Sobre uma freira que tinha “visões” – São Francisco de Sales

À Madre de Chastel

Superiora da Visitação de Grenoble

 

Paris, fim de 1618

 

Como eu não soube antes, caríssima filha, eu só responderei agora aos dois pontos principais pelos quais a senhora me escreveu.

Em tudo o que vi de nossa Irmã Maria Constança, eu não encontrei nada que não me fizesse pensar que ela seja uma moça muito boa e que, portanto, deve ser amada e tratada com muito bom coração. Mas quanto a suas visões, elas me são infinitamente suspeitas como inúteis, vãs e indignas de consideração: pois, de um lado, elas são tão frequentes que só a sua frequência e multidão as torna dignas de desconfiança. Por outro lado, eles trazem manifestações de coisas que Deus revela muito raramente, como a certeza da salvação eterna, a confirmação em graça, o grau de santidade de várias pessoas e cem outras coisas que não servem para absolutamente nada; nesse sentido, São Gregório, tendo sido interrogado por uma dama de honra da Imperatriz, que se chamava Gregória, sobre o estado da sua futura salvação, respondeu-lhe: “A senhora, minha filha, me pede algo que é igualmente difícil e inútil.”

Ora, dizer que no futuro se conhecerá porque acontecem essas revelações, é um pretexto que aquele que o dá usa para evitar a crítica quanto à inutilidade de tais coisas. Mais ainda: quando Deus quer ser servir das revelações que Ele dá às criaturas, Ele as precede ordinariamente ou de milagres verdadeiros ou de uma santidade muito particular nos que as recebem. Por outro lado, o espírito maligno, quando quer muito enganar alguém, ao invés de lhe dar revelações falsas, ele normalmente o faz fazer prodígios falsos e ter um modo de vida falsamente santo…

Entretanto, como eu lhe disse, não é por isso que se deva maltratar essa pobre irmã, a qual, parece-me, só tem por culpa nessa questão o divertimento vão que ela goza nessas vãs imaginações. Somente, caríssima Irmã, é preciso lhe testemunhar um total desinteresse e um perfeito desprezo de todas essas revelações e visões, da mesma forma como se ela estivesse contando sonhos e alucinações causadas por uma forte febre, sem se divertir em refutá-los e combatê-los; mas ao contrário, quando ela quiser falar, deve-se mudar de assunto, ou seja, tratar de outra coisa e falar-lhe das virtudes sólidas e das perfeições da vida religiosa, e particularmente da simplicidade da fé, pela qual os santos caminharam sem visões nem quaisquer revelações particulares, contentando-se em crer firmemente na revelação da Sagrada Escritura e da doutrina apostólica e eclesiástica, lembrando com frequência a sentença de Nosso Senhor: haverá muitos feitores de milagres e grande número de profetas aos quais Ele dirá no fim do mundo: Retirai-vos de mim, artesões de iniquidade;  eu não vos conheço. Mas, de maneira geral, deve-se dizer a essa moça: “Minha irmã, falemos de nossa lição que Nosso Senhor mandou que aprendêssemos, dizendo: Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração. E, em suma, é necessário demonstrar um desprezo absoluto de todas as revelações. E quanto ao bom padre que parece aprová-las, não é preciso rejeitá-lo nem discutir com ele, mas basta mostrar que, para colocar à prova todo esse tráfego de revelações, parece bom desprezá-las e não levá-las em consideração. Este é a minha opinião no momento sobre esse ponto.

Eu havia esquecido de lhe dizer que as visões e as revelações dessa moça, não devem ser consideradas algo estranho, porque a facilidade e a sensibilidade da imaginação das moças torna-as muito mais suscetíveis a essas ilusões que os homens; por isso o sexo delas é mais dado à crença nas visões, ao medo dos espíritos e à credulidade das superstições. Parece-lhes, muitas vezes que elas veem o que elas não veem e que elas ouvem o que elas não ouvem e que elas sentem o que elas não sentem.

É engraçada a história de uma parenta minha, cujo marido tinha sido morto no Piemonte, e ela, tendo imaginado que este a tinha deixado grávida, permaneceu nessa gravidez imaginária durante catorze meses, com dores imaginárias e com sentimentos imaginários dos movimentos da criança, e no fim ela gritou durante um dia inteiro e uma noite inteira entre as contrações imaginárias de um parto imaginário e, para quem tivesse acreditado no seu juramento, ela tinha se tornado mãe ser ter tido nenhum filho.

Deve-se se tratar, então, esse espírito com o desprezo das imaginações, mas um desprezo doce e sério, e não jocoso e desdenhoso. É bem possível que o espírito maligno tenha alguma parte nessas ilusões, mas me parece mais que ele deixa agir a imaginação, cooperando somente com simples sugestões. A comparação dada [por ela] para a explicação do mistério da Trindade é muito bela, mas não está acima da capacidade de um espírito que se compraz em suas próprias imaginações.