e o êxito do nosso apostolado. Não queiramos agir por Nosso Senhor, sem Nosso Senhor. No discurso do “pão da vida”, Nosso Senhor não deixou de ensinar o dogma da Eucaristia ainda que à custa do escândalo e do afastamento de muitos discípulos. Não tenhamos medo de sermos poucos e de não termos tantas estruturas a nosso favor. Nosso Senhor é o nosso tudo, e Ele nos basta.