Sermão do XXI Domingo depois de Pentecostes

Padre Ivan Chudzik – Capela do Hospital Beneficente Portuguesa

Sermo in XXI Dominica post Pentecosten

Bethlehem a Brasilia, 14 octobris A.D. 2018

Sem meditação, esqueceremo-nos de Nosso Senhor

Por que frequentemente caímos nos mesmos pecados dos quais nos confessamos? Se rezamos, por que caímos? E por que caímos após termos rezado, e inclusive rezado muito? Dia após dia nos acostumamos com as quedas—que se tornam hábitos inveterados—e ainda que conheçamos o Catecismo e tenhamos lido a vida dos Santos, não sabemos e não julgamos ser possível chegar à santidade, a qual reduzimos, no melhor dos casos, na fuga das faltas graves, como se a estabilidade na graça já contivesse todos os nossos deveres para com Deus. Todavia, a parábola dos talentos (cf. Mt. XXV, 24-29) nos ensina que aquele que enterrou o seu talento foi condenado pela sua preguiça e pusilanimidade. Com efeito, é uma lei conhecida pelos Santos que, na vida espiritual, quem não avança, regride. Donde o nosso interesse em buscar o progresso na vida espiritual, e não uma mera “estabilidade” que se revela perigosa, pois quem não combate eficazmente as faltas veniais deliberadas entrará, cedo ou tarde, em ocasião de pecado grave. Para tanto, a parábola deste domingo tem muito a nos dizer.

Ouvimos que o servo, para evitar de ser vendido com sua família em pagamento da sua dívida, prostrou-se diante do seu senhor e lhe suplicava. O que é esta prostração e esta súplica senão uma imagem da oração? Com efeito, diz Santo Agostinho: “Deus não manda coisas impossíveis, mas quando manda, adverte que faças o que possas e peças o que não possas, e ajuda a poder [com o auxílio da Sua graça].” O servo não podia pagar a dívida, e por isso pediu mais tempo ao seu senhor. Do mesmo modo, devemos pedir, pela oração, aquilo que está além das nossas capacidades naturais: e a nossa santificação e salvação é a primeira petição que devemos fazer. Donde o Catecismo Romano chamar a oração de “instrumento necessário”, porque há certos bens que só se obtém por ela.

Não obstante, mal saiu o servo da presença do seu senhor que, ao encontrar um dos seus companheiros de serviço, agarrou-o pela garganta e exigiu que pagasse o que lhe devia, dívida esta consideravelmente menor do que a que tinha junto ao senhor. Tamanha injustiça foi testemunhada por outros servos, que, entristecidos, foram denunciá-lo ao senhor, de quem o servo recebera o perdão da dívida. Como pôde este servo se esquecer tão rapidamente da misericórdia com a qual foi agraciado? E como pôde ser tão severo pelo pouco que lhe devia o seu companheiro de serviço? Tal atitude passional e injusta tem o seu lugar no sentido desta parábola.

Como já dissemos, a súplica do servo é imagem da oração; não da meditação, mas da oração vocal. Com efeito, a oração é uma elevação da alma a Deus, a fim de render-Lhe as homenagens devidas e pedir-Lhe as graças que desejamos. A necessidade da oração, portanto, se funda na necessidade da graça, de modo que os atos de adoração, ação de graças, reparação ou impetração se ordenam todos à obtenção da graça. Assim, a oração vocal—aquela que fazemos por meio de palavras, como o Pai Nosso ou a Ave Maria—nos obtém eficazmente a graça, quando pedimos com Fé e humildade; não obstante, se a oração vocal pode nos obter a graça atual para uma circunstância particular, ela não basta por si mesma para nos fazer romper com nossos vícios e crescer em santidade. Afinal, a oração vocal é uma elevação da alma mas sem grande consideração das palavras que são ditas: ela nos obtém a graça, mas não nos ilumina a inteligência para conhecermos a via da santidade; ela nos ajuda a vencermos as tentações, mas não faz cessar em nós a causa de tantos pecados. Donde Santo Afonso dizer que é possível viver em pecado mortal ainda que cumprindo quotidianamente os exercícios de piedade, como o terço do Rosário. Assim, este servo que suplica e obtém perdão, mas logo após age com severidade contra o seu companheiro de serviço é imagem de um católico que reza mas não consegue progredir na vida espiritual, pondo logo a perder as graças que obteve na oração. E o que devemos fazer? Multiplicar a oração? Procurar outros meios? Ora, o meio mais eficaz de perseverarmos e crescermos na graça é a meditação.

A meditação consiste não apenas na elevação da alma, como a oração vocal, mas na aplicação da inteligência em Deus, pela consideração de alguma verdade de Fé ou de algum mistério da Vida de Nosso Senhor e de Sua Santíssima Mãe, sob a luz da graça, a fim de praticarmos melhor os nossos deveres para com Ele. Isto significa que meditação não é estudo. Ainda que a meditação dos principiantes seja mais discursiva, exigindo muitos raciocínios, a alma não está só, está elevada em Deus, em oração, e o próprio Deus lhe abre a inteligência iluminando-a com a luz da Fé. Consequentemente, o progresso na meditação produzirá a simplificação dos raciocínios, porque quanto mais uma alma está unida a Deus, mais intensa está nela a luz da Fé, e menores serão os esforços para conhecer claramente o que Nosso Senhor tem a lhe dizer ou ensinar. Meditação não é estudo porque a alma que se eleva e se aplica numa verdade de Fé quer ser ilustrada por Deus, ao invés de construir as próprias conjecturas. Mas meditação também não é leitura espiritual: por mais que o livro seja piedoso, a mera leitura nos fará conhecer as verdades de Fé sem nos pôr em relação com elas, sem pôr a nossa vida em contraste com aquelas verdades. Com efeito, o fim da meditação é aplicar a inteligência em alguma verdade de Fé ou mistério da Vida de Nosso Senhor e de Nossa Senhora para que desta iluminação a alma produza afetos e tome resoluções a fim de se adequar ao que viu na oração. Deste conhecimento luminoso nasce o desejo de amar mais e melhor, o que redunda em bons propósitos para aplicá-lo nas diversas situações particulares do quotidiano.

Dito isso, torna-se evidente o quanto a meditação é o meio mais eficaz para nos fazer crescer em graça. Pela meditação, a alma é esclarecida a respeito da bondade de Deus, do amor imenso com o qual fomos amados na Encarnação e Paixão de Nosso Senhor, assim como da malícia e dos efeitos nefastos do pecado. Do mesmo modo, tal iluminação fortifica a vontade, porque nos imprime convicções, nos conduz à contrição sincera e à resolução de mudar de conduta. E de iluminação em iluminação, a alma cresce na prática da virtude, no cumprimento dos bons propósitos e se dá mais facilmente aos sacrifícios e à mortificação, o que significa que a meditação nos prepara à união transformante com Deus, que é a santidade. Donde o Antigo Testamento chamar aqueles que viviam na presença do Senhor de “justos”, isto é, santos. Com efeito, não é possível frequentar a presença de Deus e continuar se lançando em pecados graves ou veniais deliberados. Neste caso, como disse Santo Afonso, ou se renuncia ao pecado ou se abandona a oração.

Para que não façamos com aquele servo ingrato, não devemos nos conformar com nossos exercícios de piedade, como a oração da manhã e da noite, porque, faltando a iluminação da inteligência, eles não rompem em nós os maus hábitos, apenas nos garantem certas graças atuais. A própria récita do Terço e inclusive a assistência à Santa Missa deveria incluir a meditação, sem a qual os mistérios do Rosário e os santos mistérios do altar permanecerão estranhos para nós.

Todavia, ainda que a meditação ilumine a inteligência, sem as resoluções que devem se seguir, iremos paulatinamente nos desviar daquilo que Deus nos mostrou. Seremos como Moisés, que, no alto da montanha, na presença de Deus, pediu misericórdia para o povo quando o Senhor lhe revelara a fabricação do bezerro de ouro; mas ao descer da montanha, irou-se diante do ídolo e quebrou as tábuas da lei (cf. Ex. XXXII, 19). Com efeito, se não podemos estar continuamente na presença de Deus, considerando as Suas verdades, por causa dos inúmeros afazeres e deveres quotidianos, as resoluções, por sua vez, são o resumo prático da meditação, que visam diretamente a mudança de costumes. As resoluções, corolário da meditação, são como a armadura do cristão. Diz São Paulo: “Tomai, por tanto, a armadura de Deus, para que possais resistir nos dias maus e manter-vos inabaláveis no cumprimento do vosso dever.” (Ef. VI, 13) Assim, por menor que seja o tempo disponível para a meditação, nunca podemos concluí-la sem ter extraído alguma resolução, sem a qual não teremos armas para combater os vícios e praticar as virtudes.

À guisa de conclusão, é preciso notar que, se não há meio mais eficaz para nos fazer crescer em graça, a meditação deveria nos interessar e preocupar sobremaneira. Para tanto, os católicos deveriam organizar as suas atividades de modo a ter tempo para meditar todas as manhãs, o que implica em dormir mais cedo; o que significa que devemos dar um basta no comportamento giróvago com relação às redes sociais e ao mundo virtual, que nos consumem horas de sono em vão. Se soubéssemos hoje, por uma graça extraordinária, quanto tempo já perdemos e quantas graças deixamos de lucrar, certamente nos obrigaríamos a uma vida de grande penitência para compensar tamanho prejuízo. Não obstante, a vida de Santa Maria Madalena nos confirma na esperança de que, pouco importa o estado em que Deus nos encontra, a Sua graça é poderosa o suficiente para nos mudar, se quisermos mudar. Mas para isso, é preciso fazer meditação.