O Tempo da Paixão e a Semana Santa

Depois de ter proposto à meditação dos fiéis, durante as quatro primeiras semanas da Quaresma, o jejum de quarenta dias de Jesus Cristo sobre a montanha, a Santa Igreja consagra à comemoração das dores do Redentor as duas semanas que nos separam ainda da festa da Páscoa. Ela não quer que os seus filhos cheguem ao dia da imolação do Cordeiro divino, sem terem preparado suas almas pela compaixão com os sofrimentos que ele suportou no lugar deles.

A suspensão dos trabalhos servis foi durante muito tempo obrigatória para os fiéis durante a Semana Santa; e a lei civil se unia à Lei da Igreja para produzir essa pausa solene do trabalho e dos negócios, que exprimia de maneira tão imponente o luto da Cristandade. O pensamento do Sacrifício e da Morte de Cristo era comum a todos; as relações corriqueiras entre as pessoas eram suspensas; os ofícios divinos e a oração absorviam completamente a vida moral, ao mesmo tempo que o jejum e abstinência pediam todas as forças do corpo. Pode se ter uma ideia por aí da impressão que devia causar sobre todo o resto do ano essa interrupção solene de tudo o que preocupava os homens no resto de suas vidas; e quando nos lembramos que o rigor da Quaresma já tinha pesado durante cinco semanas inteiras, sobre os apetites sensíveis, concebe-se a alegria simples e inocente com a qual era acentuada a festa da Páscoa, que trazia ao mesmo tempo a regeneração da alma e o alívio do corpo.

O Salvador, ressuscitando Lázaro em Betânia, às portas de Jerusalém, levou ao máximo a raiva dos seus inimigos. O povo se comoveu vendo reaparecer nas ruas da cidade esse morto de quatro dias; ele se pergunta se o Messias há de operar prodígios ainda maiores e se não chegou finalmente o tempo de cantar Hosana ao filho de Davi. Logo não será mais possível deter o impulso dos filhos de Israel. Os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo não têm mais tempo a perder, se quiserem impedir que Jesus de Nazaré seja proclamado Rei do Judeus. Nós vamos assistir a seus infames conselhos; o sangue do Justo vai ser vendido e pago a preço de denários. A Vítima Divina, entregue por um de seus discípulos, será julgada, condenada, imolada; e as circunstâncias desse drama não serão mais o objeto de uma simples leitura; a Santa Liturgia os representará da forma mais expressiva sobre os olhos do povo fiel.

Tais são, em resumo, as cenas augustas que nos esperam; mas, ao mesmo tempo, nós vamos ver a Santa Igreja, viúva desolada, imersa cada vez mais nas tristezas de seu luto. Outrora ela chorava o pecado de seus filhos, agora ela chora a morte do seu Esposo celeste. Já há um bom tempo que o alegre Alleluia foi banido dos cânticos; ela suprimirá de agora em diante até o grito de Glória que ela consagrava ainda à Trindade adorável. A menos que ela celebre a memória de um santo, cuja a festa se encontre antes do Sábado da Paixão, ela se absterá, primeiro em parte e depois totalmente, até dessas palavras que ela se compraz tanto em dizer: “Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo!”. Seus cantos se tornaram demasiado lúgubres, e esse grito de júbilo não combinaria com a desolação que submergiu seu coração.

Suas leituras nos Ofícios da noite, são tiradas de Jeremias, o mais lamentoso dos Profetas. A cor das suas vestes ainda é aquela que ela adotou no dia em que impôs as cinzas na fronte humilhada dos seus filhos, mas quando tiver chegado a temível Sexta-Feira, o roxo não será mais suficiente para a sua tristeza: ela se cobrirá de vestes pretas, como os que choram o falecimento de um mortal, porque seu Esposo morreu verdadeiramente nesse dia. Os pecados dos homens e os rigores da justiça divina caíram sobre Ele, e Ele entregou a sua alma ao seu Pai, em meio aos horrores da agonia.

Na espera dessa hora terrível, a Santa Igreja manifesta seus pressentimentos dolorosos, cobrindo de antemão a imagem de seu divino Esposo. A própria Cruz deixa de ser acessível aos olhos dos fiéis, desaparecendo sobre um véu sombrio. As imagens dos Santos não são mais visíveis: é justo que o servo se apague, quando a glória do Mestre foi eclipsada. Os intérpretes da Santa Liturgia nos ensinam que esse costume austero de velar a Cruz no tempo da Paixão, exprime a humilhação do Redentor, ao ter que se esconder para não ser apedrejado pelos judeus, como nós leremos no Evangelho do Domingo da Paixão.

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