Meditação – Da confiança que devemos ter em Maria como nossa mãe

Da confiança que devemos ter em Maria como nossa mãe

“Depois diz ao discípulo: Eis aí tua mãe” (Jo 19,27)

Sumário

Se Jesus Cristo é o Pai de nossas almas, porque as regenerou à vida da graça, Maria, que é a Mãe verdadeira de Jesus, deve igualmente ser chamada nossa Mãe espiritual, porque pelas suas dores cooperou para nossa redenção. Ponhamos, pois, nela a nossa confiança e sejamos quais crianças que têm sempre o nome de mãe na boca e em qualquer perigo levantam a voz e chamam sua mãe em socorro. Para sermos, porém, facilmente atendidos, imitemos as suas virtudes, especialmente as que são próprias do nosso estado.

I

Não é por acaso, nem debalde, que os devotos de Maria a chamam Mãe e parece que não sabem invocá-la com outro nome, nem se fartam de chamá-la Mãe. Mãe, sim, porque se Jesus Cristo, reconciliando-nos com Deus, se fez Pai de nossas almas, conforme a predição do Profeta: “Pai do século futuro” (Is 9,6), Maria deve ser chamada e é verdadeiramente nossa Mãe espiritual.

Segundo a explicação dos Doutores, esta grande Mãe pelo seu amor gerou-nos à graça, quando consentiu em que o Verbo Eterno se fizesse seu filho, porque, no dizer de São Bernardino de Sena, ela desde então pediu a Deus com afeto imenso a nossa salvação e de tal sorte a procurou, que bem se pode dizer que desde então nos trouxe em suas entranhas como mãe amorosíssima. Pelo que Santo Ambrósio aplica à Virgem as palavras dos sagrados Cânticos: “Teu seio é como um monte de trigo, cercado de açucenas” (Ct 7,2).

O tempo em que Maria nos deu à luz, foi quando vendo o amor do Eterno Pai para com os homens, em querer seu Filho morto pela nossa salvação e o amor do Filho em querer morrer por nós), afim de conformar-se com este amor excessivo do Pai e do Filho para com o gênero humano, ela também consentiu com toda a sua vontade que seu Filho morresse e fez o doloroso sacrifício d’Ele no Calvário. — E isto quis exatamente dizer nosso Salvador, quando, antes de expirar, olhando para sua Mãe e acenando para o discípulo predileto, lhe disse: “Mulher, eis aí teu filho” (Jo 19,26). Como se lhe dissesse: Eis aí o homem que em consequência da oferta que tu fazes de minha vida pela sua salvação, já nasce para a graça; eu te declaro sua mãe.

II

Alegrai-vos todos os que sois filhos de Maria; e que temor tendes de vos perder, quando esta Mãe vos defende e protege? Eis que ela nos chama e nos convida para junto de si:  “Todo o que é pequeno, venha a mim” (Pv 9,4). As crianças têm sempre na boca o nome da mãe; em qualquer perigo que se vejam, logo se lhes ouve levantar a voz e dizer: Mãe, Mãe! É isto exatamente o que a Virgem deseja de nós. Ela nos quer salvar, como já tem salvado tantos filhos seus; por isso quer que, quais crianças, nunca nos afastemos do seu lado e a invoquemos em todos os perigos: Todo o que é pequeno, venha a mim.

Ó minha Mãe Santíssima, como é possível que, tendo mãe tão santa, seja eu tão perverso; tendo mãe tão abrasada no amor de Deus, tenha eu de amar as criaturas; tendo mãe tão rica de virtudes, seja eu tão pobre? Ó Mãe amabilíssima, não mereço mais, é verdade, ser vosso filho; indigníssimo de tal me fiz por minha vida desregrada. Basta-me ser admitido no número de vossos servos. Sim, isto me basta; entretanto não me proibais de vos chamar também minha Mãe.

O vosso nome de Mãe me consola, enternece o meu coração, e me recorda a obrigação que tenho de vos amar. Este nome me inspira grande confiança em vós. Quando a lembrança dos meus pecados e da justiça divina me enchem de terror, sinto-me todo confortado ao pensar que sois minha Mãe. Permiti, pois, que vos diga: Minha Mãe, minha Mãe amabilíssima! Assim vos chamo e vos quero sempre chamar. Depois de Deus, vós deveis ser sempre minha esperança, meu refúgio e meu amor, enquanto estiver neste vale de lágrimas. Assim é que espero morrer, entregando, ao dar o último suspiro, a minha alma entre vossas mãos benditas, e dizendo-vos: Ó minha Mãe, ó Maria, minha Mãe, ajudai-me, tende compaixão de mim!

Extraído de “Meditações para todos os dias do ano” – Tomo II

Por Santo Afonso Maria de Ligório