Sermão da Festa de Nossa Senhora Aparecida

Sermo in festo Beatæ Virginis Mariæ de Apparecida

Bethlehem a Brasilia, 12 octobris A.D. 2018

Precisamos nos salvar de nós mesmos, se quisermos salvar o Brasil: não sacrificar a vida interior em nome de “combates políticos”

Nos últimos meses, o Brasil tem assistido inúmeras manifestações populares em torno das eleições presidenciais. A polarização dos candidatos, que representam não apenas visões diferentes em matérias de menor importância, mas “encarnam”, por assim dizer, duas concepções opostas de sociedade, é a principal causa do interesse crescente dos cidadãos em tomar partido e se manifestar. Neste sentido, a presença das redes sociais permite a larga difusão de conteúdo político, assim como a rápida organização de manifestações coletivas nos centros urbanos. Fazendo abstração da qualidade dos candidatos e da moralidade de tais manifestações, presenciais ou virtuais, é preciso considerar certos princípios de vida espiritual a fim de que os católicos não caiam na tentação de pretender restaurar a ordem social empregando unicamente as suas capacidades naturais, sem recorrer à graça.

Se considerarmos os exemplos contidos na Sagrada Escritura, veremos o quanto a Palavra de Deus cita as multidões muito mais para expor erros ou pecados do que verdades ou virtudes. Em Números, capítulo XVI, quatro filhos de Rubem e duzentos e cinquenta israelitas compostos por homens notáveis, se rebelaram contra Moisés e Aarão, acusando-os de se colocarem acima da assembléia do Senhor, e de terem tirado o povo do Egito para que pereça no deserto. Em resposta à sua insubmissão, Deus Nosso Senhor ordenou ao povo que se afastasse dos rebeldes, e em seguida os puniu com a morte. Em Atos dos Apóstolos, capítulo XIX, um certo Demétrio, ourives, que confeccionava réplicas em prata do templo de Ártemis, convocou os demais operários para protestarem contra São Paulo, cuja pregação persuadiu muitos a abandonarem o paganismo na Ásia menor. Enquanto os operários gritavam vivas à deusa grega, uma multidão alvoroçada se formou no teatro. São Paulo pretendia se apresentar publicamente, mas foi dissuadido pelos discípulos. Como diz a Sagrada Escritura: “Todos gritavam ao mesmo tempo. A assembléia era uma grande confusão e a maioria nem sabia por que se achavam ali reunidos.” (v. 32) Os gritos de protesto duraram quase duas horas, quando finalmente o escrivão da cidade conseguiu apaziguar o povo e dispersá-lo. No Evangelho, em Marcos, capítulo V, uma multidão rogou a Nosso Senhor para Se retirar da sua região, movida pelo pânico da cura do endemoniado e do prejuízo dos porcos que se precipitaram no mar. Em João, capítulo VIII, a fim de conseguirem o apedrejamento da mulher adúltera, os fariseus a lançaram no meio da multidão e a acusaram de pecado. Nosso Senhor, por sua vez, ignorou as provocações dos fariseus e escrevia sobre a terra, somente lhes respondendo em razão da sua insistência. Em Lucas, capítulo XXII, uma multidão também foi ao encontro do Salvador, no jardim das oliveiras, para prendê-Lo. São Pedro, não aceitando que prendessem o Mestre, decepa a orelha de Malco, sem ter antes ouvido o que Nosso Senhor tinha para dizer aos apóstolos. O mesmo Pedro, uma vez passado o entusiasmo, seguiu o Mestre apenas à distância e, como já o sabemos, O negou três vezes. No capítulo seguinte, uma multidão gritava pela soltura de Barrabás; e ao ser interrogada por Pilatos duas vezes, bradou ainda mais alto pela crucifixão de Nosso Senhor. O evangelista também observa que a multidão se conservou próxima da cruz do Salvador e o observava, arrependendo-se somente após a Sua morte, quando todos voltaram para casa batendo no peito. Em contrapartida, foi no isolamento de uma montanha que Nosso Senhor escolheu os doze apóstolos (cf. Mc. XIII, 13); que Se transfigurou diante de apenas três testemunhas (cf. Mc. IX, 2-3), que Se retirava para orar só, sem os apóstolos (cf. Mt. XIV, 23), e que Se manteve em vigília, no jardim das oliveiras, numa agonia mortal, à espera das multidões que iriam prendê-Lo.

Certamente não devemos tomar os exemplos no seu sentido literal, procurando aplicá-los ao nosso caso concreto. Não obstante, extraímos da Sagrada Escritura episódios que demonstram o comportamento passional das multidões, especialmente no caso do protesto de Demétrio, em que a multidão não sabia porque estava reunida e contra quem se manifestava. Consequentemente, por maior e grave que seja a causa pela qual se manifesta, os católicos não podem permitir que a sua intervenção na esfera pública, ainda que por meios honestos e lícitos, os conduza sutilmente à aniquilação da vida interior. No caso concreto das eleições no Brasil, como dissemos no início, tudo concorre para o exacerbamento das paixões, a ponto de a militância política se tornar praticamente um vício, pelo apego excessivo e desordenado que produz na alma. É o assunto universal de muitos atualmente; é o critério que nos obriga a dividir e inclusive militar contra todos os nossos parentes, amigos e conhecidos que não têm o mesmo partido que o nosso, quando, na verdade, nós dificilmente movemos uma palha para defender a honra de Nosso Senhor em público, sob o medo da reprovação alheia; absolutizamos os meios políticos como se deles viessem a salvação, caindo na ilusão de fazer tudo depender da eleição, quando, na verdade, tudo depende da Providência; e o que nos obtém de Deus as graças necessárias é e sempre será a oração.

Assim, se o preço de “salvar o Brasil”, fazendo campanha por este ou aquele candidato praticamente sem nenhuma cautela, custará a nossa vida espiritual, por causa do exacerbamento das paixões, devemos compreender primeiramente isto: Nosso Senhor não pregou o Evangelho durante trinta e três anos, mas apenas durante os três últimos. A vida oculta, isto é, a vida de oração e trabalho de Nosso Senhor toma a maior parte da Sua carreira na terra. E Aquele que é a Sabedoria encarnada preferiu não pregar durante a adolescência, época em que não teria crédito nenhum junto aos doutores da Lei, ainda que tenha Os interrogado, por uma vez, no Templo. Nosso Senhor passou a maior parte da Sua vida rezando, e esperou a maturidade da idade adulta para iniciar o Seu ministério, o qual foi precedido por quarenta dias de jejum e oração no deserto. Aplicando estes fatos à nossa vida particular, devemos considerar que grandes obras, como foi a Redenção, são sempre precedidas por uma intensa e profunda vida de oração, assim como da maturidade e do estudo necessários. Há quem queira salvar a nação e não consiga salvar a própria alma, porque  não tem vida de oração, não combate as paixões e sequer se põe em estado de graça, buscando a Confissão sacramental. Há quem queira refutar os seus inimigos partidários sem admitir a menor possibilidade de que o seu candidato, seja ele quem for, esteja errado, caindo numa defesa passional, para não dizer romântica, que tem mais a prejudicar do que ajudar a Igreja, pois quando nos esquecemos dos erros dos nossos candidatos, também nos esquecemos de que não passam do mal menor diante do mal maior. Em suma: se a nossa defesa da nação implica no exacerbamento das paixões, não nos defendemos sequer de nós mesmos.

Consequentemente, Deus Nosso Senhor Se obriga a fracassar a nossa intervenção na esfera pública, ainda que os fins e os meios sejam honestos e lícitos, quando o fazemos em detrimento da vida interior. São Tiago diz na sua epístola (IV, 1-3; 6): “Donde vêm as lutas e as contendas entre vós? Não vêm elas de vossas paixões, que combatem em vossos membros? Cobiçais, e não recebeis; sois invejosos e ciumentos, e não conseguis o que desejais; litigais e fazeis guerra. Não obtendes, porque não pedis. Pedis e não recebeis, porque pedis mal, com o fim de satisfazerdes as vossas paixões. […] Deus, porém, dá uma graça ainda mais abundante. Por isso, ele diz—citando Provérbios: Deus resiste aos soberbos, mas dá sua graça aos humildes.” Não basta que a ação tenha fim e meios honestos e lícitos, é preciso que seja feita por amor a Deus, o que só se adquire frequentando a Sua presença, pela oração. Do contrário, a evidência dos fatos ou a perfeita articulação dos argumentos não convencerá ninguém e não mudará nada. Será apenas vaidade e aflição de espírito, consumindo noites em claro em textos escritos em redes sociais, que em pouco tempo ficarão esquecidos e jamais aplicados. Quem pretende lutar por Deus, mas sem Deus, será forçosamente humilhado por Ele.

Donde a necessidade de, dora diante, abandonarmos o calor dos debates e o barulho das multidões para, à imitação de Nosso Senhor, voltar à solidão, da qual depende uma verdadeira vida de oração, e a qual infeliz e frequentemente sacrificamos “em nome da ação ou do apostolado”. Queremos falar ao mundo; mas quando deixamos Nosso Senhor nos falar? Somos como São Pedro, cortando a orelha dos seus inimigos, sem antes ouvir o que o Salvador tem a nos dizer, o mesmo Salvador que preferiu Se entregar àqueles malfeitores. Se temos fome e sede de justiça, lembremo-nos do que disse a Santíssima Virgem no seu cântico: “[…] realizou em mim maravilhas aquele que é poderoso e cujo nome é Santo. Sua misericórdia se estende, de geração em geração, sobre os que o temem. Manifestou o poder do seu braço: desconcertou os corações dos soberbos. Derrubou do trono os poderosos e exaltou os humildes. Saciou de bens os indigentes e despediu de mãos vazias os ricos. Acolheu a Israel, seu servo, lembrado da sua misericórdia, conforme prometera a nossos pais, em favor de Abraão e sua posteridade, para sempre.” (Lc. I, 49-55) Não somos nós que salvaremos a Igreja ou o mundo, mas a Igreja que irá nos salvar e o mundo; porém, Nosso Senhor só pode nos salvar, e por nosso meio, o mundo, se tivermos vida interior. Que a Santíssima Virgem Maria, padroeira do Brasil sob o título de Aparecida, nos obtenha a graça da vida interior, da qual dependem as demais.

Pe. Ivan Chudzik