A Oração – Santo Afonso de Ligório [Resenha do Livro]

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Negligenciada. Assim é tratada a oração por muitas pessoas. Percebendo isto já em pleno século XVIII, Santo Afonso de Ligório escreve esta breve obra, dedicada ao Verbo Encarnado, a fim de ensinar como é necessária a oração na vida espiritual para se obter a salvação e como fazê-la de modo agradável a Deus.

Santo Afonso é conhecido como o Doutor da Oração por justa causa. Durante sua vida, publicou mais de cem obras sobre o tema. Entre cartas, sermões e tratados, introduz seu livro nomeando-o como obra mais útil, entre tantas que escreveu, por duas razões. Primeiro, porque as Sagradas Escrituras e os santos Padres fazem muitas recomendações sobre a oração; e depois, por ser algo muito descuidado pelos fiéis e até mesmo pelos responsáveis da vida espiritual destes. Ora, se naquele tempo já era necessário zelar mais por esta dádiva, hoje faz-se muitas vezes mais urgente de atenção e prática real, tendo em vista o atual estilo de vida levado no mundo afora. Recorrer a Deus nada mais é do que uma graça dada a todos, porém cabe a cada um de nós recebê-la ou resistir a ela.

O livro direciona-se principalmente para a oração mental, mas também ensina a prática da oração vocal, e é dividido, nesta edição, em quatro partes. Na primeira parte, Santo Afonso trata sobre a característica impreterível da oração e já refuta com veemência os hereges pelagianos, luteranos, jansenistas e calvinistas no que diz respeito, respectivamente, à necessidade da oração, capacidade e possibilidade do homem em cumprir os mandamentos e intercessão dos santos e da Santíssima Virgem, medianeira de todas as graças. Com clareza e muita sabedoria, ele discorre sobre as forças limitadas do homem como criatura, comparando com a forma de agir de Deus com os animais. Diz-nos assim o Doutor da Oração:

O Autor da “Obra Imperfeita” diz, referindo-se aos brutos, que o Senhor a um concedeu a rapidez, a outros deu unhas, a outros cobriu de penas, para que, desse modo, pudessem conservar sua vida. O homem, porém, foi formado em tal estado que só Deus é toda sua força. Deste modo o homem é inteiramente incapaz de, por si, efetuar a sua salvação, visto que Deus quis que tudo o que tem ou pode ter receba por meio de sua graça.

Santo Afonso ainda explica a necessidade de rezarmos pelas almas do purgatório, e descreve, portanto, os sofrimentos vividos pela Igreja Padecente que depende bastante da Igreja Militante para obter alívio e consolo.

É fato, também, que os sofrimentos não passariam pelo pensamento humano se não fosse pela graça de meditar que todos estão sujeitos à morte em meio a vida, como diz um canto penitencial próprio do tempo quaresmal. Nesta parte entende-se a veracidade na frase do Doutor que diz: “É CERTO QUE QUEM REZA SE SALVA, QUEM NÃO REZA SE CONDENA”!

Na segunda parte, o autor discorre sobre como a oração do homem é preciosa a Nosso Senhor, a importância de recorrer a Ele nas tentações e faz um convite para uma verdadeira vida vitoriosa, pela qual Deus quer que nos salvemos. Diz o santo: “Deus sabe o quão salutar é para nós a necessidade de orar. Por isso permite, como foi dito no capítulo primeiro, que sejamos assaltados pelos inimigos, para pedirmos auxílio que nos oferece e promete”.

A vontade de Deus é reta, Ele deseja que nos salvemos lutando vitoriosamente contra as más inclinações e tribulações, para isto a vida espiritual precisa de um ordenamento direto que peça, suplique e agradeça as graças necessárias para tanto.

Na terceira e mais longa parte, o Doutor da Oração ensina coisas particulares: I. Por quem devemos rezar; II. A humildade com que se deve rezar; III. A confiança com que devemos rezar; e; IV. A perseverança na oração. Aqui, volta-se aos ensinamentos das partes anteriores, com exortações e instruções, narrando, certamente de modo proposital, como a caridade faz grandes obras nas almas que a ela se entregam pela oração, mesmo que estejam adoecidas com as mazelas de suas cruzes e espinhos.

Segue-se, nesta edição, a conclusão e as regras de vida cristã que foram publicadas por Santo Afonso de Ligório, no ano de 1757, em outra obra sobre as condições para a eficácia das orações, fazendo com que o livro aqui descrito seja um pequeno manual devocional, guiando os caminhos para a boa amizade com Deus e para nossa própria salvação, como já fora supradito.

“A Oração” é uma excelente leitura não só para os que desejam começar a vida de oração, mas também para aqueles que desejam a perfeição na relação com Deus. A espiritualidade contemplativa de Santo Afonso ajuda a entender como age o amor de Nosso Senhor nas vidas de seus filhos e, por consequência, enxerga-se com mais clareza o que é remédio ou veneno para a alma; o que é feito para Ele e o que é apenas para si.

Um conselho recorrente deste Santo Doutor é fazer tudo de modo que agrade a Deus, tendo-O sempre em mente no cotidiano, pois assim há de se alcançar a felicidade verdadeira e a satisfação da conformidade com a Vontade Suprema. Despoja-se, desta forma, uma alma dedicada, que sacrifica o próprio bem-estar e passa a importar-se apenas com o que Deus pensa sobre ela e com o que O agrada de verdade, tornando as honrarias próprias e mundanas apenas restos de uma vida torta e sem socorro Daquele Que É e tudo pode.

Por Glauce Aquino